COMPORTAMENTO

O que estas 4 mulheres descobriram sobre seu corpo ao se apaixonarem pelo pole dance

'Meu psiquiatra disse que se pudesse, recomendaria pole dance para todo mundo'.

08/10/2017 07:30 -03 | Atualizado 09/10/2017 13:24 -03
Vivian Jordão
"Quando você vê que seu corpo, mesmo com os defeitos que a gente acha que ele tem, é capaz de fazer coisas tão bonitas, a questão estética não importa mais".

Muitas mulheres vivem em busca de um padrão de beleza quase impossível de ser alcançado. Diariamente se olham no espelho, mas será que se enxergam de verdade? Têm coragem de se ver, independente do seu tipo de corpo? Mas além da coragem, amam o que estão vendo, de verdade?

"O pole dance ajuda a olhar para o nosso corpo e para nós mesmas com mais carinho. E olhar para as coisas bonitas que ele é capaz de fazer". Esta frase é de Bianca Santos, de 27 anos, que deixou para trás sua rotina de jornalista para não só ressignificar sua autoimagem, mas a ensinar auto-estima a outras mulheres com um instrumento poderoso: o pole dance.

Em busca da aceitação do próprio corpo e de entender melhor a relação que tinha com o conceito de beleza, Santos encontrou no pole as respostas. Hoje ela é instrutora de pole dance do Studio Metrópole, em São Paulo, um dos maiores locais totalmente dedicado ao pole no Brasil: "Quando você vê que seu corpo, mesmo com os defeitos que a gente acha que ele tem, é capaz de fazer coisas tão bonitas, a questão estética não importa mais", contou em entrevista ao HuffPost Brasil.

Com origens em um tipo de ginástica indiana, variante da yoga, a Mallakhamb (que é praticada em sua maioria por homens, em um poste de madeira com cordas), o pole dance evoluiu a partir dos anos 1920, nos Estados Unidos, quando dançarinas começaram a fazer apresentações mais parecidas com as que conhecemos hoje, em tours de circos e casas noturnas. E hoje, ele é mais do que uma dança.

Assim como a história de Santos, a física nuclear, Ana Paula Gimenes, de 26 anos, viu no pole dance uma oportunidade de amar mais o próprio corpo e a se desprender de padrões. "Não me olho no espelho e penso que queria ser de outro jeito, porque hoje meu corpo faz coisas que eu não imaginava que era possível antes".

Desde 2008 existe a Federação Esportiva Internacional, que organiza campeonatos mundiais de pole dance e luta para o reconhecimento da atividade como esporte. A Federação se reuniu em fevereiro de 2017 com o Comitê Olímpico Internacional para discutir essa aprovação, que está em andamento.

Além de Bianca e Ana Paula, conheça a história de mulheres que fazem do pole dance um instrumento de amor-próprio e empoderamento:

"O que eu vejo é um corpo capaz de dançar lindamente."

Vivian Jordão

"É muito difícil você se encarar, durante uma hora de aula, num espelho gigantesco, que está te mostrando tudo escancarado. Seu corpo, suas gorduras, suas celulites, todas as suas inseguranças. No começo, é difícil lidar com isso. Hoje, o que eu vejo, não me incomoda mais. O que eu vejo não é mais um corpo com celulites, com dobrinhas; o que eu vejo é um corpo capaz de dançar lindamente.

Me ajudou muito com auto-estima. Quando você vê que seu corpo, mesmo com os defeitos que a gente acha que ele tem, é capaz de fazer coisas tão bonitas, a questão estética não importa mais. Eu tinha vergonha de postar fotos. Hoje eu posto tudo e me sinto linda.

Sempre fui uma pessoa que tinha problemas com a sensualidade, com a sexualidade. A mulher não pode ser sensual, senão ela vai ser vista como vulgar. Essas coisas que a gente ouve a vida inteira. E cresce pensando "não posso ser sensual". Pensava que nunca iria conseguir ser sensual, por causa desse bloqueio. Mas descobri que eu posso ser sensual, sim. E tudo bem.

É um problema enraizado de machismo, de achar que a mulher que explora sua sensualidade e sexualidade é vulgar. Para a sociedade, um homem sem camiseta é lindo. Mas se a mulher está dançando e se conectando com seu corpo de uma forma sensual, é errado.

Pole é sensual, sim. Mas também é contemporâneo, é artístico, é dramático, é esporte. É arte. É uma forma de expressão. A melhor coisa que eu fiz na vida foi largar um emprego que eu não gostava para trabalhar com pole dance". - Bianca Santos, 27.

"Hoje eu consigo me olhar no espelho. Sou muito mais confiante."

Vivian Jordão

"Eu sou uma mulher grande, então eu tinha problemas com aceitação do corpo. Eu olhava outras meninas e pensava "queria ser pequena, não queria ter esse corpo". Entrei em depressão. O pole é minha válvula de escape. Você lida com a imagem do seu corpo o tempo todo. Você tem que estar se olhando e isso leva a aceitação.

No começo era difícil, porque ficava comparando meu corpo com o das meninas. Hoje eu consigo me olhar no espelho. Sou muito mais confiante.

