MULHERES

Quando a pessoa que critica você por escolher pelo aborto é uma criança

Como o movimento antiaborto usa crianças e adolescentes para legitimar sua mensagem nos Estados Unidos.

29/09/2017 13:01 -03 | Atualizado 29/09/2017 13:18 -03
Jenavieve Hatch/HUFFPOST
Crianças dão os braços diante de um centro de saúde para mulheres em Charlotte, na Carolina do Norte (EUA), para protestar contra o acesso ao aborto legal.

Annie* tinha apenas 8 anos quando seus pais, fiéis da igreja Batista Sulina, começaram a levá-la a protestos diante de clínicas de aborto no sul da Califórnia. Ela participou de passeatas antiaborto, ergueu cartazes diante de clínicas e trabalhou como voluntária em CPCs – "centros de crise de gravidez", ONGs que aconselham mulheres a não fazer abortos.

Agora, aos 29 anos, Annie olha para trás e reflete que gostaria que seus pais não a tivessem pressionado a participar ativamente de uma causa que ela não compreendia muito bem na época. Ela disse ao HuffPost: "Sei que em algum lugar há uma foto minha, criança, segurando um cartaz que diz 'Você me mataria, também?'."

"Pelo fato de ser forçada a protestar quando eu era tão pequena, gritei palavras de ordem em defesa de uma questão que eu não entendia, e lamento profundamente a mágoa ou ofensa que provavelmente provoquei", disse Annie. "Me lembro de ver mulheres entrando na clínica, passando ao meu lado e chorando quando me viam."

Annie está longe de ser a única pessoa que viveu essa experiência de ser criança participante no movimento antiaborto (mas não sabemos se outros sentem a mesma coisa em relação ao que viveram). Em toda parte dos Estados Unidos, crianças e adolescentes acordam cedo nas manhãs de sábado e são levadas a clínicas de aborto locais para protestar ao lado de seus pais. Elas oram, cantam, distribuem folhetos, decoram calçadas com giz, seguram cartazes ou placas.

Transmitir suas crenças religiosas e posições políticas aos filhos é uma parte natural da criação, mas muitos pacientes, acompanhantes e clínicas de aborto com quem o HuffPost conversou questionam o papel que crianças e adolescentes são pressionadas a exercer no movimento de combate ao aborto, em especial, nos Estados Unidos.

Enquanto líderes do movimento antiaborto enxergam as crianças como parte integral de sua estratégia de protesto, líderes do movimento em favor do direito ao aborto acham que esses adolescentes e crianças são usados como joguetes para assediar mulheres que estão tomando decisões de natureza íntima sobre sua própria saúde.

Jean-Marc Giboux via Getty Images
Um protesto em Chicago, Illinois, em 1996, durante a Convenção Nacional do Partido Democrata.

Não é de hoje que o movimento contra o direito ao aborto utiliza imagens de crianças em seus materiais e cartazes de divulgação. Os manifestantes antiaborto às vezes carregavam cartazes com o rosto de um bebê ou uma criancinha e dizeres do tipo "Você ia querer me matar também?". Muitos voluntários distribuem folhetos diante das clínicas de aborto com fotos de famílias felizes ou crianças sorridentes.

HuffPost
Página de um folheto da organização de combate ao aborto Human Life.

Mas o papel exercido por crianças e adolescentes não se limita a aparecer em cartazes. Adolescentes lideram orações ou participam de orações em grupo comandadas por líderes religiosos, repetem slogans antiaborto em megafones ou microfones e distribuem folhetos e outros materiais em "centros de crise de gravidez".

Talvez não exista melhor exemplo de como o movimento antiaborto faz uso de crianças que a Marcha de Jovens pela Vida promovida recentemente em Charlotte, Carolina do Norte, diante do centro de saúde especializado em cuidados da mulher chamado A Preferred Women's Health Center (APWHC), uma das maiores organizações presentes no sul dos Estados Unidos que realiza abortos legais.

