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Por que Estados Unidos e Brasil são tão diferentes, se foram colonizados na mesma época?

O início desta resposta está na colonização destes dois países.

13/10/2017 09:10 -03 | Atualizado 13/10/2017 12:58 -03
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Pintura "Independência ou Morte", do pintor paraibano Pedro Américo (óleo sobre tela, 1888).

O Brasil e os Estados Unidos foram colonizados praticamente na mesma época. Cristóvão Colombo descobriu a América em 1492 e Pedro Álvares Cabral, em 1500. A Declaração de Independência dos EUA foi redigida e assinada em 4 de julho de 1776 -- apenas 46 anos antes de Dom Pedro I proclamar a independência do Brasil às margens do rio Ipiranga.

Quase 200 anos depois, muita coisa mudou entre os dois países americanos. Mesmo que ambos tenham grandes territórios e disponibilidade de matérias-primas, os Estados Unidos tiveram um salto econômico e social e se tornaram a maior potência do mundo, enquanto o Brasil viu seu desenvolvimento industrial e humano decolar apenas a partir dos anos 1930.

O que, de fato, aconteceu nestes quase dois séculos que fizeram dos EUA tão ricos e poderosos e o Brasil ainda em fase de desenvolvimento? "A explicação para entendermos o desenvolvimento dos dois países está na História", disse o historiador e pesquisador da Universidade de São Paulo, Cristiano Addario de Abreu, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Segundo ele, a colonização é um ponto histórico essencial. Enquanto no Brasil, em 1500, Cabral aportou e já seguiu rumo à Índia, que era seu objetivo, nos EUA, em 1622, o barco Mayflower aportou com centenas de ingleses que fugiam de perseguições religiosas e pretendiam viver na América.

"A questão não é quem nos colonizou, mas como a colonização foi feita. E aí nós temos uma diferença monumental entre as duas experiências históricas", apontou o historiador Antônio Barbosa, doutor em História pela Universidade de Brasília. Ao programa da EBC Na Trilha da História, o professor explica que a colonização brasileira foi principalmente de exploração, com objetivo claro de "amealhar riquezas do novo mundo" para que países como Portugal e Espanha se enriquecessem.

"O mundo passava por momentos muito diferentes nas festejadas datas das fundações de Brasil e Estados Unidos. Em 1500, Portugal era o senhor do mercantilismo nos mares", escreveu Ricardo Lessa, jornalista e historiador no livro "Brasil e Estados Unidos: O que Fez a Diferença" (Civilização Brasileira, 2008).

A prática mercantil, conseqüentemente, se impregnaria nos primórdios da formação brasileira. O que importava era conseguir mercadorias valiosas que pudessem ser trocadas com vantagem nos portos europeus, sob controle monopolista do Estado.

Já nos Estados Unidos, a colonização foi de povoamento. "No caso da América do Norte, nós tivemos grupos de famílias inglesas que vão fugir da intolerância religiosa, da perseguição política e vão tentar do outro lado do Atlântico reconstruir suas vidas em novas bases", explicou Barbosa.

O pesquisador da USP, Cristiano Addario de Abreu, acrescenta que o povoamento no solo norte-americano mais "livre" da corte inglesa também ajudou no rápido desenvolvimento do país. "O norte dos EUA foi colonizado por puritanos, que foram para aquela região mais fria, sem grande interesse para a Inglaterra. Eles tiveram muita autonomia, com a Inglaterra os deixando numa situação chamada na historiografia de 'negligência salutar'. Podemos dizer que eles se desenvolveram justamente por não terem sido muito colonizados pelos ingleses", explica.

Processo de independência

Outro momento da história que diferencia os países é sua independência. Nos Estados Unidos, a ideia de independência das 13 colônias surgiu quando o governo inglês decidiu aumentar os impostos.

"Ou seja, [eles pensaram] se nós não temos representação lá no parlamento britânico, nós não somos obrigados a aceitar impostos que recaem sobre nós. Repare que eles não estavam falando sobre independência. A independência só aconteceu porque a Inglaterra reagiu de forma muito violenta e aí para reagir à violência dos ingleses, as colônias se reuniram e declararam a sua independência", explica o historiador Antônio Barbosa ao programa da EBC.

Enquanto nos EUA a independência foi um movimento que surgiu na sociedade, no Brasil ela foi feita por Dom Pedro I, com apoio das elites.

"Se você me perguntar se o povo de alguma forma participou, vou dizer que esporádica e pontualmente. No caso do Pará, por exemplo, os paraenses pegaram em armas contra os portugueses, havia um destacamento português forte lá. É o caso do Piauí, que pouca gente sabe... Será que já ouviram falar da Batalha do Jenipapo? Piauienses do interior pegam paus e pedras pra enfrentar tropas portuguesas", pontuou o historiador ao Na Trilha da História.

Escravidão e religião

Muitas pessoas e até pesquisas questionam se o Brasil seria hoje a potência econômica igual aos Estados Unidos se fosse colonizado pela Inglaterra e, principalmente, se os brasileiros fossem protestantes e não católicos. Esta teoria se baseia no livro A ética protestante e espírito do capitalismo, de Max Weber, no qual defende que a lógica cristã está na origem do capitalismo. Assim, muitos acreditam que os protestantes trabalhariam e enriqueceriam mais que os cristãos.

