LGBT

Conheça o grupo LGBT de esporte em São Paulo que tem desafiado a homofobia

Baladas, bares e saunas já não são — e nem precisam ser — os únicos locais de socialização de homossexuais

03/10/2017 15:12 -03 | Atualizado 03/10/2017 20:37 -03
Nicolas Calligaro/Divulgação
Unicorns em treino de corrida no Minhocão — a homofobia não os impede de praticar esportes.

Em junho deste ano, a Fifa anunciou que os juízes dos jogos da Copa das Confederações poderiam interromper partidas nas quais torcedores tivessem atitudes racistas ou homofóbicas. Na Grã-Bretanha, em fevereiro, foi publicado um relatório do comitê de cultura, mídia e esporte do Parlamento que defende a "tolerância zero" no combate à homofobia no esporte. No Brasil, é comum ouvir torcidas de futebol berrar "bicha" ou "viado" a plenos pulmões quando um jogador do time adversário bate um tiro de meta. Em julho, situações como esta levaram o clube Paysandu a ser denunciado pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) pela homofobia de uma das torcidas organizadas do time, a Terror Bicolor.

Os exemplos são inúmeros e a síntese é clara: no esporte, a discriminação também é uma velha conhecida das pessoas LGBT e há um imenso caminho a ser percorrido se quisermos mudar isso. No entanto, a prática esportiva não é e nunca foi só para homens héteros e cisgêneros. E, se depender de iniciativas como o grupo Unicorns Brazil, de São Paulo, nunca vai ser.

Fundado há dois anos, o grupo tem uma intenção bastante simples: unir qualquer pessoa LGBT que tenha interesse em praticar futebol, corrida ou fazer treino funcional. Começou com um time para jogarem bola. Hoje eles movimentam em torno de 150 pessoas nas atividades, que são realizadas no Parque do Ibirapuera ou no Minhocão, várias com as vagas já esgotadas.

"O futebol tem um ambiente extremamente machista. Não só contra homossexuais, mas contra mulheres e quaisquer outras pessoas que não sejam homens héteros", diz o publicitário Pedro Gariani, 22, cofundador do grupo, ao HuffPost Brasil. "Todo gay tem uma história de desconforto no passado, seja no time da empresa ou de amigos héteros."

Ao integrar os Unicorns, muitos desses rapazes sentiram-se em casa logo de cara. "As pessoas se encontraram muito. Falavam 'nossa, eu finalmente posso ser gay, jogar futebol e isso não ser problema para ninguém'", conta.

As páginas nas redes sociais e o rápido espalhamento das postagens fez o time atrair cada vez mais interessados. Em abril, uma reportagem da Folha de S.Paulo os fez atingir ainda mais pessoas — a partir daí, a procura pelo grupo aumentou muito. Inclusive por mulheres heterossexuais que se sentem desconfortáveis com a ideia de treinar com homens héteros.

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Em sentido horário: Filipe Marquezin, Pedro Gariani e Bruno Host são os fundadores do grupo; Cecilia Repetto é a coach dos rapazes.

Homens gays são a grande maioria do grupo hoje, mas também há lésbicas e as portas estão abertas para transgêneros. E, ao contrário do que sugerem vários comentários nas redes sociais, nem todos são brancos ou têm tipo físico atlético.

Por outro lado, as portas estão fechadas para homens héteros que queiram jogar futebol com os Unicorns — eles já tiveram uma partida contra um time hétero e não foi bacana. "Eles tinham muita competitividade, não aceitavam perder para gays, faziam piadinhas e coisas desse tipo", diz. As práticas da corrida e do treino funcional não têm restrições. Na verdade, a única restrição, como disseram à Folha, é "falar mal da Madonna".

Além de criar um ambiente acolhedor e livre de discriminações, iniciativas como esta levam a homossocialização para lugares além de bares, baladas, saunas, aplicativos de relacionamentos ou da internet em geral.

"Conheci aqui pessoas que talvez, se não fosse por meio do grupo, não as teria conhecido. Construí grandes amizades", conta Gariani. "A gente tem aqui pessoas que eram sedentárias e começaram a praticar atividades físicas por causa do grupo. Também tem pessoas que vieram morar em São Paulo e queriam conhecer gente nova. Tem várias histórias muito legais."

Uma delas é a do mineiro Marcio Dumont, 29, engenheiro. Ele conheceu os "unicórnios" em uma festa de aniversário do grupo, após ser convidado por um amigo que também veio de Belo Horizonte. "Eu entrei não só por causa do esporte, mas também por causa daquele clima tão gostoso que senti naquela ocasião", conta.

"Corro na segunda, faço funcional na quarta e o no sábado e corro no domingo novamente. Além de fazer bem para minha saúde, de eu estar vendo as mudanças no meu corpo, vou encontrar meus amigos. Os meninos me receberam de braços abertos."

Campeonato

O diretor de arte Bruno Host, 30, cofundador com Gariani e o advogado Filipe Marquezin, 31, diz que o trio de amigos têm enfrentado dificuldade em conseguir patrocínio de marcas porque trata-se de um grupo de gays.

"A gente entende que é um tempo de crise e tudo mais, mas isso ainda é meio bizarro para nós", conta.

Uma das ocasiões em que uma marca se envolveu com o Unicorns foi no que é também um dos momentos mais interessantes vividos pelo grupo: um campeonato.

Em julho, o Hornet, aplicativo de relacionamentos para homens gays ou bi, uniu-se ao time e a outros semelhantes, BeesCats Soccer Boys (Rio), Futeboys FC (São Paulo) e o CapiVara Futebol Clube (Curitiba), para lançar a primeira Taça Hornet de Futebol da Diversidade. Os BeesCats venceram a competição.

"A vibe foi muito legal, porque os times têm o mesmo ideal, que é, acima do futebol, estar junto, se divertir", conta Host.

Recentemente, os grupos se reuniram para criar a LiGay Nacional de Futebol (LNF, ou simplesmente "LiGay"). O primeiro campeonato dela, que também será o primeiro nacional de times gays, será em 25 de novembro, no Rio. Os Sereyos (Florianópolis), BHarbixas (Minas Gerais), Futebol Magia (Porto Alegre) e o Bravus (Brasília) também estarão lá.

"Isso é o legal: ultrapassar nossa zona de conforto e conhecer outras pessoas, fazer outras atividades físicas", diz Gariani.

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