COMPORTAMENTO

Tudo que você sempre quis saber sobre terapia e análise pela internet

Conversamos com pacientes, psicólogos e psicanalistas para esclarecer dúvidas sobre o uso da tecnologia digital em atendimentos clínicos.

29/09/2017 12:49 -03 | Atualizado 03/10/2017 11:28 -03
sasun1990 via Getty Images
Como humanos, ainda estamos nos adaptando às tecnologias disponíveis e ajustando nossas formas de estar e de interagir no mundo.

"Quando vim morar na Cidade do México, em 2015, interrompi a terapia presencial que fazia em São Paulo. Meu espanhol era meio capenga e decidi que não queria fazer terapia em outro idioma. Aí minha terapeuta de São Paulo sugeriu fazermos os atendimentos via Whatsapp. Fazemos semanalmente até hoje, só com voz, e funciona super bem. É diferente da terapia presencial, mas foi uma escolha. A vantagem é que posso fazer em qualquer lugar – no trabalho, na rua, em um café, na hora do almoço. O horário é fixo. A desvantagem é que sou muito dispersa, então às vezes perco os fios da meada. Mas não vejo muita mudança no processo da terapia." - Bruna Rocha, 30 anos, produtora audiovisual.

"Fazia terapia presencial por pouco mais de um ano, em São Paulo, quando minha terapeuta precisou se mudar para o interior do Estado. Decidimos tentar fazer pelo Skype, mas não deu certo, por causa da distância, do fato de não ser presencial e de não ter o olho no olho, por mais que fosse vídeo. O afeto e a confiança continuaram, mas o abraço, o acolhimento, é diferente. A tela de um computador não vai me acolher quando for preciso. Chegou a acontecer de eu ficar mal e ela de lá, com uma cara de "poxa"... Enfim. Durou uns três meses com regularidade, mas depois fui me desapegando e os atendimentos foram acontecendo de vez em quando. Ficou assim por uns oito meses, até eu parar de vez. Procurei outra terapeuta e não gostei tanto dela. No fim de 2016 tentei uma outra, com quem estou até hoje. Ela tem uma abordagem corporal que eu valorizo muito, e o Skype não 'dá conta' dessa questão do corpo." - Vivian Martins, 29 anos, arte educadora e arteterapeuta.

Por centenas de anos, o imaginário popular sobre uma terapia ou uma análise envolveu um divã, uma poltrona confortável, um relógio na parede, uma sala de espera e um profissional para quem se confidencia aquilo que nem mesmo a consciência aguenta.

Os tempos mudaram dramaticamente e hoje o imaginário visualiza uma outra cena possível, com terapeuta e paciente conectados por um computador ou um celular.

Essa realidade ainda está em construção, porém. Como humanos, ainda estamos nos adaptando às tecnologias disponíveis e ajustando nossas formas de estar e de interagir no mundo. É por isso que essa matéria, na verdade, aborda quase tudo. Pois até mesmo a regulamentação sobre terapia na internet está sendo repensada, por meio de um grupo de trabalho formado por representantes do Conselho Federal e dos Conselhos Regionais de Psicologia.

Cuidar da saúde mental é o tipo de hábito que deveria ser tão valorizado quanto lavar as mãos antes da refeição, mas não é o que ocorre no dia a dia. Uma pesquisa do instituto Market Analysis, divulgada com exclusividade ao HuffPost Brasil em 2016, revelou que apenas 2% dos adultos dos principais centros urbanos do Brasil fazem psicoterapia. É o mesmo resultado verificado em 2002, quando a primeira medição foi realizada. Porém, 30% das pessoas consultadas admitem que têm muito interesse em fazer terapia, o que mostra um distanciamento entre a vontade e a concretização, seja por questões financeiras, pelas dúvidas quanto ao profissional ou pelo tabu que ainda persiste neste assunto. Basta pensar na dificuldade de se encontrar empatia para uma depressão, ou para um estado de angústia insuportável.

Justamente por ser algo tão imprescindível é que a saúde mental deve ser cuidada com muita responsabilidade, tanto pelos profissionais quanto pelos pacientes. Terapias e análises feitas pela internet não são unanimidade entre os envolvidos e ainda não possuem regulamentações específicas, mas há uma rica discussão em torno desta nova via para tratar o sofrimento. A seguir, algumas das principais dúvidas são esclarecidas – e debatidas - por quatro profissionais da área.

Terapia na internet está liberada para todo mundo?

