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O debate do século 16 sobre arte e religião está de volta no Brasil de 2017

'Estão causando pânico social em torno da arte', afirma cientista da religião sobre mostras e peça boicotadas País afora.

06/10/2017 17:15 -03 | Atualizado 06/10/2017 17:24 -03

Apesar dos conflitos gerados atualmente em torno de algumas exposições e obras no Brasil, a arte representa a religião de diversas formas há centenas de anos. Esse embate existe ao menos desde o século 16, com a pintura de uma das obras mais visitadas de todo o mundo: a Capela Sistina, no Vaticano.

Naquela época, Michelangelo foi acusado de ter cometido heresia ao pintar corpos nus no teto da capela. A obra foi considerada obscena e outro pintor foi contratado para cobrir as genitálias.

As atuais representações da religião pela arte são consideradas ofensa por uns e manifestação estética por outros. No final do mês de setembro, a peça de teatro O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu foi encenada por uma atriz travesti em Porto Alegre (RS), com lotação máxima da casa. Houve muita polêmica em torno da peça, que chegou a ser proibida por liminar judicial em Jundiaí (SP).

O professor de História e Crítica da Arte da PUC-SP (Pontifícia Universidade de São Paulo) Cauê Alves está convicto de que esse tipo de trabalho é expressão da liberdade artística. Ao HuffPost Brasil, ele destacou o cerceamento de liberdade:

"É inconcebível que o papel de Jesus seja decidido por um juiz que indique o gênero da pessoa que deva encenar qualquer papel de peça de teatro, envolvendo Jesus ou não. Só podem encenar Jesus homens loiros de cabelo comprido? Isso é uma afronta a qualquer possibilidade de liberdade."

Anderson Carvalho/Divulgação
Atriz Renata Carvalho encena Jesus na peça "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu

A atriz que encenou Jesus, Renata Carvalho, revelou que já esperava a reação contrária à peça por parte do público. À revista Veja, Renata afirmou:

"Sou travesti e conheço bem o preconceito e a hipocrisia. É só ir à minha página no Facebook para ver que há pessoas que até me ameaçam de morte. Fico triste porque são ataques de ódio baseados em fundamentos religiosos que não têm sentido. Quem nos ataca não leu a Bíblia, porque Jesus estava do lado dos excluídos."

Para a artista visual e professora de Artes Visuais da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Paola Zordan, a arte sempre rompe com o que é cultuado para criar uma nova forma de ver a própria cultura.

Ela não enxerga desrespeito em representações alternativas de símbolos ou ícones do Cristianismo. "Seria desrespeito se essas artes fossem colocadas no âmbito da religião, dentro da igreja, por exemplo. No teatro ou no museu, elas não podem ser consideradas desrespeito."

Além da peça com Jesus transgênero, a exposição Queermuseu, do Santander Cultural, também gerou discussões acaloradas e foi cancelada no Rio Grande do Sul após boicote nas redes sociais. A mostra aborda questões de gênero e representações religiosas contemporâneas e foi tachada de fazer apologia à zoofilia, pedofilia e blasfêmia.

Em um dos quadros, está a representação de Jesus com vários braços, intitulada Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva, de Fernando Baril. Ao jornal Zero Hora, o artista disse o que o quadro representa: "aquilo não é Jesus, é uma pintura. É a minha cabeça, ponto. Me sinto bem à vontade para pintar o que quiser".

Divulgação
Quadro "Cruzando Jesus Cristo com o Deusa Shiva", de Fernando Baril, 1996.

Queermuseu tampouco será bem-vinda pelo prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), no Museu de Arte do Rio (MAR). Ele disse que a mostra irá para a capital "só se for no fundo do mar".

Em entrevista ao HuffPost Brasil, o cientista da religião João Marcos da Silva afirmou que esse tipo de trabalho artístico não é uma ofensa religiosa. Silva explica o novo significado atribuído à religião pela arte:

"O que ocorre hoje na arte é a ressignificação das representações das divindades. Hoje, no segmento gospel, existe a representação de Jesus com roupa de super-homem. Existe também a representação de Jesus como mangá. Agora, a representação de Jesus atrelada à questões de gênero, os religiosos não aceitam. Então, eles estão causando um pânico social em torno da arte."

Em Minas Gerais, outra exposição com temática religiosa corre o risco de ser suspensa. Faça você mesmo sua Capela Sistina está em cartaz no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, e o deputado estadual João Leite (PSDB-MG) tenta barrá-la. Na terça-feira (3), ele anunciou, na Assembleia Legislativa, que iria acionar o Ministério Público para impedir que as obras permanecessem na exposição.

Em sessão da Assembleia, o deputado expôs sua opinião sobre as recentes exposições e afirmou que o país "vive o resquício da presença da esquerda no governo":

Até o momento, a exposição segue em cartaz em BH.

Paula Zordan classifica como censura esse tipo de conduta. "Para a arte, a religião é uma matéria como todas as outras. Cria rupturas e questionamentos em todos os elementos do campo social", afirma a professora.

Cauê Alves, da PUC-SP, destaca o papel da arte, que "é incomodar, provocar, colocar em questão, fazer refletir, fazer as pessoas reverem suas questões, é ser contraditória".

A arte não é para agradar, para ser bela. A arte tem que provocar. Se isso não pode mais ser feito, então acabou o papel da arte.

O deputado estadual Ferreira Aragão (PDT-CE) foi ainda mais incisivo no veto a representações religiosas pela arte. Ele apresentou na Assembleia Legislativa do Ceará um projeto de lei que proíbe as "manifestações artísticas que incentivem de alguma forma os crimes de pedofilia, racismo, preconceito e manifestações que ofendam as religiões".

O projeto recebeu uma moção de repúdio de seus colegas.

Cauê Alves acredita que muitas pessoas estão abordando a arte e a religião com intolerância e discursos de ódio. Para o professor, as pessoas têm que se abrir para novas experiências, podendo discordar, mas respeitando o diferente.

"O ideal seria que o embate entre aqueles que são a favor e aqueles que são contra certos tipos de arte seja feito no campo da discussão e não a partir de discursos de ódio, muito menos de censura", conclui.

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