MULHERES

O caso Harvey Weinstein e o perigo de parecer 'super engajado' no feminismo

Ser um progressista em público não impede uma pessoa de ter atitudes asquerosas em sua vida privada.

10/10/2017 14:56 -03 | Atualizado 10/10/2017 14:56 -03
Secretary of State Hillary Rodham Clinton and producer Harvey Weinstein attend the TIME 100 Gala, TIME'S 100 Most Influential People In The World, cocktail party at Jazz at Lincoln Center on April 24, 2012 in New York City.
A secretária de Estado Hillary Rodham Clinton e o produtor Harvey Weinstein no coquetel TIME 100 Gala, As 100 Pessoas Mais Influentes do Mundo da TIME, no centro Jazz at Lincoln, em Nova York, 24 de abril de 2012.

Nos últimos 30 anos, Harvey Weinstein se posicionou como defensor de pautas de movimentos progressistas e até mesmo como apoiador de causas feministas.

Ele fez levantamento de fundos para políticos como Al Gore, Barbara Boxer, Hillary Clinton, Chuck Schumer, Elizabeth Warren e Barack Obama. Ajudou a criar uma cadeira na Universidade Rutgers no nome da ativista feminista Gloria Steinem. Sua empresa distribuiu The Hunting Ground, um documentário sobre a epidemia de violência sexual nas universidades americanas e o inferno que as vítimas enfrentam quando procuram justiça. Em janeiro deste ano, Weinstein participou da Marcha das Mulheres, em Park City, Utah (desça um pouco com o cursor para ver a prova fotográfica: Weinstein, parecendo um pouco confuso, está no centro da imagem).

Mas, segundo o New York Times, ao mesmo tempo em que fazia a defesa pública de filmes sobre mulheres e levantava fundos para políticas públicas relacionadas a elas, em sua vida privada Weinstein ficava nu diante de suas subordinadas e pedia que elas lhe fizessem massagem.

Na última quinta-feira (5) o New York Times divulgou que Weinstein chegou a acordos financeiros extrajudiciais com pelo menos oito mulheres ao longo de três décadas, incluindo a atriz Rose McGowan, e que muitas outras mulheres alegam ter sido alvos de assédio sexual ou conduta sexual imprópria por parte dele. A atriz Ashley Judd contou ao jornal que, numa reunião marcada para um café da manhã, Weinstein "apareceu de robe e pediu para fazer uma massagem nela ou para ela assistir enquanto ele tomava banho". Uma ex-funcionária temporária de Weinstein contou que o produtor lhe ofereceu uma carreira profissional se ela aceitasse suas investidas sexuais. E um memorando escrito em 2015 por outra ex-funcionária, Lauren O'Connor, descreve a Weinstein Company como "um ambiente tóxico para as mulheres". Nas últimas 24 horas começaram a vir à tona mais relatos sobre as interações de Harvey Weinstein com mulheres jovens.

Essa justaposição – entre a divulgação pública dos direitos e experiências das mulheres e das injustiças que sofrem devido a seu gênero, e, por outro lado, um comportamento particular alegadamente predatório – é uma narrativa que acompanha Weinstein. A distância entre os valores que ele declara e seu comportamento real é enorme, embora talvez não seja surpreendente. Hollywood (e também o Vale do Silício... e Washington...) está cheia de pessoas publicamente progressistas que em sua vida privada teriam comportamentos repulsivos – homens que aproveitam sua "credibilidade feminista" para desculpar ou ocultar o modo como pisoteiam as mulheres.

O diretor e roteirista Joss Whedon, elogiado por suas "personagens femininas fortes" e seu discurso feminista, foi denunciado recentemente por sua ex-mulher Kai Cole. Segundo ela, ao mesmo tempo em que Whedon pregava ideais feministas em público, na vida a dois ele a traía e a submetia a "gaslighting", uma forma de abuso psicológico. De acordo com Cole, Whedon chegou a tentar desculpar suas falhas como marido, atribuindo-as ao patriarcado.

E na própria quinta-feira uma outra reportagem do BuzzFeed sobre o ideólogo de direita Milo Yiannopoulos e o site Breitbart revelou que vários jornalistas homens conhecidos, que trabalham para a grande imprensa, mantinham correspondência com Yiannopoulos e o incentivavam a atacar escritoras e ativistas feministas. Um desses jornalistas era Mitchell Sunderland, que escreveu para o Broadly, o canal de mulheres do site de jornalismo Vice, sobre temas como a Marcha das Vadias de Amber Rose e o alegado estupro da jornalista Scottie Nell Hughes. O BuzzFeed informou que em maio de 2016 Sunderland enviou um e-mail a Yiannopoulos falando da autora Lindy West. "Por favor tire um sarro dessa feminista gorda", ele escreveu. Sunderland acabou demitido da Vice.

