ENTRETENIMENTO

Antes de os seios se tornarem uma tendência de design, a obra de Nicola L. já transbordava feminismo

Aos 80 anos, a artista é homenageada com sua primeira retrospectiva em museu.

09/10/2017 07:50 -03 | Atualizado 09/10/2017 07:50 -03
Sculpture Center
Nicola L. com “La Femme Commode”.

Ao longo dos últimos anos, tornou-se muito chique ter seios entre os pertences. Lojas de artesanato alternativas e sites de compras estão cheios de mercadorias decoradas com seios abstratos ― há vasos com formato de peitos, potes de flores de peitos, fronhas de travesseiro de peitos e até os chamados "bongs" (cachimbos de vidro) de peitos. Uma pesquisa rápida no site Etsy com a palavra "seios" traz um total de 168 páginas.

Por que consumidores jovens, as mulheres em particular, são tão fascinados por objetos que piscam perpetuamente? Talvez haja algo maliciosamente subversivo sobre reclamar uma parte do corpo tão ardentemente cobiçada pelo olhar masculino. A tendência leva a objetivação a um extremo absurdo. Você acha que os seios ficam ótimos em uma mulher, e o que dizer em canecas, colares e tapetes? Também combate divertidamente a ideia de que os seios devem estar cobertos 100% do tempo. Ao transformar a parte do corpo tabu em um toque elegante, as mulheres podem fazer topless indiretamente por meio de seus acessórios e objetos domésticos.

Pertences adornados com seios decolaram depois do movimento "Free the Nipple" (Liberte os Mamilos) em 2012 e atingiram seu pico este ano. No entanto, a artista franco-marroquina Nicola L. vem transpondo o corpo feminino em objetos domésticos desde o fim da década de 60. O fenômeno atual de design pode ser rastreado até as obras de vanguarda de Nicola, que incluem trabalhos inteligentemente intitulados como "Lips Lamp" (Lâmpada de Lábios), "Woman Ironing Table" (Mesa de Passar Roupa Feminina) e "Head Library" (Biblioteca de Cabeça).

SCULPTURECENTER
Nicola L. com

Nicola, como muitas artistas mulheres ao longo da história, continua subestimada e não suficientemente reconhecida, apesar de suas imensas contribuições para os mundos da arte e do design. A primeira retrospectiva em museu para homenagear o trabalho de Nicola, com curadoria de Ruba Katrib, está sendo exibida no SculptureCenter, em Nova York, e espera abordar essa falta de reconhecimento.

Quando as pessoas pensam em pop art, vêm à mente nomes como Andy Warhol, Roy Lichtenstein e Claes Oldenberg. Ainda assim, Nicola, agora com 80 anos, oferece uma perspectiva feminina sobre a relação entre beleza, arte, commodities e valor. Como explicado pela curadora Flavia Frigeri,"é realmente importante contar essa história, particularmente porque muito da arte pop tem a ver com homens olhando mulheres".

Trabalhando à margem do movimento pop art, suas obras assumem as formas de partes do corpo humano, adoravelmente exageradas e distraídas. Uma grande mão estendida e estufada serve como sofá. Um globo ocular brilha por meio de uma luz LED. Uma silhueta feminina caricaturalmente voluptuosa se transforma em uma cômoda, com gavetas em formato de lábios, seios e vulva.

Parte lição de anatomia, parte crítica feminista, parte esteticamente inclinada à feitiçaria, a obra de Nicola dá vida aos corpos. Eles não sangram nem respiram, mas falam muito sobre os relacionamentos que as mulheres têm com seus corpos e suas casas, seus pertences e a sensação de pertencimento. Em uma era quando as mulheres eram frequentemente relegadas ao lar e destinadas ao "trabalho de mulher", Nicola tornou o espaço, e o trabalho, muito mais interessantes. Ela transformou o espaço doméstico em uma galeria de arte experimental, e as coisas dentro dela em improváveis conspiradores.

Coleção de Xavier Gellier (Foto: Kyle Knodell)
Nicola L.,

Katrib entrou em contato com a obra de Nicola pela primeira vez em 2013. Foi por meio de um convite para ver uma exibição da artista na galeria Broadway 1602, em Nova York. O convite mostrava uma perna branca flutuando sobre um fundo de linhas finas e horizontais, em tons que iam do preto ao azul, e depois ao verde. O membro-fantasma dizia "Body Language Under the Sun and Moon" (Linguagem Corporal Sob o Sol e a Lua) em letras maiúsculas. Sem conhecer a obra de Nicola, Katrib ficou intrigada.

Ela começou a pesquisar sobre Nicola e se deparou com "Penetrables", uma série de esculturas criadas pela artista marroquina no começo de 1964, nas quais retângulos flácidos de telas e vinil estão pendurados rente ao chão em hastes de madeira. Vazias, as vestimentas de arte estão suspensas como fantasias descartadas, convidando os espectadores a colocar seus corpos dentro delas e adotar uma segunda pele. Mas, ao colocar as extremidades nos orifícios alocados, as barreiras entre a obra de arte e o espectador se tornam inesperadamente e irreparavelmente indistintas.

