ENTRETENIMENTO

A improvável história de ‘American Girl’, o maior não-hit de Tom Petty

O single não entrou nas paradas quando foi lançado, no fim dos anos 1970. Hoje, sua mitologia segue viva.

04/10/2017 14:53 -03 | Atualizado 04/10/2017 14:53 -03

Em 1976, Tom Petty, o cantor e compositor americano morto nesta segunda-feira (2), gravou um single que na época não tinha nada demais. A música, sobre uma menina num terraço olhando para "um mundão", nem sequer chegou às paradas quando foi lançada como single, no ano seguinte.

Em uma resenha da revista Rolling Stone do disco de estreia de Petty (Tom Petty and the Heartbreakers, o mesmo nome de sua banda), do qual fazia parte a música, não há nenhuma menção a ela. Os britânicos podem ter notado a canção, que entrou para o Top 40 do país e foi elogiada pela revista NME como um dos melhores singles de 1977. Mas os americanos não estavam muito interessados. A banda estaria frustrada porque os programadores das rádios não tocavam muito a canção nos Estados Unidos.

Michael Putland via Getty Images
Tom Petty em Nova York, 1977.

Seriam necessárias mais de duas décadas para que a batida à Bo Diddley entrasse para a lista Bubbling Under Hot 100, da Billboard. Em 1994, quando foi relançada, a música chegou à 9ª posição, figurou em filmes de sucesso (como O Silêncio dos Inocentes) e passou a figurar em listas de karaokê. A canção também começou a criar uma mitologia própria e estava pavimentando o caminho para se tornar uma das músicas mais regravadas da história.

"Take it easy, baby", cantamos. "Make it last all night. She was an American girl."

Hoje em dia, American Girl faz parte do cânone do pop, considerada uma das 100 melhores músicas de guitarra de todos os tempos. Ela pode ter vindo ao mundo sem chamar muita atenção, mas gradualmente tornou-se o tipo de hino que toda geração cantarola parada no semáforo ou em casa.

Uma música quase adocicada demais em homenagem a uma mulher, ela não chegou perto do sucesso de outros hits do mesmo ano, como Margaritaville ou Tonight's the Night. Mas, com determinação, conseguiu seu lugar na trilha sonora coletiva de nossas vidas.

E ela tinha muita bagagem, como tantas outras pedras fundamentais do pop. Correram muitos boatos sobre aquela mulher triste e desesperada da música de Petty. Alguns fãs especularam que a música falava de uma estudante da Universidade da Flórida que se suicidou pulando da janela de um alojamento da escola, talvez porque estivesse drogada. Como provas, os fãs observavam que Petty, nascido em Gainesville, cidade onde fica o campus da universidade, também cantou sobre a estrada 441 em American Girl. A estrada passa pela universidade.

"Ela ouvia os carros passando", diz a letra, "na 441. Como ondas quebrando na praia".

Como a maioria dos bons mitos, o boato sobre o suicídio são faz-de-conta. Segundo o próprio Petty, a história virou "uma grande lenda urbana na Flórida", mas a música não tem nada a ver com uma estudante universitária, o que ele deixou claro numa entrevista reproduzida em Conversations with Tom Petty e citada pelo site Snopes. Ele provavelmente nem sequer escreveu a música na Flórida.

"Estava morando num apartamento bem perto da estrada. E os carros passavam. Em Encino (Califórnia), perto da casa do Leon [Russell]", disse ele ao autor do livro, Paul Zollo."Lembro de pensar que parecia o oceano. Aquele era meu oceano. Minha Malibu. Onde eu ouvi as ondas quebrando, mas eram só os carros passando. Acho que isso deve ter sido a inspiração para a letra."

Mike Campbell, guitarrista dos Heartbreakers, também desmente a história. "As pessoas vinham dizer que era sobre suicídio porque um dos versos diz: 'Se ela tivesse que morrer'", disse ele ao Songfacts, "mas o que elas não entendiam é que o verso inteiro é: 'Se ela tivesse que morrer tentando'. Algumas pessoas interpretaram fora do contexto e literalmente. Para mim é só uma bela canção de amor".

Ainda assim, os moradores de Gainesville se agarraram à lenda, supostamente a espalhando pelo campus. (Outro mito – que os alunos faziam uma festa de Halloween todo ano na antiga casa de Petty – também é falso; o músico nunca morou na cidade; só sua mãe morou lá. Mas uma história boa é uma história boa.

Na verdade, Petty falava de American Girl como se a música fosse autobiográfica, como se ele fosse a pessoa "criada à base de promessas", que "não conseguia deixar de pensar que a vida era mais que aquilo". Ele cresceu na parte caipira de Gainesville, como explicou no programa de rádio Fresh Air, da rede pública NPR, em 2008. "Minha família não estava envolvida com a universidade. Eles eram mais tipo 'white trash'. Então tenho esse histórico, mas sempre aspirei ser algo diferente."

Em 1976, ele ainda era um azarão, cantando sobre coisas "tão fora do alcance", porque elas de fato estavam. Quando sua carreira musical decolou, com hits como Free Fallin', I Won't Back Down e Mary Jane's Last Dance, foi reconfortante ouvir uma versão de Petty efetivamente sonhando com o "mundão, com lugares para onde fugir". A música que quase não fez sucesso, que bate tão fundo para alguns e é simplesmente estática para outros, é a mais simples das fugas.

Para muitos fãs em 2017, nem sequer um dia depois da repentina morte de Petty, é o que ela ainda representa.

Ian Dickson via Getty Images
Tom Petty performs live onstage at the Hammersmith Odeon before a concert on May 14, 1977.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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