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'As pessoas estão criando polêmica onde não existe', diz artista plástica sobre boicote a mostras

Para a artista e professora da Unicamp, reação é reflexo de um Brasil mais conservador.

05/10/2017 18:15 -03 | Atualizado 06/10/2017 09:13 -03
Reprodução
A performance "La Bête" foi alvo de críticas porque uma criança acompanhada de sua mãe tocou na perna e na mão de um homem nu.

A arte no Brasil está sendo vigiada bem de perto por usuários da internet e movimentos organizados. Diversas obras e mostras foram pivô de protestos e avalanche de críticas nas últimas semanas.

Para a artista plástica e professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Lygia Eluf, a reação negativa e desproporcional é reflexo de um Brasil mais conservador. "As pessoas estão criando uma polêmica onde não existe", disse ao HuffPost Brasil.

Apenas em setembro deste ano, ao menos duas mostras e uma peça de teatro estiveram sob escrutínio. A exposição Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira foi cancelada menos de um mês depois de sua estreia, em 15 de agosto, após protestos em redes sociais alavancados, principalmente, pelo MBL (Movimento Brasil Livre). A seleção de 270 obras que tratavam de questões de gênero e diferenças foi acusada de fazer apologia a pedofilia e zoofilia.

A peça "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu", na qual Jesus é interpretado por uma transexual, também foi cancelada antes mesmo de sua estreia no Sesc em Jundiaí (SP). Na decisão judicial que cancela a apresentação, o juiz Luiz Antonio de Campos Júnior, da 1ª Vara Cível da cidade, disse que a peça era de "mau gosto", pois figuras religiosas foram "expostas ao ridículo". A peça chegou a Belo Horizonte (MG) e será exibida até o próximo domingo (8).

O mais recente caso que ganhou a mídia e, sobretudo, as redes sociais foi a performance La Bête, durante a abertura do 35º Panorama de Arte Brasileira no MAM (Museu de Arte Moderna), em São Paulo, no final de setembro. A mostra foi alvo de críticas porque uma criança acompanhada de sua mãe tocou na perna e na mão de um artista nu. Tanto a performance, quanto o museu, foram detonados e acusados de incitar a pedofilia.

De acordo com Lygia Eluf, nenhum artista cria suas obras para fazer apologia a comportamentos inadequados.

Leia a íntegra da entrevista:

HuffPost Brasil: Apenas em setembro, vemos que ao menos três produções artísticas foram repreendidas e até encerradas. Por que isso está acontecendo?

Lygia Eluf: Eu acho que a gente está vivendo um momento trágico e um pouco obscuro. Acredito que esse respeito por esses espaços institucionais de arte parece que desapareceu. A intenção desse pequeno grupo de pessoas de tentar proibir, desqualificar essas manifestações artísticas, é resultado do momento que a gente está vivendo.

É preciso lembrar que, quando a gente fala da arte, se fala de uma representação simbólica do mundo, se fala do imaginário... Um dos papéis da arte é fazer pensar. Então, tem que ficar clara essa divisão entre a realidade e o simbólico. A gente não está falando de pedofilia, está falando de outra coisa -- a diferença entre realidade e o tipo de manifestação que é uma representação simbólica da realidade.

Como assim?

A arte não só é um espaço reflexivo, mas de uma situação de liberdade, discurso de liberdade. É obvio que toda arte está vinculada ao pensamento de uma época, mas a gente sabe que ela não é feita pra provocar, mas é simplesmente um olhar em um lugar que dialoga com o tempo, com a sociedade em que vivemos. As pessoas estão criando uma polêmica onde não existe. Os conservadores resolveram dominar o mundo, a gente está vivendo uma onda ultraconservadora.

As mostras que foram boicotadas representavam algum tipo de oposição ao conservadorismo?

Na verdade, eu acho que essas representações nem estão falando tanto do movimento político, é de uma coisa muito maior. Hoje não dá mais para localizar a arte como quando vivíamos na Ditadura Militar, por exemplo. Nos anos 70, a produção artística era inteira proibida e os artistas encontravam maneira de falar dessa proibição -- não é o que está acontecendo agora, que é um reflexo de uma época.

Na década de 70, os artistas do Brasil falavam desse momento político nos seus trabalhos. Hoje eu acho que é muito mais uma conversa, não só do momento politico brasileiro como do atual momento no mundo.

Você sente que há uma histeria generalizada nas redes sociais em relação à arte?

