COMPORTAMENTO

Podemos ensinar nosso cérebro a desejar alimentos saudáveis?

É preciso um pouco de prática.

02/10/2017 06:36 -03
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Outras técnicas, como comer conscientemente, também podem ajudar a controlar o desejo por alimentos pouco saudáveis.

Por mais que tentemos nos convencer, os alimentos saudáveis não têm o mesmo sabor que a chamada "junk food", um tipo de comida mais salgada, doce e gordurosa. Qualquer pessoa que diga o contrário está mentindo escancaradamente.

Se a junk food tivesse um sabor ruim, então comer alimentos saudáveis seria moleza. Mas, e se pudéssemos treinar nosso cérebro para desejar comidas saudáveis? Parece impossível, certo? Talvez não seja.

Peta Stapleton, professora associada da Escola de Psicologia da Bond University, pesquisa a eficácia de técnicas psicológicas para controlar o desejo por certos alimentos, eliminando as emoções negativas em torno da comida. Outras técnicas, como comer conscientemente, também podem ajudar a controlar o desejo por alimentos pouco saudáveis.

Primeiro, vejamos de onde vem o desejo por junk food.

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Por que sinto vontade de comer alimentos pouco saudáveis?

Segundo Stapleton, nosso desejo atual de comer alimentos com poucos nutrientes tem origem na infância -- ou seja, o tipo de alimentos que comemos quando crianças e como relacionamos (a nível pessoal e por causa de nossos pais) alimentos com certas emoções.

"Esta é a base onde tudo começa -- tem a ver a que você foi exposto", Stapleton disse ao HuffPost Austrália.

"Estabelecemos estas associações [negativas com os alimentos], e estas podem ter sido estabelecidas durante a infância, onde uma criancinha cai e machuca o joelho e a mamãe lhe dá um pirulito. Estabelece associações muito fortes as quais ainda estamos tentando desenredar em pessoas de 60 anos em terapia", explica Stapleton.

"A comida nunca será a resposta para fazer um sentimento negativo desaparecer"

As coisas só pioram "se você está fazendo isso com seus filhos quando estão crescendo. Isso é certamente um problema quando os pequenos estão acostumados a comer no McDonald's todas as tardes depois da escola."

Em outras palavras, muitas vezes conectamos tristeza ou raiva com uma recompensa ou solução: junk food. E o desafio é romper essas associações. Embora alimentos e emoções estejam intimamente ligados, como explica Stapleton, "a comida nunca será a resposta para fazer um sentimento negativo desaparecer".

"Estamos falando de o desejo constituir um impulso fisiológico de comer algo e, obviamente, também pode ter uma ligação emocional."

Então, claro, há o fato que alimentos processados e bebidas -- particularmente aquelas com alto teor de açúcar -- acionam certas respostas no cérebro.

"Para as escolhas de alimentos pouco saudáveis, você recebe esse componente adicional do excesso de açúcar que aciona certas funções do cérebro, por isso seus desejos na fase adulta (se comeu muita comida do tipo junk food na infância) responderão da mesma forma que o vício", acrescenta Stapleton.

"Não é apenas um mau hábito, na verdade está sendo induzido, por isso as pessoas têm sintomas de abstinência se cortam o açúcar."

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É possível ter vontade de comer alimentos saudáveis?

OK, e as pessoas no outro extremo do espectro? Pessoas que sempre (e felizmente) se alimentam de maneira saudável nunca se sentem tentadas em comer o bolo de aniversário na empresa ou donuts e têm uma relação positiva com a comida saudável. Embora possa ser frustrante e provocar inveja nos amantes de junk food, isso mostra a possibilidade de desejar alimentos saudáveis.

"Realmente acontece com muitas pessoas que não têm desejos de comida mais negativos. Elas apenas têm uma natural inclinação de comer alimentos frescos, como frutas e legumes", diz Stapleton.

"Elas descrevem o mesmo tipo de vontade e sentimento que vemos em pessoas com desejos que não são úteis."

"Estas pessoas tendem a ser mais guiadas pela sensação quando comem algo. Porque frutas e legumes proporcionam uma melhor sensação quando os comemos e, nas horas seguintes, é o que direciona a vontade dessas pessoas de naturalmente se sentir mais inclinadas a comer esse tipo de alimento na próxima vez", continua Stapleton.

"Se você sempre se alimenta de maneira saudável, frutas e legumes frescos, é um estilo de vida. Não é que você seja viciado em alimentos saudáveis."

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Se você não for uma dessas pessoas que naturalmente desejam comer alimentos saudáveis, como legumes, existem estratégias para ajudar a treinar seu cérebro, como manter um diário de alimentação, se alimentar conscientemente e administrar o estresse.

A pesquisa de Stapleton envolve participantes que fazem acupuntura psicológica, também conhecida como Técnicas de Libertação Emocional (EFT, na sigla em inglês).

"Em primeiro lugar, sempre atacamos os desejos negativos de comida para removê-los", explicou Stapleton.

