ENTRETENIMENTO

Ava DuVernay diz estar arrependida de abrir mão do crédito pelo roteiro de ‘Selma’

“Foi a única vez na indústria que sinto que me traí.”

11/10/2017 15:46 -03 | Atualizado 11/10/2017 15:47 -03
Andrew Toth via Getty Images
"Aprendi minha lição", disse DuVernay. "Nunca farei a mesma coisa de novo."

O drama histórico Selma, de 2014, foi o despontar da diretora Ava DuVernay. O filme foi indicado a Melhor Filme no Oscar e a Melhor Diretor no Golden Globe. Também é o maior arrependimento da diretora.

"Foi uma experiência muito dolorosa, sobre a qual não falei na época", disse DuVernay no New Yorker Festival recentemente. "Foi a única vez na indústria que sinto que me traí. Porque escrevi aquele roteiro, e meu nome não estava nele. Tiraram meu crédito."

A polêmica a respeito da autoria do roteiro não era segredo em 2014, quando Selma virou a Cinderela do Oscar. O crédito foi dado ao britânico Paul Webb, autor do roteiro original. Mas, segundo DuVernay e outros que trabalharam no filme, a diretora fez alterações substanciais no roteiro. O contrato de Webb, entretanto, estipulava que ele seria creditado como o único autor, caso assim decidisse. Ele se recusou a compartilhar o crédito.

Em uma conversa com Jelani Cobb, uma jornalista da revista New Yorker, DuVernay falou da experiência, admitindo ter minimizado a controvérsia para não ameaçar as chances do filme no Oscar. "Na época, foi tomada a decisão, com minha participação, que não falaríamos do assunto para não criar controvérsias em relação ao filme, por causa do Oscar", disse a diretora. "As pessoas não querem votar em algo que pareça, hmm, que tem algo errado com o filme."

"Aprendi minha lição", disse DuVernay. "Nunca farei a mesma coisa de novo."

"Às vezes temos de colaborar", disse ela, "mas quando você sabe lá no fundo que está errado, melhor não fazer."

DuVernay disse ter reescrito o roteiro de Selma, que se inspirou nas experiências de seu pai crescendo perto da cidade de Selma na época da famosa marcha de 1965. O roteiro tem significado profundo para a diretora e sua família. Ela disse ter reorientado o filme para se concentrar menos no então presidente americano, Lyndon B. Johnson, e nas maquinações de Washington a respeito da legislação dos direitos civis e mais em Martin Luther King e outros ativistas negros.

Ao permitir que Webb, a quem ela não mencionou pelo nome, levasse o crédito pelo roteiro, DuVernay afirmou que ela "provocou, energicamente, a maior controvérsia, a controvérsia mais sem sentido" do Oscar daquele ano. "Selma" foi criticado por um ex-integrante da equipe de Johnson por supostamente minimizar o papel do presidente na defesa dos direitos ao voto dos negros. DuVernay disse na época que não queria fazer mais um filme sobre brancos salvadores. Webb criticou as mudanças feitas pela diretora, afirmando que DuVernay "reduziu Johnson... a um racista".

No final das contas, disse DuVernay, ela ficou contente que Selma tenha humanizado King, uma figura sempre retratada de forma unidimensional, como um santo. "Algumas pessoas que só pensavam nele como uma estátua ou um feriado agora terão um senso de um ser humano de carne-e-osso", afirmou ela. "Por isso, vale o tipo de questão da indústria que enfrentei."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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