ENTRETENIMENTO

Como o produtor Harvey Weinstein deu uma 'gravata' na mídia norte-americana

“Eles compram jornalistas, ameaçam jornalistas, fazem o que for necessário".

15/10/2017 13:02 -02 | Atualizado 17/10/2017 12:56 -02
Charley Gallay via Getty Images
Harvey Weinstein tem um longo e estranho relacionamento com a mídia.

Era a véspera da eleição presidencial de 2000, e Harvey Weinstein estava dando uma "gravata" em um jornalista.

Andrew Goldman, repórter do New York Observer, tinha se aproximado de Weinstein no hotel Tribeca Grand depois que o magnata começou a cercar Rebecca Traister, colega e na época namorada de Goldman. Eles estavam na festa de lançamento do livro da ex-VJ da MTV Karen Duffy, Model Pacient: My Life as an Incurable Wise-Ass (Paciente exemplar: minha vida de espertalhona, em tradução livre), sobre sua recuperação de uma doença em seu sistema nervoso central. Weinstein era o anfitrião, segundo Traister, e ela cometera a ousadia de perguntar a ele sobre um projeto cinematográfico que a produtora Miramax tinha arquivado.

Mas Weinstein não gostou da pergunta.

"Eu lembro que ele me chamou de vagabunda e disse que estava feliz por ser 'a porra do xerife daquela porra de cidade sem lei'", escreveu Traister em uma reportagem para a The Cut. Foi a essa altura que Goldman interveio, e sua cabeça acabou presa nos braços de Harvey Weinstein.

Tudo aconteceu em público, diante de outros jornalistas. Mas só sabemos o que aconteceu naquela noite porque Traister descreveu a briga em um artigo publicado na quinta-feira passada, quase 17 anos depois -- e apenas algumas horas após o The New York Times divulgar uma investigação sobre os casos de assédio e estupros cometidos por Weinstein ao longo de várias décadas. Na esteira da reportagem do Times, muitos na indústria do entretenimento perguntaram por que um dos "segredos abertos" de Hollywood demorou tanto tempo para vir à tona. A resposta é que, de modo figurativo, Weinstein estava segurando a mídia numa gravata.

Eles compram jornalistas, ameaçam jornalistas, eles fazem o que for necessário. Um repórter de entretenimento veterano no time de Harvey Weinstein

As táticas que a máquina de Weinstein supostamente empregavam eram abrangentes. "Harvey conseguia distorcer -- ou suprimir -- qualquer coisa; eram tantos jornalistas em sua folha de pagamento", escreveu Traister, "trabalhando como consultores em projetos de filmes, ou como roteiristas, ou para sua revista".

"Eles compram jornalistas, ameaçam jornalistas, fazem o que for necessário", disse um veterano na cobertura da indústria do entretenimento sobre a equipe de Weinstein. O aparato em torno de Weinstein poderia ser implacável. O jornalista disse que sua publicação tentava evitar que a equipe de Weinstein soubesse os nomes dos repórteres enquanto eles trabalhavam em matérias sobre o executivo, por medo de que Weinstein interferisse com as investigações em andamento.

Jornalistas falam à boca pequena sobre ofertas lucrativas para escrever livros ou outros trabalhos remunerados oferecidos. "Cadê meu roteiro?", teria gritado Weinstein para um repórter da coluna Page Six, do jornal New York Post, durante uma festa.

Assim como impulsionava carreiras, Weinstein também poderia prejudicá-las. Ele era uma força tão poderosa nos círculos sociais de Nova York que não só podia barrar jornalistas de entretenimento de suas próprias festas e eventos como também dos promovidos por outros, afirma um veterano de Hollywood.

Weinstein fazia pressão sobre a mídia de diferentes formas. Quando Sharon Waxman estava trabalhando em uma reportagem sobre o mau comportamento de Weinstein para o New York Times, em 2004, tanto Matt Damon quanto Russell Crowe ligaram para ela para falar sobre. Mais tarde, os editores "mataram" a matéria, nas palavras de Waxman.

O produtor Scott Rudin admitiu à jornalista Nikki Finke que a equipe de Weinstein pediu para "proteger Harvey" e "mentir para a Page Six". A própria Finke diz que Weinstein uma vez a colocou numa "sala sem janelas" e a repreendeu por 90 minutos. O advogado, o agente e empresa de Weinstein não se procunciaram sobre o assunto.

No ano passado, Benjamin Wallace começou a investigar as acusações envolvendo Weinstein para a New York Magazine. Ele disse ao HuffPost que, depois de começar a fazer telefonemas, rapidamente foi confrontado por agentes e advogados -- incluindo o poderosos advogado David Boies -- pressionando para que ele recuasse na investigação.

Wallace refutou a reportagem do New York Post no fim de semana, que dizia que ele e seus editores haviam cedido à pressão de Weinstein. Wallace disse que, de fato, a resistência não impediu sua apuração. Ele investiu na história por três meses, até decidir que ele não tinha o suficiente para publicá-la. A matéria foi deixada de lado.

"Tentei de todas as maneiras", disse Wallace. Adam Moss, editor-chefe da revista, "deu total apoio", disse Wallace. "Harvey Weinstein não derrubou a matéria. Adoraríamos tê-la publicado."

A New York Magazine havia investigado os supostos ataques de Weinstein anos antes, em 1990. Mas Weinstein tornou as coisas difíceis. "A pressão é implacável -- o telefonemas pessoais, combinado com imensas ameaças de processos por parte dos advogados", lembrou o produtor de TV Michael Hirschorn, que foi editor da New York Magazine. "E também promessas de acesso. Era uma época em que esse tipo de coisa importava."

