MULHERES

A história de Björk com um cineasta dinamarquês é também um caso de assédio

"Espero que esta declaração apoie as atrizes e atores. Há uma onda de mudanças no mundo".

17/10/2017 12:31 -02 | Atualizado 17/10/2017 13:27 -02
Divulgação
Björk vive Selma Jezkova em "Dançando no Escuro" (2000), filme que lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz em Cannes.

Björk compartilhou um texto em seu perfil no Facebook no último domingo (15) em que revela ter sofrido assédio sexual de um diretor dinamarquês, cujo nome não foi revelado. Segundo a atriz, depois de negar repetidamente as investidas do abusador, ele se aborreceu e projetou para a equipe uma imagem em que ela era "pintada como difícil".

No texto, a artista islandesa conta que resolveu abordar o caso publicamente por se sentir "inspirada pelas mulheres que estão se expondo on-line". Ela se refere à campanha #MeToo (#Eu Também), hashtag por meio da qual mulheres de todo o mundo estão compartilhando relatos de assédio.

A campanha surgiu após a onda de denúncias contra o magnata do cinema norte-americano Harvey Weinstein. As revelações custaram o banimento do megaprodutor da Academia do Oscar.

"Espero que esta declaração apoie as atrizes e atores. Há uma onda de mudanças no mundo", escreveu Björk. Ela afirma que, depois de confrontar o diretor, ele passou a ter uma relação mais justa e significativa com as atrizes com quem trabalhava. "Então há esperança", pontuou.

Leia o texto na íntegra (em inglês).

Lars von Trier, único cineasta dinamarquês com quem Björk trabalhou em Dançando no Escuro (2000), negou as acusações dela.

De acordo com O Globo, o cineasta disse a um jornal dinamarquês apenas que "aquele não era o caso" – numa referência às acusações contra Harvey Weinstein. O diretor de filmes como Anticristo (2009) e Melancolia (2011) complementou a declaração com um elogio à atriz.

Dançando no Escuro ganhou a Palma de Ouro em Cannes e deu a Björk o prêmio de melhor atriz no festival. A artista também já trabalhou com os diretores norte-americanos Robert Altman, Nietzchka Keene e com a islandesa Kristín Jóhannesdóttir.

Após a declaração de Lars von Trier, Björk resolveu dar mais detalhes sobre os episódios de assédio."É extremamente difícil vir a público com algo desta natureza, especialmente quando se é imediatamente ridicularizado", postou a atriz na manhã desta terça (17).

"Eu simpatizo plenamente com todas as que hesitam, mesmo por anos, mas eu sinto que é o momento certo, especialmente agora, de poder fazer uma mudança", explica. Na sequência, ela lista seis "encontros que eu acho que contam como assédio sexual".

1. Depois de cada um, o diretor correu até mim e envolveu seus braços em volta de mim por um longo tempo na frente de toda a equipe, ou sozinho, e me acariciou às vezes por minutos contra minha vontade.

2. Depois de 2 meses disso, quando eu disse que ele tinha que parar de me tocar, ele explodiu e quebrou uma cadeira na frente de todos no set. Como alguém que sempre lhe foi permitido acariciar suas atrizes, então todos nós fomos enviados para casa.

3. Durante todo o processo de filmagem, houve ofertas sexuais sussurradas e indesejadas com descrições gráficas, às vezes com sua esposa ao nosso lado.

4. Enquanto filmava na Suécia, ele ameaçou pular da varanda do seu quarto para o meu, no meio da noite, com uma clara intenção sexual, enquanto sua esposa estava no quarto ao lado. Eu escapei para o quarto dos meus amigos. Isso foi o que, finalmente, me despertou para a gravidade de tudo isso e me fez defender meu terreno.

5. Histórias fabricadas na imprensa por seu produtor sobre eu ser uma pessoa difícil. Isso combina perfeitamente com os métodos e o bullying de Weinstein. Eu nunca comi uma camisa. Não tenho certeza de que isso seja possível.

6. Eu não aceitei ou concordei em ser assediada sexualmente. Isso foi retratado como sendo difícil. Se estar de acordo com isso é ser difícil, então eu sou.

Veja o post original (em inglês).

Em uma entrevista concedida ao Terra no ano 2000, durante o lançamento de Dançando no Escuro no Brasil, Björk sinalizou que a relação conflituosa entre ela e o cineasta dinamarquês envolvia outras questões. Questionada sobre como estava o relacionamento entre eles após "período de animosidade", a atriz respondeu:

"Por sermos muito diretos, honestos e cabeças-dura, a gente nunca deixava uma desavença para depois. Tínhamos um problema às 10 horas da manhã, mas, às 11, depois de resolvermos nossas diferenças, já estávamos trabalhando. Se não havia um consenso entre nós, não havia trabalho. E posso dizer que terminamos de rodar o filme muito antes do prazo. Mas o problema é que muita gente no set não entendia o que estava se passando. Lars trabalha como um doido. E ele é muito inconstante. Podia estar rodando de uma maneira, mas, depois de receber a visita de sua mulher no set, ele voltava e fazia tudo completamente diferente. Somente Lars e eu sabíamos o que realmente estava acontecendo com aquela personagem."

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