MULHERES

O contraditório 'legado feminista' de Hugh Hefner, fundador da Playboy

A chamada revolução que ele desencadeou atendia principalmente aos desejos dos homens – e especificamente aos dele.

05/10/2017 06:50 -03

A vida e o legado de Hugh Hefner são cheios de contradições.

O fundador do império Playboy, morto na quarta-feira (27 de setembro) aos 91 anos, é saudado como revolucionário sexual, defensor dos direitos LGBTQ e do aborto, magnata e ícone que abriu o caminho para ideias modernas sobre o sexo visto sob ótica positiva. Ele é também um homem que ergueu seu império extenso sobre a base de imagens idealizadas do corpo feminino; um homem que tinha um elenco rotatório de "namoradas" jovens que viviam com ele e, segundo pelo menos um relato, sob seu controle.

Brooks Barnes, do New York Times, escreveu em 2009: "Para seus defensores, Hefner é o grande libertador sexual que ajudou a livrar os americanos do puritanismo e das neuroses. Para seus detratores, entre os quais figuram muitas feministas e muitos conservadores sociais, Hefner ajudou a desencadear uma revolução nas atitudes sociais, revolução essa que objetificou e vitimou incontáveis mulheres, promovendo uma visão de mundo imoral, em que vale qualquer coisa que nos dê prazer."

A verdade provavelmente se encontra em algum ponto intermediário entre as duas visões. Hefner foi defensor da liberação sexual, sem dúvida alguma, mas essa liberação sexual sempre visava em primeiríssimo lugar os desejos dos homens heterossexuais. Em outras palavras, sua revolução sexual promovia seus próprios interesses.

* * *

Em matéria de política, Hefner sempre se alinhava com os ideais progressistas. Ele foi conhecido por ter defendido desde o início os direitos reprodutivos, os direitos civis e os direitos LGBTQ. Para ele, não deve haver vergonha ligada ao sexo de qualquer tipo, nem à saúde sexual e às decisões relativas ao sexo. (E o governo com certeza não deve ser o árbitro moral dos desejos dos cidadãos.)

Keystone-France/Gamma-Keystone via Getty Images
Hugh Hefner cercado por 50 de suas Coelhinhas da Playboy. Londres, 27 de junho de 1966.

A Playboy começou a publicar artigos defendendo o direito ao aborto em 1963 – quase uma década antes da decisão histórica do caso Roe vs. Wade (em que a Suprema Corte dos EUA reconheceu o direito à interrupção voluntária da gravidez) --, e em 2016 criticou candidatos presidenciais de direita que "baseiam sua campanha em promessas de eliminar o acesso à contracepção, proibir o aborto, aprovar leis discriminatórias contra os gays e regulamentar ou simplesmente proibir qualquer preferência ou estilo de vida que não se enquadre em sua cruzada cristã para eliminar toda atividade sexual que não leve à procriação". Hefner defendia a Emenda de Igualdade de Direitos, e a Fundação Playboy, criada em 1965, financiou o Instituto Kinsey e centros de atendimento a vítimas de violência sexual. Hefner foi um defensor acirrado da igualdade de direitos dos cônjuges em casamentos heterossexuais e homossexuais, e, em editorial de 1955, afirmou que "se seria errado perseguir heterossexuais em uma sociedade homossexual, o inverso também seria errado".

Figuras icônicas do movimento pelos direitos civis, como Malcolm X e o reverendo Martin Luther King Jr., foram entrevistadas pela Playboy. Em 1959 Hefner organizou o Playboy Jazz Festival em Chicago, e a bilheteria do primeiro dia do evento foi doada integralmente à NAACP (Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor). Na manhã de quinta-feira o referendo Jesse Jackson saudou Hefner no Twitter, descrevendo-o como "forte defensor do movimento dos direitos civis".

Mas mesmo essa credibilidade política progressista não isenta homens poderosos de serem membros do patriarcado.

Ao longo dos mais de 60 anos de Hugh Hefner sob os holofotes do público, ele foi uma figura vista pelos círculos feministas como contraditória e controversa, e com razão.

Possivelmente o mais conhecido estudo dos Playboy Clubs criados por Hefner, uma rede de boates e resorts aberta a sócios filiados, foi escrito em 1963 pela então jovem Gloria Steinem. Antes de tornar-se ícone feminista, Steinem era jornalista. Ela se fez passar por "Marie", uma jovem de 24 anos – logo, no limite máximo de idade aceitável para ser Coelhinha da Playboy --, e foi contratada como Coelhinha pelo Playboy Club de Nova York. Steinem escreveu uma reportagem em duas partes sobre a experiência, detalhando o processo de contratação, o pagamento e o trabalho propriamente dito.

Show Magazine 1963
O anúncio de emprego no Playboy Club que atraiu a atenção de Gloria Steinem em 1963.

Nos clubes de Hugh Hefner, escreveu Steinem, as mulheres negras que trabalhavam para a Playboy não eram simplesmente Coelhinhas, como suas colegas brancas – eram Coelhinhas de Chocolate. As funcionárias dos clubes tinham que ter uma aparência específica que agradaria à clientela masculina do clube e incentivaria os clientes a consumir mais drinques. As Coelhinhas ganhavam "pontos negativos" por coisas como cabelos desarrumados, unhas que não estivessem perfeitas, maquiagem malfeita, comer no trabalho ou mascar chiclete. E, apesar dos bons salários mencionados nos anúncios classificados pedindo Coelhinhas, o clube ficava com 50% dos primeiros US$30 em gorjetas recebidas por cada Coelhinha a cada dia, e as Coelhinhas tinham que arcar com os custos de manter sua aparência no padrão esperado pela Playboy.