A "Love Life Charlotte", um conglomerado de igrejas na região de Charlotte que se formou para protestar contra o acesso ao aborto, ganhou autorização da prefeitura para promover sua Marcha de Jovens pela Vida, uma passeata que percorreu a cidade. Segundo a organização, 40 igrejas levaram ônibus cheios de crianças e adolescentes de todas as idades para marchar diante da clínica de abortos.

Justin Reeder, fundador da Love Life Charlotte, disse ao HuffPost que o evento foi uma oportunidade para os adolescentes membros das igrejas "de ver que ser pró-vida [como são descritos os adversários do direito ao aborto] não é apenas ser contra o aborto, mas também oferecer amor e vida às pessoas que pensam que o aborto é sua única opção".

"Enquanto nossa nação se torna cada vez mais pró-vida [uma pesquisa Gallup recente indicou que hoje 49% dos americanos se identificam como 'pró-escolha', ou a favor do direito ao aborto, enquanto 46% se identificam como 'pró-vida'], é importante que os jovens vejam quanto amor e vida a Igreja pode levar àqueles que pensam que o aborto é sua única opção", disse Reeder. "Os adolescentes não apenas se comunicam com as pessoas, como rezam pedindo que Deus leve amor e vida a mães que se sentem tão sozinhas e assustadas."

A passeata de jovens atraiu perto de mil participantes, segundo a Love Life Charlotte. As pacientes e os acompanhantes de pacientes com quem o HuffPost conversou disseram que o grande número de pessoas se manifestando diante da clínica, somado ao barulho que faziam, provocou angústia e aflição na maioria dos funcionários e pacientes. Duas voluntárias que acompanhavam pacientes ficaram tão perturbadas com o grande número de crianças que participavam da manifestação que foram embora chorando.

Reeder disse que a finalidade da marcha não foi "comunicar-se" com pacientes da clínica, mas o protesto afetou profundamente as consultas. Os participantes na passeata não tocaram nas pacientes, mas se dirigiram a elas fisicamente em vários momentos.

Em um momento, uma jovem de 17 anos do Love Life Charlotte chorou ao microfone, suplicando a mulheres que ela chamava de "Mamãe" para não assassinarem seus bebês. Um grupinho de adolescentes tocava música ao vivo nos microfones, de modo que as canções podiam ser ouvidas no interior da clínica.

O centro APWHC fica no final da Latrobe Drive, uma avenida larga de duas pistas ocupada por vários estabelecimentos comerciais locais. Como a Love Life Charlotte tinha autorização para sua marcha, ela pôde fechar uma das pistas, atrapalhando o trânsito na via.

Policiais da cidade estavam presentes para direcionar o trânsito e garantir que todos os presentes respeitassem as normas: o Love Life Charlotte, outros grupos antiaborto e os contramanifestantes da organização Pro Choice Charlotte.

Calla Hales, a administradora clínica do APWHC, há muito tempo vê com ceticismo a presença policial neste tipo de protesto, especialmente após um incidente este ano em que policiais foram vistos entretendo crianças pequenas do Love Life Charlotte enquanto os pais delas oravam e protestavam diante do APWHC.

(O HuffPost pediu declarações à polícia de Charlotte sobre esse incidente, mas não teve resposta em tempo para inserir na reportagem.)

(O momento em que a polícia resolve operar uma creche e deixar que os filhos de manifestantes fiquem em suas SUVs com ar condicionado enquanto eles assediam pacientes.)

Preparando-se para a marcha de jovens, Hales mandou seus funcionários distribuírem questionários confidenciais para as pacientes preencherem depois de entrarem na clínica. E, com isso, a simples entrada na clínica envolvia não apenas superar o obstáculo da passeata de crianças orando e cantando contra as pacientes, mas também encarar a presença habitual de manifestantes agressivos e dos três centros ambulantes antiaborto e suas enfermeiras, que frequentemente tentam desviar pacientes que chegam à clínica de aborto.