Hollywood (e o Vale do Silício... e Washington) está cheia de pessoas publicamente progressistas que em sua vida privada teriam comportamentos repulsivos – homens que aproveitam sua "credibilidade feminista" para desculpar ou ocultar o modo como pisoteiam as mulheres.

Mesmo os homens que são "do bem" não estão a salvo de fazerem coisas muito negativas. Mas o fato de um homem ser visto como "do bem" aumenta as chances de uma mulher baixar a guarda quando está com ele e diminui a probabilidade de outras pessoas acreditarem nela se ela disser algo contra esse homem. Afinal, como é possível que o feminista criador de "Buffy, a Caça-Vampiros", alguém que critica misóginos online, seja um mulherengo inveterado? Como é possível que o bom e velho Cliff Huxtable (ou seja, o ator Bill Cosby) seja estuprador? Como pode um executivo de cinema que levantou milhares de dólares para a campanha de Hillary Clinton tirar proveito das mulheres com quem convive em sua vida profissional?

Há poucos aliados homens disponíveis no mundo, então pode ser difícil deixar morrer o sonho de que contamos com um. Foi por isso que, três semanas depois de publicado o texto de Kai Cole, recebi um press release da ONG Equality Now, que trabalha pelos direitos das mulheres e meninas, citando Joss Whedon como diretor criativo da cerimônia de gala que festejaria o 25 aniversário da entidade.

Esse é o perigo de vincular o projeto de igualdade de gênero muito estreitamente a seus defensores públicos homens. O fato de uma pessoa parecer publicamente antenada e consciente não implica necessariamente que esses valores se reflitam em sua vida pessoal. Quando fazemos de conta que sim, sem querer damos cobertura a homens que não a merecem.

Quando a reportagem do "New York Times" foi publicada, a atriz Constance Wu, estrela da série "Fresh Off the Boat", da ABC, escreveu um tuite falando de como são comuns os relatos de assédio sexual sofrido da parte de "homens de bem" de Hollywood.

(Isso mesmo. Todos os dias. Mesmo vindo de "caras do bem" que se gabam de contratar diretoras mulheres ou produzir histórias de pessoas de cor. SIM, MESMO ELES.)

"Isso já me aconteceu muito", ela me disse mais tarde, esclarecendo que nunca interagiu com Harvey Weinstein, mas estava falando de produtores de Hollywood de modo mais geral. "O problema é que os homens muitas vezes nem têm consciência de que entre quatro paredes eles agem de maneira repulsiva. Eles enganam a si mesmos. A ilusão a seu próprio respeito é grande."

Ela também comentou que esses homens poderosos tendem a usar sua falta de consciência de si mesmos como defesa, quando são criticados por agirem de modo inapropriado.

"Eles tentam dizer que não têm culpa de nada porque suas 'intenções' eram boas ou porque eles não tinham consciência de suas ações. É um ciclo horroroso", disse Wu. "As coisas se complicam mais ainda quando você é uma mulher de cor e critica um homem de cor por fazer isso."

O problema é que os homens muitas vezes nem têm consciência de que entre quatro paredes eles agem de maneira repulsiva. Eles enganam até a si mesmos. A ilusão a seu próprio respeito é grande.Constance Wu

A ilusão a seu próprio respeito mencionada por Wu é aparente na resposta dada por Weinstein às alegações feitas contra ele. No comunicado que divulgou após a publicação do artigo do New York Times, Weinstein atribui seu comportamento ao fato de que virou adulto "nos anos 1960 e 1970, quando todas as regras de comportamento e relativas aos ambientes de trabalho eram diferentes". Aparentemente, até o ano passado ele ainda não tinha conseguido entender por que era inaceitável ele ficar nu diante de suas funcionárias jovens ou pedir a atrizes que ficassem assistindo enquanto ele tomava banho.

Na realidade, Weinstein estaria tão fora de contato com a realidade das interações profissionais apropriadas com mulheres que precisou contratar a advogada Lisa Bloom para lhe "ensinar" sobre as nuances de como tratar mulheres com dignidade humana básica. Em sua declaração inicial sobre o assunto, Bloom descreveu Harvey Weinstein como "um dinossauro velho que está aprendendo novos hábitos". Alguém deveria avisar a advogada de que mesmo dinossauros velhos podem ser incrivelmente agressivos.

E é claro que Weinstein não resistiu à tentação de se colocar para cima enquanto pedia desculpas às mulheres que ofendeu.

"Vou precisar de um lugar para onde canalizar minha raiva, então decidi que vou dedicar minha atenção plena à NRA", ele escreveu, imediatamente promovendo um filme que ele está fazendo sobre Donald Trump e uma fundação que está criando: "Um ano atrás comecei a organizar uma fundação de US$5 milhões para dar bolsas de estudo a diretoras mulheres na USC. Pode parecer que é coincidência, mas na realidade a proposta já vem sendo discutida há um ano."

Que cara bacana.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

18 livros para entender mais sobre feminismo e direitos das mulheres