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Como executivos norte-americanos boicotaram 'reportagem-bomba' sobre assédio em Hollywood

O repórter Ronan Farrow acabou levando a matéria para a revista The New Yorker depois de enfrentar meses de oposição na rede de TV.

13/10/2017 12:24 -03 | Atualizado 13/10/2017 12:32 -03
Altos executivos da NBC suprimiram a reportagem-bomba sobre assédio sexual de Harvey Weinstein em Hollywood.

Em meados de agosto, Ronan Farrow, um colaborador da NBC News, tinha garantido uma entrevista com uma mulher disposta a dizer diante das câmeras – somente com sua silhueta visível e sua identidade protegida – que fora estuprada por Harvey Weinstein, segundo quatro pessoas com conhecimento do trabalho de reportagem de Farrow. Era um momento chave em uma apuração que durava meses, envolvendo uma história que uma geração de jornalistas que cobrem mídia e Hollywood não tinham conseguido finalizar.

Farrow já tinha muito material. Em março, ele tinha obtido uma gravação na qual Weinstein admitia ter apalpado uma modelo italiana. O jornalista tinha entrevistas com ex-executivos e assistentes que trabalharam diretamente com Weinstein e falaram dos assédios e abusos cometidos pelo executivo. E agora ele tinha uma pessoa pronta para acusar Weinstein de estupro, na frente das câmeras.

Mas naquele momento Farrow também ficou preso nas garras de um editor da NBC News. Executivos da companhia afirmaram que ele não tinha material suficiente para levar ao ar a reportagem, afirmam quatro fontes, e deveria parar a apuração. A NBC tentou impedir a entrevista com a mulher que acusava Weinstein de estupro. A rede de TV insistiu que ele não usasse uma equipe da empresa para gravar a entrevista nem mencionasse sua ligação com a NBC News, a divisão de jornalismo da rede. Foi assim que Ronan Farrow pagou a equipe do próprio bolso.

Enquanto projeto da NBC News, a matéria de Farrow estava efetivamente morta. Naquele mês, ele recebeu permissão para oferecê-la a outra empresa de mídia. A reportagem resultante, publicada na terça-feira pela revista The New Yorker, foi uma bomba: diversas mulheres acusando Weinstein de estupro e outras condutas impróprias, acompanhadas pelo áudio de Weinstein admitindo um ataque sexual.

Jacopo Raule via Getty Images
An audio of Harvey Weinstein arguing with a young model at a hotel was included with The New Yorker article.

Em uma reunião com seus funcionários, o presidente executivo da NBC News, Noah Oppenheim, afirmou: "A ideia de que tentamos proteger uma pessoa poderosa é profundamente ofensiva para todos nós. Éramos parte de uma longa lista de veículos que foram atrás dessa história, tentamos confirmá-la, mas no fim das contas não demos o furo".

Então ele adotou um tom de lamentação, sugerindo que o esforço da NBC tinha morrido de causas naturais. "Chegamos a um ponto, no verão, em que nós, enquanto organização, achamos não ter todos os elementos para levar a matéria ao ar", disse ele.

Mas entrevistas com 12 pessoas da NBC News e de fora, todas com conhecimento direto da apuração de Farrow, sugerem uma causa mortis diferente. Todas as fontes que conversaram com o The Huffington Post pediram anonimato porque não tinham autorização para falar com a imprensa ou porque temiam represálias de executivos da NBC News. Essas fontes detalharam uma luta de meses dentro da NBC News, período em que Oppenheimer e outros executivos fizeram corpo mole com a matéria, prejudicando-a com ressalvas e hesitação.

No fim do processo, as preocupações pareceram tomar um ar pessoal. Ficou difícil saber onde terminavam os esforços da equipe de Weinstein para desacreditar a história e onde começava a omissão da NBC News. Segundo várias fontes dentro e fora da empresa e que trabalharam na reportagem, Oppenheimer relatou a Farrow o que os advogados de Weinstein disseram em uma reclamação apresentada à NBC: que Farrow tinha um conflito de interesses porque Weinstein tinha ajudado a ressuscitar a carreira do pai do jornalista, o cineasta Woody Allen (Farrow não tem bom relacionamento com o pai). Os representantes de Weinstein usariam argumentos semelhantes quando a matéria chegou à New Yorker. A revista, conhecida por sua checagem rigorosa, não viu conflito de interesse.