Das 22 pacientes ou acompanhantes de pacientes que preencheram os questionários, aos quais o HuffPost teve acesso, 12 disseram que a presença de grande número de pessoas na rua diante da clínica as levou a cogitar em desistir de suas consultas, que tinham sido marcadas com dificuldade.

Uma mulher escreveu: "Fiquei morrendo de medo daqueles manifestantes". Outra pessoa, que acompanhava uma paciente, comentou: "Eu não devia ter que ver minha amiga ser humilhada, criticada e atacada emocionalmente por uma das escolhas pessoais mais difíceis que ela já fez na vida".

"Gritaram em direção ao meu carro, deixaram minha amiga constrangida e aflita", escreveu outra acompanhante de paciente. "Uma música ridiculamente alta, tão alta que a gente a ouvia dentro da clínica. Uma coisa muito perturbadora."

Uma mulher, que acompanhara sua filha à clínica, se queixou no questionário de feedback que, quando descia a Latrobe Drive para chegar à clínica, manifestantes antiaborto a mandaram estacionar muito longe de onde ela deveria estacionar – "porque sou deficiente física".

Portland Press Herald via Getty Images
Adolescentes protestam na neve diante da clínica da organização Planned Parenthood em Portland, no Maine, em fevereiro.

A marcha de jovens da Love Life Charlotte foi um exemplo extremo de protesto antiaborto com participação de crianças, mas em todo o país crianças participam desses protestos por determinação de seus pais e dos grupos religiosos aos quais seus pais pertencem. Segundo pacientes e funcionários de clínicas que conversaram com o HuffPost, essa participação às vezes não se limita à simples presença em um protesto, mas vira assédio.

Uma acompanhante voluntária de pacientes em Atlanta, Karen, contou ao HuffPost que desde a eleição de 2016 tem observado o aumento desse tipo de assédio nas clínicas onde é voluntária.

"Desde a eleição, temos visto um grupo da organização Abolish Human Abortion (Abolir o Aborto Humano, ou AHA) que sempre traz pelo menos uma menininha para participar dos protestos, segurando cartazes gigantes e falando no megafone", disse Karen. "A garotinha lê trechos da Bíblia ou de um roteiro da AHA. Fica claro que as meninas não entendem realmente o que estão lendo."

Karen recordou um incidente em que uma dessas garotinhas olhou para ela e a chamou de "malévola".

"Olhando direto para mim, olho no olho, ela me perguntou: 'Por que você está fazendo isso? Por que você quer ganhar dinheiro, assassinando bebês? Você sabia que é má? Sabia que você vai arder nas chamas do inferno?'", contou Karen ao HuffPost. "É assustador ver uma criança pequena ser manipulada dessa maneira. Já vi bebês sendo levados aos protestos e criancinhas de 2 ou 3 anos sendo levadas pelo grupo AHA, como 'acessórios'."

No Estado do Michigan, na clínica Northland Family Planning, um manifestante contra o aborto, Elvis Kesto, sempre leva seu filhinho de cerca de 2 anos para participar de protestos, com um cartaz dizendo "Bebês são assassinados aqui". Kesto posta fotos disso frequentemente em sua página no Facebook.

Jessica James, que é acompanhante de pacientes na Northland Family Planning, argumenta que obrigar crianças a participar da discussão sobre o aborto diante de clínicas é "quase uma violência religiosa e emocional".

"O problema, a meu ver, são os efeitos de longo prazo de algo que, para mim, é uma violência religiosa e emocional cometida contra uma criança que não tem escolha nesse assunto", disse Gird, que estuda para ser assistente social, falando ao HuffPost.

Facebook
Diante da clínica Planned Parenthood em Columbus, Ohio, duas meninas pequenas escrevem mensagens com giz na calçada.