As regras para os atendimentos realizados por meios digitais são definidas por uma resolução do CFP (Conselho Federal de Psicologia), mas elas se restringem à orientação psicológica. "Os serviços psicológicos online podem acontecer em situações pontuais, em caráter de orientação psicológica, não ultrapassando 20 sessões. Também podem ser oferecidos em situações eventuais quando o cliente atendido está em trânsito ou se encontra impossibilitado de comparecer ao atendimento presencial", explica ao HuffPost Brasil a representante do CFP Rosane Granzotto, psicóloga clínica e gestalt-terapeuta.

A terapia online não está regulamentada, esclarece Granzotto. "A resolução vigente apenas autoriza esse tipo de atendimento em caráter experimental". Ela explica que a resolução de 2012 está sendo reformulada e atualizada por um grupo de trabalho formado por representantes do Conselho Federal e Conselhos Regionais de Psicologia, psicólogas e psicólogos de todas as regiões do país, "buscando atender e regulamentar o que já vem acontecendo em termos da oferta destes serviços".

Há, portanto, uma distinção entre a orientação psicológica e a psicoterapia, detalhada por Granzotto. A orientação psicológica é uma intervenção pontual, focada em uma queixa específica do paciente, com um número reduzido de sessões. Seu objetivo é dar suporte ao sujeito, ajudando-o a entender a questão em foco, informando e auxiliando na busca de alternativas possíveis para o problema.

Já a psicoterapia é um processo mais amplo de desenvolvimento pessoal, de autoconhecimento e ressignificação existencial, Granzotto diferencia. "O psicoterapeuta estará atento aos sintomas, aos comportamentos repetitivos e aos afetos presentes na relação, que aparecem no corpo e na linguagem. Por ser um processo mais abrangente e profundo, necessita de mais tempo e não tem prazo pré-definido para terminar."

Em que situações a orientação psicológica online é recomendada?

Como vimos acima, a orientação psicológica deve ocorrer apenas em situações temporárias e de exceção. "A população que não pode se deslocar para os consultórios presenciais tem sido muito beneficiada, uma vez que o atendimento não teria sido possível de outra maneira", explica ao HuffPost Brasil a psicanalista e professora Cláudia Catão Alves Siqueira, doutora em Psicologia Clínica e afiliada à Associação Americana de Psicologia.

Ela cita como exemplos adultos com deficiência física, pacientes com neoplasias ou outras doenças em fase terminal, população prisional, trabalhadores de plataformas de petróleo, gestantes de alto risco, brasileiros que residem no exterior, pessoas que se mudam constantemente devido ao trabalho e pessoas que residem em pequenos centros onde não há psicoterapeutas. Para Siqueira, a possibilidade de escolher um profissional especialista em algum campo específico de conhecimento que não resida na mesma cidade do paciente também tem sido um ponto favorável.

Segundo ela, o primeiro benefício da orientação psicológica online é a ampliação do acesso da população aos cuidados com a saúde mental. "Essa crescente presença de profissionais que passam a oferecer também atendimentos online tem potencial para contribuir com a redução do preconceito existente em relação às psicoterapias."

Porém, a ausência de critérios por parte dos profissionais durante a seleção de pacientes para a terapia online tem sido apontada como fator de descrédito para essa modalidade, destaca Siqueira. "Não são raros os relatos de atendimentos de pacientes que residem no mesmo bairro do profissional e que não possuem nenhuma restrição de locomoção. Profissionais têm deixado a cargo do paciente decidir como quer ser atendido e muitos dos pacientes, apenas por comodidade, estão sendo atendidos pela internet."

Pode atender por Skype e Whatsapp?

A regulamentação sobre orientação psicológica em vigor não especifica as plataformas digitais que podem ser utilizadas no atendimento, mas exige que o(a) psicólogo especifique ao cliente os recursos tecnológicos que vai usar e cadastre a plataforma no Conselho Regional de Psicologia (CRP) ao qual está inscrito. Segundo Granzotto, hoje existem 1.048 sites cadastrados nos CRPs de todo o Brasil.

A popularidade de aplicativos como o Whatsapp e o dinamismo dos recursos tecnológicos também demandam atualização da regulamentação disponível, informa Granzotto. "O objetivo é tornar a resolução mais abrangente e adequada à realidade atual, sempre tendo como foco a proteção da população usuária dos serviços e a orientação aos profissionais da Psicologia."

Durante o doutorado pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP), a psicanalista e professora Cláudia Catão Alves Siqueira criou o Consultório Virtual Seguro para realizar atendimentos clínicos pela internet. O sistema, desenvolvido pelo engenheiro Marcelo Russo, possui videoconferência com alta definição de imagem e alta qualidade de som. A plataforma é utilizada pelos profissionais da Casa dos Insights, iniciativa de Catão e Russo voltada para atendimentos mediados por tecnologia e capacitação profissional para psicólogos e psicanalistas interessados neste tipo de prática clínica. "Faço essa distinção entre a videoconferência e plataformas como o Skype porque a percepção do paciente sobre a confiabilidade e qualidade do atendimento recebido apresenta uma clara dependência da qualidade de som e da imagem experimentados na videoconferência", ressalta Siqueira.