Outra obra, "Red Coat", expande essa ideia de escorregar dentro de peles alternadas ― e removê-las igualmente rápido. A obra, de 1969, consiste em uma longa capa de chuva, grande o suficiente para que 11 pessoas a vistam ao mesmo tempo. Com 22 orifícios para as mangas e 22 para as pernas, a vestimenta transforma seus usuários em uma besta híbrida, um corpo social cujas partes díspares se unem em um todo místico. O casaco multiforme revela a forma como as roupas mudam à medida que uma pessoa se move, age e vive; o modo como nossas conchas exteriores ditam nossas vidas interiores.

Foto: Kyle Knodell
Instalação

Katrib tem pesquisado sobre a obra de Nicola desde o ano passado e terminou visitando-a no Chelsea Hotel, onde a artista mora há 27 anos. "Ela é realmente um produto da geração idealista e utópica dos anos 60", Katrib disse ao HuffPost por telefone. "Realmente ficou com isso ao longo da vida, este estilo de vida boêmio dos anos 60, ao ponto de ainda morar no Chelsea Hotel, em meio às suas obras."

Nicola vive mais ou menos sozinha. Cabeças flutuantes, membros sem corpos e silhuetas bem torneadas permanecem imóveis por toda casa, servindo ao mesmo tempo como objetos domésticos e potenciais companhias. O arranjo remete às fantasias da Disney como "A Bela e a Fera" e "Toy Story", que eliminam a possibilidade de que despretensiosos objetos domésticos ganhem qualidades humanoides. A exposição no Sculpture Center mostra muitos desses objetos, que se mascaram como artigos domésticos enquanto apontam para habilidades mais elevadas. Há uma lâmpada com formato de lábios, uma tábua de passar roupa com a forma de uma mulher. Uma escultura macia de vinil de uma mulher sentada, que se parece com uma boneca sexual inflável, com uma televisão encaixada em seu abdome traz o título: "Little TV Woman: 'I Am the Last Woman Object'" (Pequena Mulher TV: 'Sou a Última Mulher-Objeto').

Por outro lado, as esculturas de Nicola celebram os corpos ao dar-lhes vida. O escritor Alan Jones a comparou com Ísis, uma deusa egípcia que continuamente reúne os membros esquartejados do irmão que se tornou seu marido. Por outro lado, Nicola alude ao lado amargo da objetificação.

Foto: Kyle Knodell
Instalação

Embora a maioria da exposição de Nicola mostre corpos de homens e mulheres, uma parte é reservada para corpos de uma variedade mais pegajosa. "Snail Wardrobe" (Armário de Caracóis), "Snail Birdcage" (Gaiola da Caracóis) e "Snail Lamp" (Lâmpada da Caracóis) estão entre os diversos objetos gastrópodes.

"Acho que ela realmente gosta da concha como outro tipo de pele, que também é um tipo de arquitetura", disse Katrib. "Ela está comparando o mobiliário com a roupa, e com a concha de um caracol. Todos são invólucros superficiais protetores, mas também necessários para definir a forma da entidade que se relaciona com eles. Isso é poderoso, quer esteja ela lidando com a forma animal ou feminina."

No conjunto, a obra de Nicola é radical, divertida e excepcionalmente relevante, levantando questões de meio século atrás ainda aplicáveis hoje. O que constitui um corpo? O que constitui um objeto? O que anima um objeto, e o que objetifica um ser humano? O pop art, o movimento dominante do início da carreira de Nicola, desafiou implacavelmente a relação entre os objetos do cotidiano e as obras de arte, usando latas de sopa como inspiração e materiais como papelão. Interessada em móveis e design, ela levou essas questões um pouco além, fazendo com que sua arte conversasse com o "trabalho de mulher", liberando o inexplorado potencial criativo de um espaço que, para muitas mulheres, significava opressão.

Ainda assim, como muitas mulheres artistas de sua geração, Nicola permanece subestimada apesar da qualidade e influência de sua obra. Ela é às vezes citada como artista pop e foi incluída, em 2015, na exposição "The World Goes Pop", no museu Tate, do Reino Unido. No entanto, como destaca Katrib, a artista percorreu vários círculos e movimentos sem se alinhar muito com nenhum, operando em grande parte de acordo com sua própria lógica.

Hoje, a híbrida "arte como artigo doméstico" está em todos os lugares, em site de compras como o Etsy, lojas e estúdios como Otherwild. Os seios, não mais escondidos em sutiãs, adornam as mais improváveis bugigangas domésticas, e casas da geração "millennial" estão repletas de outras partes do corpo dissociadas de proprietários sensíveis. Décadas depois, a intenção de Nicola de dar vida ao lar de alguém se tornou uma generalizada realidade.

"Nicola L.: Works, 1968 to the Present" está em exibição até 18 de dezembro de 2017 no SculptureCenter, em Nova York.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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