ENTRETENIMENTO

O debate sobre política, arte e sexualidade que chegou até o palco do 'Altas Horas'

Claudia Raia, Ney Latorraca e Marcelo Cerrado se posicionaram sobre a questão após comentário do cantor Luiz Carlos, do Raça Negra.

08/10/2017 12:19 -03 | Atualizado 08/10/2017 12:47 -03
Reprodução/Rede Globo
Ney Latorraca: "Estão usando esse tipo de censura pra castrar tudo o que a gente tentou durante toda a Ditadura Militar".

A discussão que pautou as duas últimas semanas sobre política, arte e sexualidade chegou até o palco do programa Altas Horas, apresentado por Serginho Groisman, na Rede Globo, na noite deste sábado (7). Tudo começou durante o quadro da sexóloga Laura Müller, quando um dos integrantes do grupo de pagode Raça Negra perguntou a ela sobre educação sexual na infância:

"Olha, Laura, eu queria saber... Tem um papo que está rolando na internet, se uma criança de 8 anos já tem que estar aprendendo sexo na escola. É um deputado que está querendo. Eu sou contra. Até porque sou pai e tenho filhos, então sou totalmente contra".

Ao respondê-lo, Müller explicou o conceito de sexualidade e qual o papel da escola na conscientização das crianças e adolescentes.

O tema sexualidade deve aparecer de forma transversal no ensino a partir dos 6 anos de idade. É sexualidade como um conceito amplo, como nosso jeito de ser no mundo, como o jeito da gente ser homem e ser mulher no mundo [...]. É sexualidade que pode incluir o sexo quando a gente estiver em um momento mais maduro.

E continuou, ressaltando a importância da participação dos pais na educação sobre sexualidade dos filhos:

"Na escola, a gente precisa começar a falar de sexualidade. E os pais são os nossos primeiros modelos. Nossos primeiros educadores sexuais, que nos ensinam como ser no mundo. Quando a criança entra na escola com 6, 7, 8 anos a gente precisa começar a falar de corpo, de funcionamento corporal e os conhecimentos vão evoluindo à medida em que essa criança cresce."

Ao finalizar, Müller deixou claro que falar de sexualidade na escola nada tem a ver com uma "vivência precoce da sexualidade":

"Com 9, 10 anos a gente já vai poder falar de reprodução até porque muitas meninas já menstruam aos 9 anos de idade e quando vai chegando na pré adolescência aí a gente já está falando de sexo, da prática sexual, de prevenção de doenças, de prevenção à gravidez, de diversidade. Então tem todo um pensar por trás. Isso não estimula uma sexualidade precoce, uma vivência precoce da sexualidade."

Assim que ela terminou sua fala, o ator Ney Latorraca deu um exemplo, citando uma campanha do museu D'Orsay, em Paris, que pede para os pais "levarem seus filhos pra ver pessoas nuas dentro do museu". "Porque nas pinturas antigas está todo mundo sem nenhum pecado", disse.

DIVULGAÇÃO

Laura Müller completou a fala do ator. "Isso é maravilhoso. A gente não está literalizando que uma pessoa tá pelada aqui na frente. A gente tá vendo uma arte, na história da arte, a gente tá explicando uma história. É perfeito para fazer uma educação sexual".

Em seguida, Claudia Raia entrou na conversa citando a performance La Bête que inaugurou a Mostra Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo e foi amplamente criticada. Nela, o artista Wagner Schwartz aparece deitado nu no chão ao fazer uma releitura da série Bicho, de Lygia Clark. A proposta da performance é que as pessoas tenham interação com o artista.

"Ou o que aconteceu com o MAM agora, que é um absurdo, né? A mãe estava levando a criança, a mãe deixou a criança tocar. Você é responsável pelo teu filho, ou você leva ou você não leva. Tudo começa em casa", afirmou a atriz.

O cantor Luiz Carlos, vocalista do Raça Negra, a interrompeu:

"Eu acho que as coisas estão se modernizando e a gente tem que acompanhar".

E continuou:

"Mas eu, pessoalmente, não concordo que uma instituição assim, um museu, e até que uma mãe, peguem um homem nu... se você olhar a anatomia não tem problema nenhum. Mas eu acho horrível o que ela fez, deixando uma criança de 4 anos de idade tocar esse corpo. Ela poderia ter ensinado. E se a menina, na inocência dela, vai no órgão genital do cara?".

Claudia Raia respondeu:

"Mas sabe o que acontece? Aí é a educação de cada um. Como é que você vai interferir e dizer que a educação dessa mãe é errada? A gente não sabe como ela foi criada. E se ela foi criada de uma maneira mais livre? Como é que alguém faz um movimento na internet dizendo que é contra? Isso virou uma palhaçada. Todo mundo se mete na vida de todo mundo".

Após a fala de Claudia, Ney Latorraca trouxe a discussão para o campo político.

"A gente tem que tomar cuidado. A gente está num ano político, o próximo ano tem eleições, e estão usando esse tipo de censura pra castrar tudo o que a gente tentou durante toda a Ditadura Militar, o avanço nosso, agora querem voltar atrás. É um perigo muito grande. A gente tem que lutar pela liberdade, e fora censura total", disse o ator, arrancando aplausos da plateia e dos convidados.

O ator Marcelo Serrado, também convidado do programa, completou o raciocínio de Ney. "O Estado não pode dizer o que a gente tem que ver, ou não", finalizou a discussão.

Você pode assistir ao vídeo completo do quadro aqui.

A arte vigiada

A arte no Brasil está sendo vigiada bem de perto por usuários da internet e movimentos organizados. Diversas obras e mostras foram pivô de protestos e avalanche de críticas nas últimas semanas.

Para a artista plástica e professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Lygia Eluf, a reação negativa e desproporcional é reflexo de um Brasil mais conservador. "As pessoas estão criando uma polêmica onde não existe", disse ao HuffPost Brasil.

Apenas em setembro deste ano, ao menos duas mostras e uma peça de teatro estiveram sob escrutínio. A exposição Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira foi cancelada menos de um mês depois de sua estreia, em 15 de agosto, após protestos em redes sociais alavancados, principalmente, pelo MBL (Movimento Brasil Livre). A seleção de 270 obras que tratavam de questões de gênero e diferenças foi acusada de fazer apologia a pedofilia e zoofilia.

A peça "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu", na qual Jesus é interpretado por uma transexual, também foi cancelada antes mesmo de sua estreia no Sesc em Jundiaí (SP). Na decisão judicial que cancela a apresentação, o juiz Luiz Antonio de Campos Júnior, da 1ª Vara Cível da cidade, disse que a peça era de "mau gosto", pois figuras religiosas foram "expostas ao ridículo". A peça chegou a Belo Horizonte (MG) e será exibida até o este domingo (8).

O mais recente caso que ganhou a mídia e, sobretudo, as redes sociais foi a performance La Bête, durante a abertura do 35º Panorama de Arte Brasileira no MAM (Museu de Arte Moderna), em São Paulo, no final de setembro. A mostra foi alvo de críticas porque uma criança acompanhada de sua mãe tocou na perna e na mão de um artista nu. Tanto a performance, quanto o museu, foram detonados e acusados de incitar a pedofilia.

Para o curador do MAM Filipe Chaimovich, é posição do museu abrir o diálogo com a sociedade. "A compreensão do que é a arte, da história da arte, é parte da missão do museu. E para isso ser transmitido é preciso existir diálogo", explica em entrevista ao HuffPost Brasil.

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