Como fica a questão do sigilo?

Pela regulamentação, o psicólogo ou psicóloga deve especificar aos clientes os recursos tecnológicos que usará para garantir o sigilo das informações compartilhadas. Na terapia presencial, há um controle mais efetivo sobre essas questões, explica Granzotto. E manter a privacidade dos dados do paciente é uma dificuldade para os profissionais, identifica Catão.

"Todo serviço realizado pela internet possui desafios em relação à segurança. O profissional que realiza atendimentos pela internet precisa ter conhecimentos específicos sobre criptografia e proteção de dados. É imprescindível que utilizemos plataformas seguras exclusivas para a prática de serviços de saúde, sob pena de ter que indenizar seus pacientes por danos cíveis e morais segundo o Marco Civil da Internet."

De acordo com Catão, o Consultório Virtual Seguro, utilizado pela Casa dos Insights, obedece a todas os critérios de segurança da lei da Portabilidade e Responsabilidade de Seguros de Saúde (HIPAA) e da lei de Tecnologia de Informação para Saúde Econômica e Clínica (HITECH). A capacitação de profissionais para o atendimento por videoconferência é oferecida desde 2015, com carga horária de 160 horas. Nos módulos de prática, os alunos treinam os atendimentos clínicos no Consultório Virtual Seguro.

Além das garantias de sigilo do meio tecnológico usado, o paciente deve estar atento a outros aspectos de segurança, acrescenta Granzotto, como conferir se o serviço tem o selo do CFP e se os profissionais têm registro válido no respectivo CRP.

É muito diferente de um atendimento presencial?

A questão corporal foi apontada como a principal evidência das diferenças. "O tratamento presencial favorece a formação de vínculo, condição essencial para que um processo terapêutico se estabeleça. Ele preserva a expressão facial, o tom de voz, a velocidade da fala, expressão e posição corporais, as hesitações, agitações e outros fatores que podem vir a ser importantes em um atendimento psicológico", enumera Granzotto.

Em casos de desamparo do paciente, a presença física do psicólogo nos momentos mais delicados, emocionais e de sofrimento do faz com que haja a possibilidade de acolhimento mais adequado a essas situações, acrescenta a porta-voz do CFP.

A perda do contato presencial é uma desvantagem essencial da terapia online, frisa Catão. "O campo de observação do psicoterapeuta é menor quando comparado às psicoterapias presenciais." Caso um paciente possua alguma deficiência, ela só será conhecida se o profissional tiver o cuidado de perguntar sobre isso, pois não é possível vê-lo se locomovendo. E se o paciente optar por não relatar, o profissional não terá ciência dessa limitação. "Por isso, sempre falo nas minhas aulas: 'Psicoterapia presencial é diferente de psicoterapia online'."

A mesma diferenciação ocorre com a psicanálise, cujos métodos são próprios e distintos de um tratamento psicológico (veja algumas diferenças aqui). "A psicanálise presencial é diferente da psicanálise mediada por tecnologias. Devido à natureza singular do nosso trabalho analítico, os critérios de seleção dos pacientes e a qualificação dos profissionais precisam ser ainda mais rigorosos. Além disso, a qualidade técnica da ferramenta de videoconferência e a capacidade do sistema de transmissão de se manter estável e sem flutuações são cruciais nesse tipo de atendimento", destaca Catão.

"O trajeto ao consultório, a sala de espera - tem insights que a gente tem ao esperar o analista que são mais importantes do que a própria sessão! -, o modo de o analista se vestir, o tom de voz e o jeito de falar fazem parte de uma análise", observa ao HuffPost Brasil Ana Suy Sesarino Kuss, psicanalista, professora de Psicanálise e doutoranda em pesquisa e clínica em psicanálise pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

Como lidar com atrasos e faltas?

Para Catão, o psicoterapeuta precisa propor uma situação semelhante à terapia presencial, com um ambiente desenhado para esse fim. Por isso, o Consultório Virtual Seguro possui uma sala de espera virtual personalizada, onde o paciente aguarda o profissional. O sistema avisa por mensagem de texto e e-mail quando o paciente entrou na sala de espera. Só o profissional tem o controle do início e do término da sessão e apenas ele agenda as sessões e altera o dia e o horário. "Quando tudo está no seu devido lugar, o paciente também se engaja em cumprir os horários e seguir as orientações a ele solicitadas sobre o sigilo e local adequado para a realização da sessão."