A declaração de Oppenheim e as pressões de que a NBC News vem falando em conversas em off com jornalistas entram em conflito com os relatos de pessoas que trabalharam na reportagem, tanto na NBC News quanto fora da empresa, segundo várias fontes com conhecimento direto da apuração.

Farrow começou a investigação em janeiro e, no final de julho, tinha entrevistado pelo menos oito mulheres, algumas delas dispostas a ter seus nomes divulgados. O jornalista ouviu pelo menos duas vezes que a matéria era "publicável", ou seja, cumpria os requisitos legais e de checagem factual para ser levada ao ar, segundo quatro pessoas com conhecimento do processo. Outra jornalista investigativa da NBC estava tentando refazer o trabalho de Farrow, e sua revisão não levantou nenhuma questão, afirmam essas pessoas.

Gilbert Carrasquillo via Getty Images
Ronan Farrow had reportedly been told by NBC News executives that he didn't have enough reporting to go on air with his Harvey Weinstein story. 

O primeiro momento importante da reportagem aconteceu em janeiro, quando a atriz Rose McGowan falou às câmeras. Ela relatou ter sido atacada por Harvey Weinstein quando tinha 23 anos. O The New York Times noticiou que McGowan fez um acordo com Weinstein e recebeu 100 000 dólares de compensação em 1997. McGowan foi ameaçada de processo pelos advogados e Weinstein e voltou atrás, impedindo que a NBC News usasse sua entrevista.

Em março, Farrow obteve o áudio em que Weinstein admite ter atacado sexualmente a modelo italiana Ambra Battilana Gutierrez. O áudio foi gravado um dia depois de Gutierrez ter procurado a polícia de Nova York, afirmando que Weinstein tinha apalpado seus seios e tentado colocar a mão sob sua saia.

Gutierrez usou um gravador escondido fornecido pela polícia para gravar a conversa com Weinstein no hotel Tribeca Grand, em Nova York.

Na gravação, ouve-se Weinstein pressionando Gutierrez para ir a seu quarto de hotel. No final da conversa tensa, ele admite tê-la atacado. Quando Weinstein pergunta por que Weinstein a apalpou no dia anterior, ele responde: "Ah, por favor, me desculpe, entre", e "Estou acostumado com isso. Vamos. Por favor."

Gutierrez pergunta: "Você está acostumado com isso?"

"Sim", responde Weinstein, acrescentando: "Não vou fazer de novo".

Repórteres de várias publicações vinham tentando conseguir essa gravação havia dois anos. Para muitas publicações, o áudio sozinho mereceria ser noticiado. E, mesmo que a NBC News tenha considerado que o áudio não merecia tempo na TV, a rede poderia ter publicado a informação na internet. Na realidade, Farrow queria que parte da investigação viesse a público na esperança de que outras mulheres contassem suas histórias depois de aberta a porteira.

Em abril, a NBC News tinha dois grandes furos na mão: uma entrevista on the record com McGowan e o áudio explosivo da conversa de Weinstein com a modelo italiana. Mas Farrow ouviu de vários executivos e produtores da empresa que o material não era suficiente para uma reportagem de TV. Segundo quatro fontes, Farrow e Rich McHugh, produtor investigativo da NBC News, também prepararam uma longa matéria em forma de texto para o site da NBC News. Mas disseram a Farrow que ela não seria publicada.

Em julho, a reportagem-bomba de Farrow estava pronta, com entrevistas em que mulheres apareciam acusando Weinstein, além de entrevistas com quatro ex-executivos (homens e mulheres) da Miramax e da Weinstein Co.

Àquela altura, Farrow e McHugh estavam prontos para seguir adiante com a matéria, mas ouviram dos executivos da NBC News que a matéria teria de ser aprovada pelo presidente da NBC News, Andy Lack, e também revisada por Steve Burke, vice-presidente executivo da Comcast e presidente e CEO da NBCUniversal – um nível de escrutínio incomum, segundo três funcionários da NBC News, que afirmaram nunca ter ouvido falar do escritório de Burke revisando matérias.

