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O ato em apoio ao MAM que reuniu artistas, visitantes e movimentos culturais

Mais de 200 pessoas se reuniram na instituição na tarde deste domingo (1º)

01/10/2017 18:47 -03 | Atualizado 01/10/2017 19:33 -03

Atores, cineastas e artistas plásticos fizeram um ato na tarde deste domingo (1º) manifestando apoio ao Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM).

De acordo com a Folha de S. Paulo, mais de 200 manifestantes se reuniram na sede da instituição, situada em frente ao Parque do Ibirapuera, com cartazes escritos "Somos todos MAM".

No ato, eles também deram as mãos na parte externa do museu e gritaram palavras de ordem como "Censura, não" e "Arte não é crime".

"Viemos em solidariedade ao Museu e para nos posicionar contra um movimento que quer qualificar o país como conservador, o que não corresponde à realidade", disse a jornalista Marcy Junqueira ao O Globo.

Segundo depoimento de Marcy ao jornal, a manifestação de apoio foi organizada de forma espontânea por artistas, visitantes e movimentos culturais.

Desde a última terça-feira (26), o MAM tem sido atacado dentro e fora da internet por ter sediado uma performance envolvendo nudez.

Em um vídeo que circulou nas redes sociais, o artista Wagner Schwartz aparece deitado no chão completamente nu. Uma criança, acompanhada de sua mãe, se aproxima e toca os pés e a canela de Schwartz.

A obra era uma releitura da série Bicho, considerada um clássico da artista brasileira Lygia Clark.

Alavancada por páginas do Facebook, como a do Movimento Brasil Livre (MBL), o vídeo se tornou alvo de críticas. O museu foi acusado pedofilia por parte de usuários que não consideraram positiva a exposição da criança à cena de nudez.

"Tudo tem limite!"

Neste sábado (30), o prefeito de São Paulo, João Doria, publicou um vídeo criticando a performance de Wagner Schwartz, assim como a mostra Queermuseu, realizada pelo Santander Cultural em Porto Alegre – cancelada recentemente após protestos nas redes sociais.

No vídeo intitulada Tudo tem limite!, Doria classificou a performance no MAM como "libidinosa" e "absolutamente imprópria".

"Peço que queles que promovem a arte no Brasil tenham consciência de que é preciso respeitar àqueles que frequentam os espaços públicos", pediu o prefeito.

Assista ao vídeo na íntegra:

Também neste sábado, um grupo de pessoas fez um protesto em frente ao museu, acusando a instituição de promover a pedofilia. O protesto resultou em agressões verbais e físicas contra funcionários do MAM e também visitantes.

Em nota à imprensa divulgada neste domingo (1º), o MAM informa que "repudia as agressões que vem sofrendo nos últimos dias por grupos radicais".

De acordo com o texto, a instituição abriu registrou "dois boletins de ocorrência apontando ameaças de dano ao patrimônio e à integridade física". O texto também informa que a instituição tem recebido ameaças por meio de telefonemas anônimos.

O museu também informa que a performance se deu "com a sala sinalizada, incluindo a informação de nudez artística". E ressalta:

"O MAM esclarece mais uma vez que a performance 'La Bête', realizada na abertura da Mostra Panorama da Arte Brasileira, se deu com a sala sinalizada, incluindo a informação de nudez artística, seguindo o procedimento regularmente adotado pela instituição de informar os visitantes quanto a temas sensíveis."

Leia a nota na íntegra:

O Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM repudia as agressões que vem sofrendo nos últimos dias por parte de grupos radicais em sua sede no Parque Ibirapuera. Na sexta-feira, o museu foi invadido e seus colaboradores e visitantes foram alvo de ofensas e agressões verbais, em claro ato intimidatório.

No sábado, o museu foi palco de novo protesto patrocinado pelo mesmo grupo de indivíduos, que desta vez, além das agressões verbais, cometeram atos de violência física contra visitantes e colaboradores.

Em resposta às agressões, o museu registrou dois boletins de ocorrência, nos quais constam também as denúncias de ameaças de danos ao patrimônio e à integridade física sofridas pelo museu, por meio de telefonemas anônimos e mensagens em plataformas de mídias sociais.

O MAM esclarece mais uma vez que a performance 'La Bête', realizada na abertura da Mostra Panorama da Arte Brasileira, se deu com a sala sinalizada, incluindo a informação de nudez artística, seguindo o procedimento regularmente adotado pela instituição de informar os visitantes quanto a temas sensíveis.

O trabalho apresentado na ocasião não tem conteúdo erótico e se limitou a uma leitura interpretativa da obra Bicho, de Lygia Clark, historicamente reconhecida pelas suas proposições artísticas interativas.

O museu reitera ainda que a criança que aparece no vídeo veiculado por terceiros era visitante e estava acompanhada e supervisionada por sua mãe e que as referências à inadequação da situação são resultado de desinformação, deturpação do contexto e do significado da obra.

O MAM considera pertinente o debate para o aprimoramento e difusão do marco legal de classificação indicativa no ambiente museológico, ao mesmo tempo em que defende a liberdade de expressão na produção cultural.

O museu agradece às manifestações de apoio que tem recebido de instituições culturais, de artistas e do público em geral e segue empenhado em esclarecer e estimular um diálogo construtivo, tolerante e plural com todos os segmentos da sociedade para o fortalecimento da cultura e da nossa democracia.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, o curador do MAM, Filipe Chaimovich,falou sobre nudez na arte.

"A questão da nudez na arte é universal. Ela está presente em todos os museus. É parte inclusive do nosso patrimônio de arte pictórica. Temos pinturas com pelo menos 12 mil anos em que a nudez está presente. A nudez faz parte da história da arte."

Questionado sobre possíveis proibições de performances como a do artista Wagner Schwartz, o curador esclareceu:

"Não há nenhuma medida no sentido de proibição. O museu tem uma vocação pedagógica, é preciso esclarecer o público em casos que suscitem debate. É posição do museu abrir o diálogo com a sociedade. A compreensão do que é a arte, da história da arte, é parte da missão do museu. E para isso ser transmitido é preciso existir diálogo."