Por que a terapia ou a análise por internet não são uma unanimidade?

Catão considera que a objeção de psicólogos e psicanalistas à prática clínica via internet ocorra por vários motivos, desde rejeição a tudo que seja novo e tecnológico ao desconhecimento da literatura científica existente. Mas ela enfatiza que essa resistência surge também da maneira como os atendimentos pela internet estão sendo oferecidos, "de forma desorganizada e sem segurança, pelo Skype, Facetime e Whatsapp. As sessões muitas vezes são descritas pelos pacientes atendidos como de qualidade duvidosa, uma vez que falta o preparo técnico e teórico-clínico dos profissionais para essa modalidade."

Ana Suy frisa que é preciso ter muito cuidado com a escolha do profissional. "Não dá pra escolher aquele que é mais perto ou aquele que cobra menos pela sessão. A psicanálise é um processo tão singular que até mesmo o preço por uma sessão é definido de maneira particular para cada paciente. A lógica capitalista, com a qual estamos acostumados, serve para decidirmos quanto vamos pagar no aluguel, para a escolha de uma roupa, mas não para a escolha de um analista.", argumenta.

E acrescenta:

"Como é que a gente escolhe um analista? É porque o ouve ou o lê dizendo algo que nos toca profundamente, ou porque foi recomendado por uma pessoa em quem confiamos. Mas ir a um analista é uma coisa, fazer um processo de análise é outra! Ficamos em análise porque há algo no jeito de ser do analista que nos interessa."

Para ela, a análise online não parece possível. Suy explica que já teve pedidos feitos por pessoas que moram longe, mas nunca passou pela experiência de um atendimento assim. "Concordo que é preciso que um analista se reinvente. Lacan disse que um analista precisa estar à altura de seu tempo e acho isso fundamental, como acompanhar a tecnologia e pensar os modos contemporâneos de sofrimento. Mas, a meu ver, é preciso que algo em nós faça resistência a esse modo atual de laço, assim, tão líquido, como dizia Zygmunt Bauman."

Suy faz uma ressalva, porém, quanto aos motivos de cada paciente. "Antes de tudo, acho que a primeira pergunta a fazer seria: por que alguém deseja fazer análise pela internet? Essa pessoa mora em um lugar distante dos grandes centros, onde não há um analista? Ela está em um país onde não domina a língua? Ela está querendo economizar tempo, dinheiro, algo assim?"

Ela afirma que essa contextualização é fundamental. "Porque uma coisa é alguém querer iniciar uma análise e não ter um analista que possa frequentar; outra coisa é pensar que quer fazer uma análise, mas não querer 'pagar o preço' disso. E aqui eu uso aspas porque falo de todo o preço que se paga ao fazer um tratamento. Perde-se tempo, perde-se dinheiro, perde-se sofrimento também. Uma analise é um processo de ressignificação das perdas que se tem. Escolher o que ganhar é escolher o que perder."

"Mas a psicanálise está articulada à cultura; é uma experiência, uma ética e está viva. Talvez a análise online seja uma prática comum algum dia. Por ora, o que sei é que é preciso ter cuidado com as ofertas que aparecem por aí."

Psicanalista membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SBP), Any Waisbich atendeu pacientes que se transferiram, por um curto período, para outro país e que continuaram suas análises pela internet. Atualmente ela atende um paciente de São Paulo com impossibilidade momentânea de locomoção. "Trabalhos, estudos, mudanças de países e cidades deslocam pacientes, e novas abordagens de atendimento devem ser pensadas", explica ao HuffPost Brasil.

Waisbich considera ser uma oportunidade de psicanalistas como ela desenvolverem novas formas de atendimento sem abrir mão da essência do que é o método psicanalítico. "O que torna a psicanálise única não é a sala de atendimento, nem a poltrona e o divã. O que a torna singular é seu trabalho, a interpretação do analista, porque ressignifica as falas do paciente e possibilita novos percursos", ressalta.

"Freud atendia caminhando pelas montanhas, por curtos períodos de tempo e não saía do foco principal, que era entender seus pacientes e o que ocorria nas sessões. Ele ousava e repensava sua ciência, não a tratava como uma crença. Porque não podemos repensá-la com novos paradigmas sem alterá-la na sua especificidade?"

Como cada atendimento é único, pensar novas configurações para a prática analítica é fundamental, diz Waisbich. "Todos perdemos e ganhamos com esta nova forma de atendimento. Não há nada como como o encontro presencial, uma conversa na intimidade de uma sala de análise."

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