MULHERES

No fim das contas, a estátua da Menina Destemida era só mais um símbolo vazio de feminismo

A empresa por trás da estátua está pagando milhões de dólares por remuneração desigual para mulheres.

16/10/2017 23:26 -02 | Atualizado 17/10/2017 13:03 -02
Shannon Stapleton/Reuters
O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, posa para foto ao lado da estátua da Menina Destemida, 27 de março de 2017.

Quando a estátua da "Menina Destemida" foi colocada em Wall Street, diante da estátua do touro, ela foi celebrada como a expressão definitiva do empoderamento feminino – "um símbolo poderoso", tuitou Letitia James, da prefeitura de Nova York. Multidões se formaram para observar a estátua.

No final das contas, a estátua de bronze era um símbolo – não do poder das mulheres, mas do feminismo corporativo vazio que Wall Street conseguiu transformar em arte e no qual Ivanka Trump pegou carona até a Casa Branca.

Recentemente, o State Street, fundo de investimentos de 2,6 trilhões de dólares que custeou a "Menina Destemida" e a inaugurou com muito barulho no Dia Internacional da Mulher, concordou em pagar 5 milhões de dólares em acordos com mulheres e funcionários negros, que receberiam salários mais baixos que homens brancos.

O valor será pago a 305 altas executivas e 15 vice-presidentes negros que trabalhavam num escritório do fundo em Boston. A empresa também tem que apresentar uma análise detalhada de sua política salarial e corrigir outras discrepâncias, segundo um acordo fechado no âmbito do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos. O acordo se refere ao período entre 2010 e 2012, quando começou a auditoria do Departamento do Trabalho.

Não foi difícil prever essa controvérsia. É claro que o State Street falou muito de poder das mulheres quando a estátua foi inaugurada. Num comunicado, o fundo afirmou que a obra representava "o poder das mulheres na liderança e o potencial da próxima geração de mulheres líderes".

O problema é que não havia – e não há – muitas mulheres na liderança no State Street. O conselho de administração do fundo conta com apenas três mulheres entre seus dez integrantes. E, dos 28 executivos nos mais altos cargos, somente cinco são mulheres, uma delas negra. Os 23 homens são brancos.

Essas estatísticas são parecidas com o resto da indústria financeira. Somente 5% das presidentes de instituições financeiras do mundo são mulheres, segundo a organização sem fins lucrativos Catalyst. E 29% das altas executivas são mulheres. Os números em relação aos executivos negros são ainda piores. Nos três maiores bancos, menos de 3% dos executivos são negros. E, segundo uma reportagem recente da Bloomberg, eles vêm perdendo espaço.

A indústria financeira não parece dar muita importância à chocante escassez de funcionários negros, mas fala e muito sobre mulheres. Quase diariamente, os grandes bancos e fundos de investimento enviam comunicados de imprensa, dados e análises sobre diversidade de gênero ao The Huffington Post, além de oferecerem comentários de especialistas.

Muitos têm programas com muitos recursos dedicados às mulheres. O banco de investimentos Goldman Sachs, por exemplo, tem um programa chamado 10.000 Women (10.000 mulheres), concentrado em empreendedoras. E, é claro, o banco tem um blog e uma página em seu site dedicada às mulheres.

Legal. Enquanto isso, há duas mulheres e nove homens no conselho de administração do Goldman Sachs. Há apenas um negro, aparentemente, e 80% dos altos executivos do banco são homens.

É difícil, em 2017, não olhar para essa hipocrisia sem também pensar na Casa Branca. Ivanka Trump, que inventou a hashtag sem sentido #WomenWhoWork (mulheres que trabalham) e escreveu um livro para dizer o quanto se preocupa com as mulheres, está trabalhando para um governo com números baixíssimos de mulheres, em termos históricos. E um governo que também está acabando com direitos das mulheres.

Na sexta-feira da semana passada, o governo Trump anunciou que vai voltar atrás em uma das provisões do Obamacare que exige que as empresas ofereçam controle de natalidade como parte dos planos de saúde. Enquanto isso, se funcionárias sem controle de natalidade engravidarem, provavelmente não receberão licença remunerada para cuidar de seus filhos.

Enfim, voltando a Wall Street: pode parecer loucura, mas não é difícil "empoderar" mulheres no trabalho. Não é necessário criar um fundo para empreendedoras ou pagar para que meninas aprendam programação na escola – embora isso tudo seja legal.

O segredo é contratar mais mulheres.

Sério. Isso faz toda a diferença. Não dá para falar de igualdade para mulheres quando você não as emprega em números iguais. E, quando você contratar essas mulheres, também pague salários iguais e as considere para promoções. Talvez você treine seus executivos para reconhecer o viés de gênero que existe em todos os escritórios – tais como achar que as mulheres que falam em reuniões são agressivas, enquanto os homens que fazem o mesmo são corajosos e inteligentes.

Ah, e você tem de falar para os executivos não tomarem banho na frente das suas subordinadas.

O que não está na lista acima? Erguer estátuas.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

As 10 mulheres mais poderosas em 2016