("Vocês estão assassinando criancinhas??? Vocês não se importam? Vocês são maus.")

Steven Meyers, psicólogo clínico e professor de psicologia na Universidade Roosevelt, em Chicago, disse ao HuffPost que crianças tão pequenas "têm capacidade limitada de enxergar as coisas sob outras óticas, de modo que têm dificuldade em entender o que outras pessoas vivenciam".

"Suas habilidades cognitivas ainda emergentes significam que elas não compreendem a complexidade das questões e que provavelmente enxergam os fatos em preto e branco. A etapa de desenvolvimento moral em que elas se encontram envolve principalmente agradar a seus pais e evitar castigos, e não a capacidade de avaliar decisões abstratas ou complicadas."

Em outras palavras, devido a seu desejo inato de agradar a seus pais, os filhos de manifestantes antiaborto seguem o exemplo de seu pai e sua mãe, independentemente das consequências emocionais que isso terá sobre pacientes.

É claro que pais que estão em todos os pontos do espectro político incentivam seus filhos a participar de debates políticos. Havia muitas crianças na Marcha das Mulheres em Washington no dia após a posse do presidente Donald Trump, e muitas de suas fotos e de seus cartazes viralizaram.

Meyers enxerga uma diferença nítida entre a Marcha das Mulheres – ou qualquer outra marcha em um espaço neutro – e os protestos antiaborto, que frequentemente incluem ações voltadas contra indivíduos diante de clínicas.

"A diferença principal entre a Marcha das Mulheres e os protestos aborto é a quantidade de conflito e emoções negativas às quais as crianças são expostas nestes eventos", ele comentou. "Passeatas pacíficas e ordeiras possuem a vantagem de permitir que os pais compartilhem seus valores com seus filhos de maneira construtiva. Manifestações com alto teor de conflito podem virar mais explosivas e potencialmente emocionalmente negativas para crianças."

Annie, cujas opiniões políticas mudaram desde a época em que ela segurava cartazes diante da clínica de aborto de seu bairro, concorda.

"Me lembro de ter ouvido falar de aborto pela primeira vez quando eu tinha 6 anos, acho, quando Bill Clinton foi eleito", ela contou ao HuffPost. "Meus pais falaram que era um crime, que Clinton queria matar bebês."

Ela disse que tem dificuldade em participar de manifestações políticas, porque isso traz de volta recordações incômodas.

"Tentei participar de um protesto contra Trump há pouco tempo e quase tive um ataque de pânico quando pessoas gritaram, porque isso me lembrou da dor que provavelmente provoquei em outras pessoas quando eu era criança", ela contou. "Hoje, sempre que vejo crianças em qualquer tipo de protesto político, sinto vontade de abraçá-las e escondê-las, mesmo que eu concorde com a ideia que estão transmitindo."

Depois do protesto da organização Jovens Pela Vida e mais de uma hora de passeata e orações no calor úmido do final do verão na Carolina do Norte, duas meninas da Love Life Charlotte desmaiaram.

Jenavieve Hatch/HUFFPOST
No sábado, uma adolescente que participa do Love Life Charlotte tenta ficar em pé depois de sofrer desidratação e exaustão pelo calor.

As duas adolescentes não conseguiram continuar de pé. Elas acabaram ficando bem, mas o restante do grupo Love Life Charlotte, incluindo Reeder, prosseguiu morro acima para encerrar a marcha, enquanto um punhado de adolescentes e dois adultos esperavam com as garotas.

Enquanto tudo isso estava acontecendo, um membro de outro grupo anti-escolha (ou seja, antiaborto), o Cities4Life, berrava orações ao microfone e pedia às mulheres que saíssem da clínica.

"O aborto é uma violência contra crianças", ele disse.

*O nome dos entrevistados para esta reportagem foram alterados para preservação de identidade.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

39 celebridades que se abriram sobre seus abortos espontâneos para dar apoio a outras mulheres