O que acontece é que esse pensamento mais conservador está dominando mesmo todo o cenário social, político, cultural brasileiro. Teve fechamento da exposição do Santander, teve proibição da peça na qual uma trans atuava, teve agora protestos no MAM em São Paulo, tudo isso dentro do espaço institucional de arte, o que é preocupante. Primeiramente, você não é obrigado a ir a um museu, ninguém te obriga a ir em um museu e ver um homem nu.

Em segundo lugar, essa ideia de que você está incitando um comportamento inadequado não faz o menor sentido. Geralmente nesse espaço [museu], o público está lá por uma razão cultural. Se você vai no museu, você pelo menos tem uma ideia do que vai encontrar, e o objetivo principal é que aquilo te faça pensar. Claro que, como efeito colateral, a arte pode até chocar, mas esse nunca é o objetivo principal de nenhuma artista. De um modo ou de outro, o que está se propondo é a transformação da maneira como você olha o mundo, então, uma arte vai te instigar a pensar.

Além desse papel imediato, a arte também construiu a história de toda a civilização. Na História moderna, a nudez e a sexualidade são retratadas desde o século 16, ou seja, nada recente.

O brasileiro não tem o hábito de frequentar museus e peças de teatro. De acordo com um estudo da Fecomércio-RJ, 92% das pessoas não costumam ir a exposições. Como essa falta de contato com a arte pode influenciar esse debate atual?

As artes visuais do Brasil estão muito desprestigiadas atualmente. Apenas uma elite cultural consome esse tipo de produção e, de repente, pessoas que não estão habituadas a essa produção começam a reclamar sobre ela.

Temos um problema aí: essa polêmica traz pessoas que normalmente não frequentariam exposições e causam também uma certa confusão porque elas estão despreparadas, elas não sabem o que estão vendo. Eu costumo dizer aos meus alunos que as pessoas são analfabetas visualmente e que a gente precisa ajudar na hora de montar exposição, porque a gente está lidando aqui no Brasil com um público despreparado. Não é uma unanimidade, não vai ter uma multidão entrando numa exposição no Brasil.

A nudez na arte sempre foi tabu?

A representação da sexualidade é um assunto, como é assunto paisagem, natureza morta, como é assunto retrato, então nudez e sexualidade são apenas mais alguns assuntos do mundo que a arte acaba tratando. Várias obras do século 19, por exemplo, tratam especificamente de uma relação sexual. Elas sempre causaram certo constrangimento, não vou dizer que não, mas as pessoas veem estas obras como ponto de transformação.

A questão é o nosso olhar: a gente está olhando o quê? Para que que serve isso? Não é para reafirmar ou incentivar comportamentos inadequados, como pedofilia, zoofilia... Não é isso porque a arte não tem essa função. Pode tratar desses assuntos, mas não é a função dela incentivar. Uma vez que se entende isso, entende também que o que está acontecendo não é nada demais a não ser um artista -- e nem vou discutir se é bom ou não -- que está dialogando com seu momento cultural e social. É isso.

O problema é que muita gente quer se manifestar sobre coisas que elas próprias nem entendem.

As exposições que foram alvo de críticas levantaram um debate sobre os limites da arte. Você acredita que há limite na produção artística?

É difícil falar disso. É um conceito complicado. Em alguns momentos, atitudes de pessoas que não eram artistas, vistas com novo olhar, cultura diferente, acabam sendo incluídas no evento da arte.

Exemplo disso são as obras expostas na década de 80 no Museu de Arte do Rio de Janeiro, que reunia obras de pessoas de hospícios e presidiárias, quando inclusive Arthur Bispo do Rosário virou artista consagrado. Quer dizer, eram manifestações de pessoas que não estavam inseridas no contexto da arte, coisa feita mais para auxiliar no tratamento dessas pessoas, e depois de um tempo ficou inserido dentro do circuito oficial da arte.

Não dá para falar que a arte tem limite. Acho que a manifestação artística é inerente ao ser humano.

Então também não há limite nos casos das mostras brasileiras?

Veja bem, estas exposições que tratam de coisas "polêmicas" estavam acontecendo dentro de espaços institucionalizados pra arte. Acredito que, se está dentro do museu, tem que ter respeito por isso. Agora você vê grafite nas ruas e chama isso de arte, mas está na rua. No museu, é diferente. Se estas exposições estivessem nas ruas, as pessoas teriam o direito de dizer "não quero isso em um espaço público, está acontecendo na frente da minha casa e não quero ver".

Mas, elas estão acontecendo dentro de um espaço institucionalizado para esse tipo de manifestação artística e não vejo nenhum problema.

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