"Esta técnica psicológica usa pontos de pressão -- mas não usamos agulhas como a acupuntura tradicional -- para atingir a conexão emocional com o desejo alimentar. O que estamos descobrindo é que, quando a conexão é liberada, as pessoas perdem o desejo [por alimentos pouco saudáveis], pois o alvo é uma parte do cérebro que envia essa resposta ao estresse.

"Quando perdem o desejo de comer esses alimentos pouco saudáveis, descobrimos que a inclinação natural de querer comer alimentos nutritivos emerge por si só", diz a psicóloga.

No entanto, há muitas críticas sobre a eficácia da EFT. Um estudo concluiu que "há pouco suporte para as teorias radicais subjacentes às técnicas de psicologia de energia". Outra análise cita que "os pequenos êxitos observados nessas terapias são, possivelmente, atribuídos às conhecidas técnicas comportamentais e cognitivas que estão incluídas na manipulação de energia".

Como desejar alimentos saudáveis

Aqui estão outras maneiras de treinar o cérebro a desejar menos junk food e, como resultado, naturalmente ter mais vontade de comer alimentos saudáveis. E é possível implementá-las facilmente no seu dia a dia.

1. Faça um diário alimentar e de seu humor

Pesquisas mostram que registrar tudo o que você come realmente ajuda a ingerir menos calorias. Um estudo com aproximadamente 1.700 participantes revelou que manter um diário alimentar pode dobrar a perda de peso de uma pessoa.

"Eu recomendaria manter um registro [de tudo o que você come] para que você possa revisar, já que boa parte disso acontece inconscientemente, sem que você preste atenção", diz Stapleton. "As pessoas se esquecem do que comeram ao longo do dia. Até mesmo crianças podem fazê-lo."

"Os aplicativos são fantásticos para isso, já que são imediatos se você tiver o telefone ao lado. Muitos aplicativos também dão a oportunidade de gravar como você estava se sentindo quando comia. Isto inicia a conscientização para que você preste atenção ao que está comendo."

2. Administre o estresse e as emoções

Se você constantemente se sente "emocionalmente faminto" e busca a comida como uma maneira de solucionar uma situação ou de lidar com o estresse e emoções, concentre-se em administrá-los de forma construtiva -- seja por meio de exercícios, conversando com um amigo próximo ou profissional ou meditando.

"Acho que as pessoas encontram muitas desculpas para justificar seus hábitos alimentares, mas a realidade é que você deve ter fome apenas a cada três ou quatro horas", diz Stapleton.

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Encontre uma maneira construtiva de relaxar -- talvez caminhando na praia ou lendo à luz do sol.

"A maneira que descrevemos a fome física é que ela aumenta gradualmente desde a última vez que você comeu, enquanto a fome emocional te atinge na cabeça imediatamente", explica Stapleton.

"Se você achar que, de repente, sente vontade de comer chocolate, eu perguntaria: há uma emoção por trás disso? Se você chega em casa e ataca a geladeira imediatamente, mas almoçou duas horas antes, ou sente fome depois de jantar, isso indica que há uma emoção aí e que você está tentando usar a comida para alimentá-la."

3. Coma sem distrações

A alimentação consciente é constantemente repetida, e por uma boa razão -- é que funciona.

"Sempre que realmente comamos, sentemos e tentemos não fazer nada além de comer. Se você está assistindo à TV, lendo um livro ou olhando o celular, acabará comendo 20% mais se não estivesse distraído, porque não está realmente prestando atenção às sensações de comer e de saciedade", diz Stapleton.

"Isto se chama alimentação consciente, é realmente poderosa e você pode praticá-la literalmente e imediatamente."

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Fique longe do telefone.

4. Tente comer de olhos vendados

Embora Stapleton não esteja dizendo para que você vende os olhos em todas as refeições, esta técnica de alimentação é uma maneira de fazer com que você se sintonize com o sentimento de satisfação, como "já comi o suficiente".

"Houve estudos na Suécia onde os participantes tiveram seus olhos vendados durante uma refeição, e depois comeram exatamente a mesma refeição no mesmo horário do dia seguinte, mas sem os olhos vendados. Descobriram que, tirando a visão da equação, as pessoas comem menos.

"Em minhas consultas, sugiro tentar essa experiência e colocar uma máscara para os olhos na hora do jantar. Você ainda achará a boca, mas, quando remove a visão (e todas as regras com as quais crescemos como 'coma tudo o que está no prato porque há crianças morrendo de fome na África'), acaba comendo menos.

"Alguns de meus clientes retornam e dizem que pararam de comer quando se sentiram satisfeitos e, quando retiraram a venda, ainda havia comida no prato. Provavelmente nos servimos de mais comida do que precisamos", destaca Stapleton.

"Estas dicas podem ajudar a iniciar o processo. Se você sente desejos intensos por comida e realmente não sabe de onde eles vêm, talvez precise procurar alguém que possa ajudar.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost AU e traduzido do inglês.

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