MULHERES

Elas arriscaram tudo para escapar da pobreza. Depois, tiveram de escapar do casamento forçado

Estas cambojanas receberam a promessa de uma vida melhor. Em vez disso, se tornaram 'objeto de penhora' no mercado de casamentos chinês.

26/09/2017 06:50 -03 | Atualizado 26/09/2017 13:05 -03
Cristina Maza/The WorldPost
Mona* e a irmã conseguiram sair da China, mas seus problemas não acabaram quando voltaram ao lar no Camboja.

KAMPONG CHAM, Camboja ― *Mona, de 16 anos, está sentada no chão da casa de madeira, de apenas um quarto, embalando sua filha de 3 meses. Enquanto a luz penetra pelas rachaduras de uma janela fechada, vários dos seis irmãos dela dormem em esteiras no chão espalhadas pelo quarto. Eles estão exaustos depois de passar a madrugada extraindo látex em uma plantação de seringueira próxima no sudeste do Camboja, a algumas horas da capital Phnom Penh.

À primeira vista, Mona se parece com qualquer outra jovem da zona rural do Camboja, passando o dia amamentando sua bebê e balançando-a em uma rede. Mas a história de como Mona se tornou mãe é diferente daquela da maioria das mães jovens no país. Na verdade, ela apenas soube que estava grávida depois de escapar da casa de seu marido chinês e buscar abrigo no consulado do Camboja, em Xangai.

Mona é uma das dezenas de mulheres cambojanas que são traficadas para a China e vendidas para casamento todos os anos. Levadas pela extrema pobreza dos vilarejos do Camboja e pela falta de oportunidades econômicas para mulheres, jovens são recrutadas para o crescente mercado de casamentos da China, onde mulheres são vendidas como gado.

Levadas pela falta de oportunidades econômicas para mulheres, jovens são recrutadas para o crescente mercado de casamentos da China, onde mulheres são vendidas como gado.

Embora não haja números oficiais sobre o total de mulheres cambojanas traficadas para a China e vendidas para casamento, grupos de direitos humanos calculam dezenas todos os anos — ou mais. Em 2014, o governo do Camboja registrou 58 casos de mulheres que foram repatriadas depois de escapar de situações como a de Mona na China, com um aumento para 85 casos em 2015. Provavelmente, muitos casos ainda são desconhecidos.

Em junho, o Departamento de Estado dos EUA rebaixou a classificação da China para crimes de tráfico de humanos, mesmo nível de Irã e Coreia do Norte. Depois de anos da política do filho único, agora há um número desigual de homens e mulheres na China. Homens solteiros procuram cada vez mais mulheres no exterior para se casar, muitas vezes incentivando uma noiva ou sua família com dinheiro. Embora noivas de vários países, especialmente dos mais próximos, tenham vindo para a China, o casamento forçado de mulheres cambojanas criou um problema de nicho. O Camboja é um mercado ideal para famílias chinesas de menor poder aquisitivo que buscam noivas para seus filhos. E, como as pessoas nas zonas rurais do país precisam desesperadamente de dinheiro, as mulheres podem ser "compradas" por preços competitivos.

Algumas mulheres, como Mona, são convencidas a aceitar um pagamento para se casar com um homem chinês com a promessa, geralmente falsa, de que seu novo esposo vai mandar dinheiro para suas famílias no Camboja. Outras, no entanto, são informadas de que conseguirão um emprego com um alto salário em uma fábrica chinesa, para então descobrir quando chegam na China que devem se casar com um homem desconhecido.

Em ambos os casos, as mulheres são empurradas para uma rede de tráfico humano complexa, que abrange múltiplas fronteiras. Mona e sua irmã mais velha, Theary*, que viajaram juntas antes de serem vendidas para diferentes famílias na China, passaram de "mão em mão" pelo menos uma dezena de vezes antes de chegar aos lares de seus novos maridos. Durante aproximadamente duas semanas de viagem, as garotas passaram por traficantes cambojanos, vietnamitas e chineses encarregados de transportá-las ao seu destino final.

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Cenas de um vilarejo em Kampong Speu, uma cidade ao oeste da capital do Camboja, onde várias garotas cambojanas foram recrutadas para ir à China.

