NOTÍCIAS

'A questão da nudez na arte é universal', diz curador do MAM sobre polêmica

Museu de Arte Moderna São Paulo foi criticado por interação de criança com uma exibição de nudez.

29/09/2017 17:10 -03 | Atualizado 02/10/2017 17:36 -03
Divulgação
O homem nu trata-se do artista carioca Wagner Schwartz e a obra era uma releitura da série Bicho, considerada um clássico da artista Lygia Clark.

Em uma sala, um homem está deitado no chão completamente nu. Uma criança, acompanhada de uma mulher adulta, se aproxima do corpo e começa a tocar os pés e a canela do homem. Ao redor, homens e mulheres observam a cena.

A descrição pertence à performance La Bête que inaugurou a Mostra Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. O homem nu trata-se do artista carioca Wagner Schwartz e a obra era uma releitura da série Bicho, considerada um clássico da artista brasileira Lygia Clark.

Mas a performance se transformou em um debate público.

Em um vídeo compartilhado na última quinta-feira (28) nas redes sociais, o museu foi acusado de pedofilia por parte de usuários que não consideraram positiva a exposição da criança à cena de nudez.

Para o curador do MAM Filipe Chaimovich, é posição do museu abrir o diálogo com a sociedade. "A compreensão do que é a arte, da história da arte, é parte da missão do museu. E para isso ser transmitido é preciso existir diálogo", explica em entrevista ao HuffPost Brasil.

Alavancadas por páginas do Facebook, como a do Movimento Brasil Livre (MBL), as críticas à performance consideraram a cena "contrária aos valores da sociedade brasileira". No Twitter, a hashtag #PedofiliaNaoEArte foi um dos assuntos mais comentados desta sexta-feira (29).

Em nota, o MAM esclareceu a repercussão. De acordo com o museu, a mulher que acompanhava a criança era a mãe dela. Ainda, a instalação possuía as devidas orientações sobre nudez.

"A sala estava devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a nudez artística, seguindo o procedimento regularmente adotado pela instituição de informar os visitantes quanto a temas sensíveis. O trabalho apresentado na ocasião não tem conteúdo erótico e trata-se de uma leitura interpretativa da obra Bicho, de Lygia Clark, historicamente reconhecida pelas suas proposições artísticas interativas."

Demian Grull presenciou a performance. Em entrevista ao O Globo, ele afirmou que não houve constrangimento em relação à participação da criança.

"Toda boa performance é surpreendente. Não percebi constrangimento, por ser uma criança. Primeiro, porque ela estava acompanhada da mãe, e a performance não tinha conotação sexual ou algo impróprio. Era apenas um corpo nu", compartilhou em entrevista ao jornal carioca.

Ao G1, o desembargador Antônio Carlos Malheiros, do Tribunal de Justiça, considerou "histeria coletiva" a classificação da performance como pedofilia. Malheiros, contudo, chama atenção para a importância de preservar integralmente as crianças de conteúdos inapropriados.

"Chamar qualquer episódio mais insinuante de 'pedofilia' virou uma histeria coletiva. Isso precisa ser afastado. Agora, de fato, a criança não poderia estar presente. Não considero pedofilia, mas é uma ação absolutamente inconveniente para uma criança. Ou seja, esse artista e a própria mãe da criança que estava com ela podem ser advertidos. Mas não vamos chegar ao exagero de achar que era um comando pedófilo", argumenta o desembargador.

O que é pedofilia, de acordo com a lei?

A pedofilia é classificada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um dos transtornos de preferência sexual. De acordo com o órgão, pedófilos são pessoas adultas, homens ou mulheres, que têm preferência sexual por crianças.

O código penal brasileiro considera crime a relação sexual ou qualquer ato de satisfação do desejo e apetite sexual praticado por um adulto com crianças ou adolescentes menores de 14 anos.

O artigo 241-B do Estatuto da Criança e do Adolescente, ainda, considera como crime "adquirir, possuir ou armazenar, por qualquer meio, fotografia, vídeo ou outra forma de registro que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente."

3 pontos para entender a posição do MAM

Filipe Chaimovich é curador e responsável pelo Museu de Arte Moderna. Em entrevista ao HuffPost Brasil, ele esclarece três questionamentos sobre o posicionamento do museu.

HuffPost Brasil: Quem define o que é um conteúdo apropriado para crianças em exposições do MAM?

Filipe Chaimovich: O nosso advogado sempre nos esclarece os tipos de advertências que devem ser colocadas de forma transparente para o público. Na entrada da sala tinha uma menção sobre a cena de nudez. Foi uma abertura pública como todas as outras e e politica do Museu fazer as inaugurações abertas a todos os públicos.

O museu já passou por algum caso que teve uma repercussão similar?

O MAM é uma instituição de cultura conhecida e reconhecida. A instituição sempre estará sujeita a ser alvo de reflexões.

Como o público brasileiro consome a nudez na arte?

A questão da nudez na arte é universal. Ela está presente em todos os museus. É parte inclusive do nosso patrimônio de arte pictórica. Temos pinturas com pelo menos 12 mil anos em que a nudez está presente. A nudez faz parte da história da arte.

O MAM vai proibir exibições como a performance 'La Bête'?

Não há nenhuma medida no sentido de proibição. O museu tem uma vocação pedagógica, é preciso esclarecer o público em casos que suscitem debate. É posição do museu abrir o diálogo com a sociedade. A compreensão do que é a arte, da história da arte, é parte da missão do museu. E para isso ser transmitido é preciso existir diálogo.

[Nu] Objeto: A nudez desconstruída