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O partido alemão AfD: Como interpretar a ascensão do populismo de direita

"A ascensão do AfD foi um choque para o sistema político alemão."

28/09/2017 08:00 -03 | Atualizado 28/09/2017 08:00 -03
EPA/Thorsten Wagner
Partidários do AfD festejam o anúncio dos resultados da boca de urna.

Por Daniel Hough

O partido Alternativa para a Alemanha (AfD), a força direitista em ascensão na política da Alemanha, será representado no Parlamento nacional pela primeira vez, depois de receber 12,6% dos votos na eleição de 2017.

O partido foi criado há apenas cinco anos e não passava de um recém-nascido quando a última eleição teve lugar, em 2013. Na época, recebeu 4,7% dos votos, pouco menos que os 5% necessários para conseguir uma representação no Parlamento federal.

Nos quatro anos passados desde então, o AfD se transformou. Antes, era liderado principalmente por professores universitários profundamente preocupados com o futuro do euro; hoje, porém, é um agrupamento amplo que reúne direitistas contrários ao governo atual. De fato, seu nome nasceu da frase hoje célebre de Angela Merkel, quando a chanceler disse que não havia alternativa às políticas instauradas por seu governo em um esforço para salvar o euro, no auge da crise financeira.

O AfD argumentou que havia alternativas, sim, e o partido nasceu para tentar ilustrar justamente quais seriam essas alternativas.

Sua transformação desde suas origens, focadas sobre o euro, vem sendo radical. À medida que a crise do euro foi perdendo importância, a popularidade do AfD diminuiu, e tudo indicava que o partido estava destinado a resvalar para a insignificância. Então aconteceu a enxurrada de refugiados que chegaram ao país em 2015 e 2016. A resposta do AfD à política de portas abertas de Merkel o tornou quase irreconhecível, comparado com o partido original fundado em abril de 2013 por Bernd Lucke e outros eurocéticos.

Vozes diversas da direita

Uma das novidades é que hoje vários políticos do AfD empregam um discurso incendiário de um tipo nunca antes ouvido na Alemanha moderna. Em janeiro de 2016, Frauke Petry, provavelmente a figura mais conhecida do partido, afirmou que existem situações em que as autoridades de fronteira alemãs poderiam legitimamente disparar contra refugiados que estivessem tentando transpor a fronteira.

Há também outros nomes, como Bjoern Hoecke, que querem relativizar o passado da Alemanha, assim como muitos que são fortemente antimuçulmanos. Mesmo assim, a oposição à política de Angela Merkel em relação aos refugiados continua a ser a força dinamizadora que garante a coesão do AfD. Nesse sentido, o AfD guarda semelhanças com a Frente Nacional francesa e outros agrupamentos de extrema direita em toda a Europa.

EPA
Alexander Gauland e Alice Weidel, dois dos candidatos mais importantes do AfD, na noite da eleição.

Mas o AfD não se limita a ser anti-refugiados. Embora muitos dos eurocéticos que o fundaram tenham abandonado o partido há muito tempo, sua influência não se desfez por completo. Por exemplo, uma dos dois "candidatos líderes" do AfD na eleição de 2017 é Alice Weidel, lésbica de 38 anos que trabalhou para a empresa Goldman Sachs. Ela fala mandarim com fluência e passou seis anos na China escrevendo sua tese de doutorado sobre o sistema chinês de aposentadorias. Está longe de ser uma líder típica de um partido de extrema direita.

Um lugar à mesa política grande

Agora que será representado no Parlamento federal, o AfD terá que aprender a lidar com os desafios da vida política real no interior do Bundestag. O partido tem muitos representantes que têm muito a dizer, e não lhe faltam lideranças. No Bundestag, porém, ele precisará encontrar o que os alemães descrevem como "Sachpolitiker" – deputados capazes de dominar pautas detalhadas em comitês parlamentares. Precisará mostrar que é capaz de fazer política, e não apenas falar de política. Para um partido parlamentar que tem muito pouca experiência da vida no interior das instituições políticas, será um desafio.

A grande dúvida para o AfD é como será seu desempenho em 2021. Os partidos radicais às vezes se sentem entorpecidos com o mundo pragmático da política parlamentar. O AfD não tem chance de realmente exercer o poder – todos os outros partidos políticos alemães já declararam que não formariam uma coalizão com ele, mas seus políticos terão que demonstrar que conseguem desenvolver uma posição comum sobre toda uma série de questões políticas que até agora exerceram papéis insignificantes em seu desenvolvimento.

A ascensão do AfD foi um choque para o sistema político alemão. A maioria dos alemães se sente profundamente perturbada diante da ideia de um partido à direita da CDU (a União Democrata-Cristã) estar representada no Parlamento. Mas o maior desafio para o AfD ainda está por vir.

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