ENTRETENIMENTO

'Contra a censura e a difamação': A resposta de Caetano e outros artistas ao conservadorismo no mundo das artes

Nomes como Marisa Monte, Vik Muniz, Adriana Varejão e outros artistas lançaram resposta à onda conservadora contra exposições pelo País.

08/10/2017 17:00 -03 | Atualizado 12/10/2017 19:11 -03

Um mês após a exposição Queermuseu, no Santander Cultural, em Porto Alegre (RS), ser censurada e acusada de promover "zoofilia e pedofilia" e dez dias depois da polêmica envolvendo a performance "La bête", no MAM de São Paulo, cerca de 100 personalidades do cenário cultural brasileiro são os protagonistas da campanha "#342 artes — Contra a censura e a difamação", lançada nas redes sociais neste fim de semana.

Entre os que aderiram ao protesto estão nomes como Adriana Varejão, Caetano Velloso, Marisa Monte, Vik Muniz, Beatriz Milhazes, Gaudêncio Fidélix e Paula Lavigne. Segundo o jornal O Globo, do Rio de Janeiro, a decisão não é de apenas fazer uma movimentação contra a censura: artistas que se sentiram difamados em vídeos de políticos e grupos na internet irão à Justiça.

No primeiro vídeo da hashtag #342artes, o curador da mostra Queermuseu, Gaudêncio Fidélix faz uma crítica aos últimos acontecimentos e afirma que "está bem claro a partir de agora que isso é um processo de criminalização da arte e dos artistas e que nós teremos que enfrentar com bastante veemência".

Em seguida, no mesmo vídeo, Fidelix aparece ao lado do cantor e compositor Caetano Veloso, que faz uma crítica ao Movimento Brasil Livre (MBL): "Esse negócio de MBL, sinceramente... Só quem é idiota para acreditar que aquilo é para valer, cara...", afirma Caetano.

O curador também critica a postura de Marcelo Crivella (PRB-RJ), bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e prefeito do Rio de Janeiro e do senador Magno Malta (PR-ES) que, segundo ele, o convocou para a CPI dos maus-tratos contra crianças e adolescentes para "armar um circo midiático".

A atriz Fernanda Montenegro também se pronunciou na campanha. Em vídeo, ela faz um apelo para que os políticos saiam do "silêncio acovardado" em que estão e afirma que "só há um tipo de cultura que realmente constrói um país" e que "não existe nação sem liberdade".

Já os artistas plásticos Vik Muniz e Beatriz Milhazes, em entrevista ao El País Brasil, lembraram que "toda vez que alguém esteve contra a arte ou na repressão da expressão artística, esteve do lado errado da história" e que, neste caso, "conseguiram colar a tarja de pedofilia e zoofilia e agora temos que combater algo que não existe".

Arte x política

Dorivan Marinho/CON via Getty Images

"Saiu no jornal que [a mostra] ia ser no MAR, só se for no fundo do mar", afirmou o prefeito do Rio de Janeiro nas redes sociais sobre as negociações para a mostra Queermuseu ser exibida no MAR (Museu de Arte do Rio). "Não é legal estimular uma criança a tocar em um homem nu em 'nome da arte'. É preciso respeitar a família, vamos cuidar das nossas crianças", continua Crivella.

Após a declaração do prefeito, o MAR cancelou as negociações para realizar exposição Queermuseu na cidade. "Lamentamos o modo como este debate tem sido inflamado por intensas polêmicas, que levaram a Prefeitura do Rio de Janeiro, por ser este um museu de sua rede municipal de equipamentos culturais, a solicitar a não realização de Queermuseu - cartografias da diferença na arte brasileira no MAR", diz parte do texto divulgado pela instituição.

"Eu compreendo que a arte é uma manifestação muito aberta, muito ampla, mas tudo tem limite", afirma João Doria, prefeito de São Paulo, em vídeo também divulgado em suas redes sociais. Segundo ele, "a exposição do MAM, não pode, em nome dessa liberdade, permitir que uma cena libidinosa que estimula uma relação artificial e imprópria seja colocada para o público."

"Crivella e Doria estão difamando profissionais sérios e enganando a população", disse Paula Lavigne, ao Globo. Lavigne disse, em entrevista ao jornal, que o conteúdo disseminado por movimentos conservadores na internet e políticos brasileiros "estão sendo usados por políticos para criar uma cortina de fumaça sobre os reais problemas do país".

Por isso também vamos entrar com ações contra eles e contra grupos (o Movimento Brasil Livre é um deles) que usam a difamação como forma de enganar a população. É um movimento para dizer que exigimos respeito.

Procurados pela imprensa, a assessoria do prefeito Marcelo Crivella informou que a prefeitura do Rio de Janeiro não irá se posicionar sobre o caso. O Movimento Brasil Livre (MBL) também não se pronunciou sobre o assunto. Já a assessoria do prefeito João Doria disse em comunicado que "Paula Lavigne está desinformada. Ao referir-se à performance "La bête", (o prefeito) apontou que houve desrespeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente e manifestou uma opinião crítica em relação a seu conteúdo, o que ele reafirma".

21 vezes em que as pessoas ficaram nuas em momentos inapropriados da história da arte