Em agosto, de acordo com quatro fontes, Farrow ouviu repetidas vezes que o material não era suficiente para que a reportagem fosse levada ao ar e que ele deveria parar de investigar a história, o que o colocou numa posição insustentável.

Uma das pessoas que Farrow entrevistou foi o veterano jornalista Ken Auletta, especializado na cobertura da mídia. No passado, Auletta também tinha tentado escrever sobre as acusações contra Weinstein. Segundo duas pessoas com conhecimento da entrevista, e conforme um relato ligeiramente diferente de Lloyd Grove, do site Daily Beast, Auletta disse para a câmera algo como: "Se a NBC News não fizer nada com as evidências de Farrow, será um olho roxo para a organização e um escândalo enorme".

No fim das contas, Farrow levou a reportagem para a revista The New Yorker, que publicou a bomba jornalística na terça-feira, depois de submetê-la a seu rigoroso processo de checagem e edição.

"Ronan Farrow, que nos procurou há cerca de dois meses, já tinha uma apuração muito séria", disse o editor-chefe da revista, David Remnick. "Com trabalho duro, e com o trabalho de vários de meus colegas aqui na The New Yorker, ele aprofundou a matéria e a tornou publicável. É algo que exemplifica um excelente jornalismo investigativo."

Inicialmente a NBC também foi reticente em noticiar os furos dos outros meios. Na quinta-feira, quando foi publicado o furo do The New York Times, tanto a CBS quanto a NBC mencionaram o assunto em seus telejornais noturnos. A NBC ficou em silêncio no "NCB Nightly News", apesar de ter tido sete horas para preparar algo (a matéria do New York Times foi publicada às 11h).

Fontes da NBC dizem que o programa estava cheio de notícias de impacto, incluindo a cobertura do massacre de Las Vegas e o secretário de Estado americano, Rex Tillerson, supostamente chamando o presidente Donald Trump de "idiota". Mas o telejornal também teve tempo para matérias sobre comentários sexistas feitos pelo jogador de futebol americano Cam Newton sobre uma jornalista e também sobre os indicados para o Hall da Fama do Rock and Roll.

Duas fontes com conhecimento da produção do telejornal disseram ao The Huffington Post que Oppenheim tomou a decisão final de não incluir no telejornal as notícias sobre Weinstein, dizendo para a equipe que Weinstein não era uma figura conhecida nacionalmente. Naquele fim de semana, quando o produtor executivo do programa humorístico "Saturday Night Live", Lorne Michaels, foi criticado por não incluir piadas sobre Weinstein, ele afirmou ao jornal The Daily Mail que "é coisa de Nova York", também sugerindo que o assunto não tinha interesse nacional. Insiders da NBC afirmaram ao The Huffington Post que isso levou alguns funcionários a se perguntar se havia um argumento combinado para justificar a falta de cobertura do caso.​​​​

Na manhã seguinte, a NBC News foi mais uma vez superada pelos concorrentes. O programa "Good Morning America", da ABC, exibiu uma reportagem de 10 minutos de duração; o "This Morning", da CBS, passou uma de 5 minutos. No "Today", da NBC, o âncora Craig Melvin simplesmente leu parte de uma matéria, que incluía muitas das respostas de Weinstein, em vez das acusações detalhadas na reportagem do New York Times.

A informação de que a NBC tinha o áudio de Weinstein admitindo o ataque sexual chocou e frustrou os funcionários da NBC News que conversaram com o HuffPost. O clima na redação ficou sombrio por causa do furo perdido.

Muitas pessoas que conversaram com o The Huffington Post disseram que o episódio lembrou outra oportunidade perdida envolvendo um homem acusado de comportamento impróprio.

Em outubro do ano passado, a NBC News tinha a gravação de Donald Trump dizendo que gostava de agarrar mulheres "pela buceta". A gravação pertencia à NBC, mas foi noticiada pela primeira vez pelo jornal The Washington Post.

Atos de rebelião feminista em Hollywood (GIFs)