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Quem é Jagmeet Singh, a nova estrela da política canadense que espera derrotar Trudeau em seu próprio jogo

O novo líder do Novo Partido Democrático, de esquerda, é o primeiro não-branco a liderar um dos grandes partidos do país.

05/10/2017 17:00 -03 | Atualizado 05/10/2017 18:53 -03
Reuters
Jagmeet Singh fez a piada dias antes de ser eleito líder do Novo Partido Democrático no primeiro turno da votação interna do NPD.

"Meias estão fora de moda."

Jagmeet Singh fez a piada dias antes de ser eleito líder do Novo Partido Democrático no primeiro turno da votação interna do NPD. Foi uma vitória surpreendente contra três experientes parlamentares do partido.

Momentos antes de um debate promovido pelo HuffPost Canadá, Singh – imaculadamente vestido, num paletó azul marinho de risca de giz e um turbante laranja – usou a frase para explicar suas canelas descobertas.

O político de 38 anos não consegue não se destacar. Seu estilo o colocou na lista das pessoas mais bem vestidas e em um perfil publicado na revista GQ. Isso é no mínimo incomum para quem tem aspirações de liderar um partido que defende os pobres e marginalizados.

CHARLA JONES/HUFFPOST CANADA
Jagmeet Singh, no centro, estava sem meias no debate do NPD, promovido pelo HuffPost Canadá no dia 27 de setembro.

Mas era inevitável se perguntar se o comentário de Singh sobre suas roupas também era uma alfinetada no primeiro-ministro Justin Trudeau, cuja preferência por meias engraçadinhas– Chewbacca! – parece chamar mais a atenção da mídia internacional que suas políticas.

Ou então as coisas que Trudeau prefira não comentar, incluindo a promessa abandonada de reformar o sistema eleitoral canadense, ou o fato de que seu governo não está cumprindo uma ordem de aumentar o financiamento para crianças que vivem em reservas indígenas.

Como Trudeau, Singh tem carisma, sabe usar as redes sociais e é muito confiante. Ambos atraem multidões e conseguem capturar a atenção dos jovens. Ambos têm essa coisa.

Mas Trudeau é filho de um ex-primeiro-ministro, enquanto Singh é um filho de imigrantes do estado indiano do Punjab que colocaram o filho no taekwondo para que ele pudesse se defender do bullying. Ele viria a se tornar um habilidoso lutador tanto na arte marcial coreana quanto na luta livre.

Foto cedida por Jagmeet Singh
Jagmeet Singh era capitão da equipe de luta livre de sua escola.

Enquanto Trudeau diz ao mundo que a diversidade é uma das forças do Canadá, Singh sabe o que é crescer sendo chamado de sujo por causa da cor de sua pele.

São esses contrastes que dão confiança ao NPD – um partido que sempre parece brigar pela medalha de bronze – de que Trudeau possa finalmente ter um adversário à altura. Eles esperam que os progressistas, que dois anos atrás estavam ansiosos para derrotar os conservadores, agora se movam um pouco mais à esquerda, para fazer história em vários níveis.

Singh é sikh, tem uma barba longa e é a primeira pessoa de cor a liderar um grande partido federal na história do Canadá. Durante sua campanha, ele foi aberto em relação à intolerância que teve de enfrentar por causa de sua aparência. Ele também respondeu aos questionamentos de que seria derrotado no Québec, uma Província chave na política do país e que tem tradição de secularismo.

"Crescer com pele marrom, cabelo comprido e um nome esquisito significa que enfrentei alguns desafios", disse Singh no discurso em que aceitou a liderança do NPD – a parte do "nome esquisito" tinha tons inegáveis que remetiam ao discurso que fez de Barack Obama uma estrela.

"Fui parado pela polícia várias vezes só por causa da cor da minha pele. A sensação é de que você não pertence a esse lugar. Como se tivesse algo errado com você só porque é você."

"E é por isso que, como primeiro-ministro, vou garantir que ninguém no Canadá seja parado pela polícia por causa da aparência ou por causa da cor da pele."

Foto cedida por Jagmeet Singh
O novo líder do NPD, Jagmeet Singh, diz que sua mãe é sua maior influência.

Singh, que era advogado criminalista antes de entrar para a política, também disse ao público, na maioria jovens de 20 e poucos anos, que tornou-se a única fonte de renda de sua família e um pai para seu irmão mais novo quando seu pai adoeceu e ficou incapacitado para trabalhar.

Singh sugeriu que essa é outra realidade que Trudeau não entende. Ele acusou o governo Trudeau de passar a mensagem de que os canadenses deveriam se acostumar com empregos precários, que pagam só o suficiente para sobreviver o mês.

"Talvez se você considerar o emprego um hobby você pode se acostumar aos empregos instáveis, mas, se o seu emprego significa a diferença entre colocar comida na mesa ou um teto sobre as cabeças da sua família, então a insegurança é inaceitável", afirmou Singh.

Nunca houve um discurso de líder de partido desse tipo, porque nunca houve um líder de partido assim. Pelo menos não aqui. Não até agora.

CHARLA JONES/HUFFPOST CANADA
Singh durante o debate pela liderança, 27 de setembro de 2017.

Singh tem a mesma idade do novo líder conservador, Andrew Scheer, que terá 40 anos na época da próxima eleição. Trudeau, 45, era considerado inexperiente por alguns quando foi eleito dois anos atrás. Agora, ele é o mais velho entre os líderes dos três principais partidos do país.

Como Trudeau depois de conquistar a liderança do Partido Liberal, em 2013, Singh será questionado sobre sua competência para liderar um país que pertence ao G7. Ele não tem uma cadeira no Parlamento federal e não parece com pressa de conseguir uma antes da eleição de 2019. Singh dá a entender que vai passar o período até a eleição cruzando o país com o objetivo de reerguer o partido.

Como Trudeau, ele também terá de provar que tem mais a oferecer que Snpachat e slogans açucarados. O de Singh, a propósito, é "amor e coragem".

Como Trudeau, Singh sabe o que é tornar-se o foco da atenção internacional.

Pouco antes da votação dos integrantes do NPD, uma mulher começou a agredi-lo verbalmente, usando palavras como "sharia" e "irmandade muçulmana".

Singh pediu que o público não fosse intimidado pelo ódio.

"Te acolhemos. Te amamos", disse ele para a mulher.

Mais tarde, ele afirmou que não disse para a mulher que era sikh porque sua resposta à islamofobia nunca foi responder que "não é muçulmano", mas sim que "o ódio é errado".

O vídeo foi compartilhado no mundo inteiro. Americanos famosos comentaram no Twitter, aliviando a coceira que os canadenses têm por atenção e também para que o mundo saiba que o país não é um paraíso sem racismo.

Tudo isso é muito mais importante que as meias.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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