No final do segundo capítulo da reportagem, Steinem apresentou uma lista das coisas que ouviu ao longo do dia passado no clube.

"Ele é um gentleman de verdade", comenta uma Coelhinha, falando de um cliente. "Trata você igual, tendo você transado com ele ou não."

Havia um quê de atuação inerente no tipo de sexualidade feminina criada e promovida pela Playboy. Se as Coelhinhas nos famosos clubes de Hugh Hefner ou as namoradas que viviam com ele em sua casa pareciam estar se divertindo, o que mais tinha importância? Todas pareciam ter vidas cheias de brilho e glamour.

(Hugh Hefner é recordado, com razão, por ter se rebelado contra o moralismo de direita antes da maioria das pessoas, mas não se esqueça que, para isso, ele tratou as mulheres como lixo.)

Acusações mais perturbadoras foram feitas a Hugh Hefner por uma antiga namorada dele, Holly Madison, em seu livro Down the Rabbit Hole: Curious Adventures and Cautionary Tales of a Former Playboy Bunny, publicado em 2015. Madison descreve Hefner como um homem controlador e que às vezes chegava perto de ser verbalmente violento.

Ela escreveu sobre sua iniciação como namorada de Hefner, quando aprendeu em pouco tempo que para viver na Mansão da Playboy era preciso cumprir deveres sexuais que mais pareciam tarefas. Madison contou que se isolou e, ao longo dos anos em que conviveu com Hefner, passou por fases de depressão profunda. Ela diz que Hefner não a deixava fazer terapia.

"No final, eu tomei consciência de que ele era verbalmente violento, sim, e foi isso o que me levou a dar um basta em tudo", Madison disse ao BuzzFeed em 2015. "Havia tantas coisas no relacionamento com as quais eu não me sentia à vontade, mas eu as justificava na minha cabeça porque havia outras vantagens em estar lá."

Em resposta ao livro de Madison, Hefner disse que ela "optou por reescrever a história" para "continuar a estar no centro das atenções".

No ano passado, Hefner foi processado pela modelo Chloe Goins, que alegou que ele conspirou para deixar que Bill Cosby a drogasse e agredisse sexualmente na Mansão da Playboy em 2008 (Hefner negou).

Para algumas das mulheres que trabalharam com Hefner ao logo dos anos, ele foi uma dádiva, ou, no mínimo, um defensor útil. Sua revista proporcionou a Janet Mock, autora do livro "Redefining Realness", sua primeira oportunidade de estágio editorial. Hefner preparou sua filha Christie Hefner para sucedê-lo como CEO do império Playboy, e ela cumpriu essa função por 20 anos. "Hef mudou minha vida", disse à revista People uma ex-namorada dele, Kendra Wilkinson. "Ele me fez a pessoa que sou hoje."

Para outras, contudo, como Holly Madison, Hefner era algo mais sombrio.

* * *

Desde a primeira edição da Playboyque trouxe Marilyn Monroe, radiante, na capa, sorrindo ao lado dos dizeres "Entretenimento para Homens" --, ficou claro que as necessidades das mulheres não eram uma preocupação fundamental da marca Playboy.

"Se você é irmã, esposa ou sogra de alguém e nos pegou por engano, por favor nos entregue ao homem de sua vida e volte a ler a Ladies' Home Journal", escreveu Hefner.

Para ele, a liberação sexual significava a aceitação e visibilidade do desejo masculino, acompanhado pela capacidade das mulheres de satisfazer esses desejos publicamente e se mostrarem como seres abertamente sexuais. Mas uma abertura dos usos e costumes sexuais que atende aos desejos dos homens heterossexuais não implica em uma melhora automática da situação de todas as mulheres. Como bem sabe qualquer mulher que já tenha feito sexo com um homem, aquilo que funciona para o orgasmo e a satisfação sexual geral dele nem sempre funciona para o seu. E, numa sociedade patriarcal, um homem que escancara sua sexualidade joga segundo regras diferentes, em um campo totalmente diferente ao de uma mulher que escancara a dela.

Rachel Murray via Getty Images
Hugh Hefner cercado por Coelhinhas da Playboy num evento de 60º aniversário da revista, em 16 de janeiro de 2014 em Los Angeles. À sua esquerda está a Playmate do Ano de 2013, Raquel Pomplun, e à sua direita, sua esposa, Crystal.

Isso explica por que Hefner reagiu tão mal às críticas de feministas radicais aos pôsteres de modelos nuas publicadas na página central da revista, geralmente mulheres em poses sedutoras e com seios grandes.

"Estou interessado na tendência altamente irracional, emocional, amalucada seguida pelo feminismo nos últimos dois anos", ele escreveu em um memorando interno em 1970. "Essas garotas são nossas inimigas naturais, e não há nada que possamos dizer nas páginas da Playboy que as convença que não somos. É hora de travar batalha com elas, e acho que podemos fazê-lo."

Em última análise, Hefner nunca se propôs a criar uma revolução sexual real. Ele se propôs a criar uma revolução sexual que beneficiasse a ele próprio. Usou seus próprios desejos e frustrações e com base nelas criou entretenimento para outros homens como ele, além de ampliar os horizontes do que era considerado socialmente aceitável. Alguns desses desejos e dessas frustrações por acaso ajudaram a ampliar o espaço para pessoas que não eram homens brancos, heterossexuais e ricos, para que pudessem expressar sua sexualidade mais abertamente. Outros, não.

Em 2009 Hugh Hefner, no New York Times, refletiu sobre seu legado: "Vivemos literalmente em um mundo muito diferente hoje, e eu contribuí para torná-lo assim".

Seria difícil discordar.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Na Mansão Playboy com Crystal Hefner