Em um post no Facebook, Hirschorn detalhou a investigação dos anos 1990 e outra da qual ele conhecia os detalhes. "Ambas as investigações decidiram não publicar os materiais mais problemáticos depois de pressão por parte de Weinstein e uma equipe de advogados de primeira linha, contra a publicação e contra as mulheres envolvidas", escreveu ele. "Weinstein também procurou os proprietários das publicações. Em última análise, as mulheres em questão recuaram e/ou os donos mataram nossa investigação. Ou seus advogados avaliaram os custos e benefícios e recomendaram não publicá-la."

Essa era a abordagem para histórias de todos os tamanhos, de acordo com o repórter de entretenimento veterano entrevistado pelo HuffPost. A equipe de Weinstein tentava boicotar até as matérias menores, oferecendo informações exclusivas no futuro.

O resultado de todos esses esforços foi um amolecimento geral da cobertura. O encontro violento de Weinstein com Traister e Goldman, por exemplo, foi qualificado com sucesso como uma briga infeliz entre um "jornalista excessivamente agressivo" e um "santo titã de Hollywood". Mas, para Traister e Goldman, foi tudo, menos isso.

Durante a briga, Weinstein repetidamente gritou: "Quem deixou essa vagabunda do caralho entrar nessa festa?", afirmou Goldman ao HuffPost. Quando Goldman se aproximou de Weinstein, o magnata começou a repreendê-lo também, lembrou Goldman, antes de perceber que Goldman tinha um gravador na mão.

"Trocamos algumas palavras, e a certa altura ele pulou no meu gravador, que eu não ia largar, e aí nos debatemos no meio do Tribeca Grand", disse Goldman.

Weinstein não conseguiu pegar o gravador. Ele arrastou Goldman para a frente do hotel e aplicou-lhe uma gravata, segundo Goldman. "Lembro de pensar na hora: 'Não acredito que essa pessoa está fazendo isso - que isso está acontecendo em público", disse Goldman.

Goldman disse lembrar de um fotógrafo do jornal New York Daily News tirando fotos durante a briga – "provavelmente dezenas, se não centenas de fotos", disse ele. Havia vários repórteres que os cercavam, incluindo umque teria dito: "Harvey, melhor não fazer isso! Melhor não fazer isso!". Finalmente, os dois foram separados, Goldman e Traister foram embora.

"Puta merda, vai ser a capa do Daily News amanhã", Goldman diz ter pensado. "Era uma matéria fantástica para um tabloide: 'Magnata de Hollywood dá uma gravata em jornalista nerd em festa chique'", disse ele.

Mas, então, aconteceu algo estranho. "Acordamos e não tinha nada nos jornais", disse Goldman ao HuffPost. "Essas fotos nunca foram vistas, até onde sei."

Mas Goldman logo recebeu um telefonema de um conhecido do New York Post que disse, "segundo boas fontes", que "Harvey está dizendo por aí que na verdade você entrou numa festa e atacou alguém". Na briga, uma mulher teria se machucado. Goldman disse ao HuffPost que não havia notado na época.

O New York Post chamou Goldman e Traister de "repórteres agressivos" que fizeram Weinstein "passar dos limites". O Post também fez Weinstein parecer um santo em sua descrição de sua amizade com Duffy, dizendo que ele "salvou a vida dela" quando a ex-VJ sofria da doença que se tornou o foco de seu livro.

Weinstein ficou amigo próximo de Duff [sic] depois que ele salvou sua vida, levando-a aos médicos certos e certificando-se de que ela fosse tratada imediatamente.

O The New York Times, por sua vez, também culpou sutilmente o repórter do Observer. Na matéria "There's Observing, Then There's Not", um "executivo da Miramax" não-identificado retratou Goldman como o agressor, dizendo que Weinstein e Traister tinham decidido mutuamente "que ele não iria continuar a entrevista; estava tudo bem. Mas aí Andrew se meteu".

Peter W. Kaplan, editor do Observer e chefe de Goldman, deu ao New York Times uma declaração defendendo Goldman, dizendo: "Andrew agiu de forma responsável e profissional, ele estava defendendo uma colega". Mas a frase foi colocada no final do penúltimo parágrafo, muito depois de a matéria permitir que a pessoa não-identificada da Miramax reforçasse a narrativa segundo a qual "o gravador do sr. Goldman bateu na cabeça de outro convidado" e que Goldman "se recusou" a atender o pedido de Weinstein para que se desculpasse. O New York Post e o New York Times não responderam a pedidos de comentários sobre os artigos.

Goldman ficou chocado com a cobertura da mídia.

"Eles tentaram fazer parecer que tinha abordado uma mulher na festa e, basicamente, a atacado, batendo na cabeça dela com um gravador, sem mencionar o fato de que Harvey e eu estávamos brigando por um gravador que era meu", afirmou ele.

O incidente "acordou" Goldman. Ele não tinha certeza do como, mas sabia no fundo Weinstein tinha usado sua influência para moldar a história a seu favor e se certificar de que as fotos nunca viessem a público.

"A ideia de que alguém tenha o poder de eliminar completamente uma história perfeita para um tablóide de Nova York foi impressionante para mim", disse Goldman.

"Sou obrigado a admitir, ele é muito bom nisso", acrescentou.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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