"A escravidão é muito mais importante pra entendermos o avanço ou letargia do desenvolvimento do que a religião", ressalta o pesquisador da USP Cristiano Addario de Abreu.

Ele afasta a tese de que os EUA se desenvolveram mais que o Brasil por causa da religião.

"Um dos outros furos dessa teoria seria o país rico e imperialista que é a França, de formação religiosa majoritariamente católica. Hoje países como China e Índia já são e caminham para se tornarem cada vez mais potências capitalistas, como o Japão já é faz tempo. Todos são países nos quais o protestantismo não têm a menor relevância."

Segundo o historiador, tanto o Brasil quanto o sul dos Estados Unidos até 1860 estavam numa situação muito parecida. Na época, o norte dos EUA vivia um desenvolvimento humano em seus estados livres, mas não era exatamente rico como o sul, também colonizado por protestantes, mas enriquecido com a plantação para exportação, baseada na escravidão. "Seguramente, a 'ética protestante', que valoriza o mundo do trabalho, ficava muito comprometida nos estados escravocratas do sul norte-americano."

A grande diferença dos dois países, ainda na visão de Abreu, era demográfica. "Os EUA tinham uma população livre muito maior, com 2/3 dela concentrada nos homens livres do norte", disse.

Com a Guerra Civil, entre 1861 e 1865, os EUA deram um salto no desenvolvimento. Ele explica:

"Logo, com a vitória dos Republicanos de Lincoln e a derrota dos escravistas do sul, os EUA dão seu salto no desenvolvimento: abolindo a escravidão, emitindo muito papel sem lastro para pagar salários e estimular a economia, isolando sua economia através das maiores tarifas alfandegárias protecionistas que o mundo jamais tinha visto até então, com contratos governamentais a estimular a produção industrial deles em todos os níveis durante e depois da guerra. Enfim, os EUA enriquecem fazendo tudo o que dizem para os outros países não fazerem."

Como resultado da Guerra Civil, o fim da escravidão esteve presente no projeto de nação do centro-norte dos Estados unidos, que tinha como princípios "espírito empreendedor capitalista, voltado para a valorização do indivíduo, para a liberdade individual".

Já no Brasil, mesmo com o fim da escravidão, o governo não deu a mínima condição para que os antigos escravos fossem socializados, ou seja, que atingissem o que chamamos hoje de cidadania.

Não quer dizer que o Brasil não deu certo

Você pode se perguntar por que o Brasil não é "tão desenvolvido" quanto os Estados Unidos ou lamentar os diferentes processos de desenvolvimento, mas na opinião do historiador e pesquisador da Universidade de São Paulo Cristiano Addario de Abreu, a questão mais importante é perceber quando e como o Brasil se desenvolveu.

Segundo ele, existe uma visão muito pessimista dos brasileiros com o próprio país, como se fosse muito atrasado. "E isso é uma visão, que além de injusta, atrapalha qualquer melhora, por não reconhecer o que deu certo."

"A questão da escravidão, por exemplo, tanto no sul dos EUA, que até hoje é menos desenvolvido que o norte e a Califórnia, quanto no Brasil é uma marca de atraso. Mas o Brasil saiu oficialmente da escravidão em 1888 e cem anos depois era a 8ª economia industrial do mundo capitalista. Depois da Rússia, China e Japão, o Brasil foi o país que mais cresceu no mundo do século 20. Poucos brasileiros vêem isso hoje", ressaltou.

Segundo o historiador, o pico de desenvolvimento do Brasil aconteceu entre 1930 e 1980, em que o País teve o maior progresso material, industrial e humano de sua história. "E não por acaso, há pontos de similitude com o desenvolvimento dos EUA: emissão de papel moeda, política cambial, protecionismo industrial, compras governamentais, vantagens estratégicas alcançadas por guerras em outros lugares."

Ainda na comparação entre os países, Abreu reitera que os EUA já não são mais um exemplo de prosperidade. "Cada vez menos os EUA são vistos como modelo. Estão em desindustrialização, com a maior dívida do mundo, enfiados em guerras e mais guerras causadas por razões mais que suspeitas, sua política externa brutal e belicosa é o maior sinal de decadência."

Com a China sendo a potência industrial ascendente no Mundo e a Europa uma potência humana, cultural, com um núcleo industrial avançado. Os EUA caminham cada vez mais como superpotência militar hipertrofiada.

O historiador conclui citando que alguns sociólogos alemães já falam que haverá uma "brasileiração" do mundo. "No futuro, haverá desigualdade, muita riqueza com pobreza, multiculturalismo, miscigenação, violência crônica. Para tais autores o futuro do mundo é o Brasil desigual e variado."

Por mais que ela não seja mais como nos anos 1960, a organização do desenvolvimento é um desafio do qual não podemos nos furtar. Pois se o mundo todo vai se tornando mais parecido com essa imagem de Brasil, o próprio Brasil pode se tornar melhor: menos desigual, mais rico, menos violento ao mesmo tempo.

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