Lá não existe competição entre as mulheres. Quando chega alguém com problema de autoestima, insegurança, a gente se ajuda". - Ana Paula Gimenes, 26.

"Eu percebi que a gente se olha no espelho, mas não se enxerga, não se encara.​​​​​​"

Vivian Jordão

"Fui diagnosticada com TAG – Transtorno de Ansiedade Generalizada. Tomava remédio e fazia terapia. Com o pole, aprendi a respirar e a ter calma para fazer os movimentos. Sou outra pessoa. A partir do momento que você entra naquela sala, você tem que estar 100% ali. Continuo ansiosa, porque não é uma coisa que acaba, mas com certeza foi o melhor tratamento que eu fiz.

Sou super alta e via as meninas maravilhosas fazendo aquilo e pensava que eu iria ficar horrível tentando fazer também. Eu achava que era para garotas mais bonitas, que tinham mais corpo, que ficavam bem de salto. Eu nunca me encaixei nesse padrão de corpo, de sensualidade.

O meu preconceito era enxergar a mulher como um ser apenas sexual. Eu achava que aquilo era feito para agradar o homem ou outras pessoas. A partir do momento que eu fiz a primeira aula, aquilo mudou completamente a minha cabeça. Eu me identifiquei como um ser sensual e sexual. Eu não estava fazendo aquilo para agradar ninguém, e sim para agradar a mim.

Eu percebi que a gente se olha no espelho, mas não se enxerga, não se encara. Eu me encaro durante uma hora, com roupas curtas. Vejo minhas limitações e minhas facilidades. Minha cabeça mudou completamente com relação à minha imagem. Agora eu não estou nem aí. Eu acho as minhas linhas lindas. Hoje eu me vejo.

Já me perguntaram se eu tinha mudado de profissão, se eu estava fazendo programa. Meu pai é super machista. Quando falei para ele que estava fazendo pole dance, ele não gostou. Quando ele falava com as pessoas, ele comentava que eu estava fazendo ginástica olímpica. Aí, ele começou a me seguir no Instagram. No natal, comentaram que eu estava forte, então ele disse "é muito legal essa dança que ela faz". Foi a primeira vez que ele se referiu à dança. Ele pegou o celular dele e mostrou um vídeo meu dançando e falou "esse foi o vídeo que eu mais gostei". Foi lindo!

Sororidade é uma coisa linda, muito forte. Cria-se um laço entre as mulheres que fazem pole dance. Posso fazer aula com um monte de menina que eu não conheço, mas a gente se apoia, a gente se ajuda. A gente consegue ver a beleza onde a amiga não consegue ver. A gente enxerga qualidades e incentiva uma à outra. Ali não tem julgamento. Vagabunda é uma palavra que sumiu do meu vocabulário". - Patrícia Menezes, 36.

"Eu me achava horrível. Cheia de celulite. Achava que ninguém iria gostar do meu corpo.​​​​​"

Vivian Jordão

"Comecei a namorar aos dezessete anos e casei com ele. Aos vinte e cinco, eu descobri uma traição. Entrei em depressão. Quase perdi meu emprego. Não comia, emagreci 8kg. Fiquei muito magra. Não tinha vontade de levantar da cama. Comecei a fazer terapia e não resolveu.

Joguei no google "dança diferente" e apareceu pole dance nos resultados. Pensei "que coisa de puta, não vou fazer". Aí uma amiga comentou que conhecia alguém que fazia. Então decidi testar. Na hora que eu vi a professora dançando, pensei "quero ser esse mulherão da porra".

No dia do meu divórcio, eu não sabia o que fazer, não sabia para onde ir. Fui direto para o estúdio de pole. Eu não sabia quem eu era de verdade. Gostava das coisas que ele gostava, vivia a vida que ele vivia. E nesse processo todo, eu comecei a me olhar. Recuperar minha identidade.

O pole é muito mais do que uma dança. Era a única atividade física que eu conseguia me concentrar 100% e tirar da minha mente os pensamentos ruins que eu tinha de acabar com a minha vida, de não querer mais trabalhar, de não querer mais fazer nada. Eu não tinha vontade de comer, por causa da depressão, mas eu precisava ter força para fazer as aulas, então comecei a comer melhor. Meu desempenho e minha concentração melhoraram no trabalho.

Eu me achava horrível. Cheia de celulite. Achava que ninguém iria gostar do meu corpo. Não gostava da minha imagem. Eu nem conhecia direito a minha imagem. Passei a me enxergar no pole, porque eu tinha que ficar uma hora olhando naquele espelho gigante. Comecei a gostar muito mais do meu corpo.

Me sentia presa a um padrão imposto pela sociedade de um relacionamento idealizado e o pole me ajudou a perceber que não era o que eu queria para mim, era o que as pessoas queriam para mim. Depois do pole, comecei a me vestir do jeito que eu quero. Consegui me libertar para assumir as minhas escolhas e ir contra quem tiver que ir. O pole, para mim, foi a permissão para gostar de mim como eu sou. É uma meditação, onde eu consigo esvaziar minha mente e estar completamente no momento presente". - Nátaly Bonato, 28.

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