"Meus pais são muito pobres e estavam endividados", diz Mona, lembrando os motivos que a levaram para os braços de um facilitador que se encarregou de sua jornada até a China. "Eu e minha irmã queríamos ajudar a família conseguindo empregos e ganhando dinheiro."

Por isso, as irmãs se mudaram para Phnom Penh, capital do Camboja, em busca de trabalho. Theary, que tinha 19 anos na época, conseguiu um trabalho como costureira em uma fábrica de roupas ganhando cerca de US$ 200 por mês (aproximadamente R$ 625 reais). Mas Mona, que mal tinha completado 15 anos e apenas havia terminado a quarta série, não tinha idade suficiente para trabalhar legalmente. Ao percorrer a cidade em busca de oportunidades de trabalho, uma mulher bem-vestida, de cerca de 30 anos, se aproximou.

"Ela me disse que eu nunca encontraria trabalho no Camboja porque era muito jovem e não tinha um carnê de identidade", explica Mona.

Pouco depois da primeira conversa, a mulher voltou ao bairro e propôs a ideia de uma viagem à China. Ela disse às irmãs que a vida na China era boa, que poderiam se casar com um homem rico e estar seguras. Mais importante ainda, prometeu que suas famílias receberiam dinheiro. Nunca receberam aquele dinheiro. E a vida não era melhor.

"Pensei que a mulher não me prejudicaria, porque também é Khmer. Estava pensando em minha família e em como tornar a vida mais fácil para eles. Mona*, 16.

"Pensei que a mulher não me prejudicaria, porque também é Khmer", diz Mona, expressando a crença de que alguém de sua etnia ― o povo Khmer responde por mais de 90% da população cambojana ― estaria do seu lado. "Estava pensando em minha família e em como tornar a vida mais fácil para eles."

Foi esta simples interação que iniciou a jornada dessas garotas do Camboja à fronteira chinesa, passando pelo Vietnã. A viagem foi longa e inusitadamente extenuante. Incluiu uma viagem de ônibus de Phnom Penh até a agitada metrópole Ho Chi Minh, no Vietnã, um voo até a capital vietnamita Hanói e um longo e desolado trajeto de moto através de densas florestas e íngremes passagens montanhosas.

A viagem durou pouco mais de duas semanas. As garotas viajaram juntas durante a maior parte do trajeto, mas foram acompanhadas brevemente no Vietnã por outras duas cambojanas. O traficante responsável por elas naquela etapa da viagem só viajava com duas mulheres por vez, então as irmãs dormiram em um quarto alugado em Hanói por vários dias enquanto as outras garotas iam rumo à China.

Elas começaram a suspeitar que iriam cruzar a fronteira ilegalmente quando o homem começou a conduzi-las por desertas estradas montanhosas entre Hanói e a fronteira chinesa. Elas não podiam se comunicar com o homem ― ele não falava o idioma delas. Estavam assustadas e com fome.

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Uma estrada empoeirada em um vilarejo de Kampong Speu, onde muitas das noivas recrutadas são levadas até a China.

"Quando chegamos à fronteira, estava escuro. Subíamos e descíamos as montanhas através dos bosques. Era isolado", lembra Mona.

A passagem da fronteira escolhida pelo traficante não tinha nenhum policial ou posto de controle. Havia apenas um grande rio formando uma fronteira natural. Theary estava com medo de cruzar o rio à noite, mas as irmãs foram forçadas a atravessar sozinhas, apenas com uma tábua de bambu sob os pés e agarradas a uma vara presa sobre elas de um lado a outro. Elas foram recebidas por diferentes traficantes no lado chinês da fronteira.

Depois de chegar à China, tiveram de mudar de roupa para que pudessem viajar disfarçadas como chinesas, com novas roupas, sapatos e óculos de sol fornecidos pelos traficantes. Depois de vários dias de uma viagem longa e cansativa -- durante a qual foram proibidas de conversar para que ninguém percebesse que não eram chinesas --, chegaram ao vilarejo, onde foram vendidas separadamente. Elas se lembram claramente de estar sentadas em um quarto de hotel enquanto os pais de seus futuros maridos as avaliavam.

As duas irmãs nunca haviam se separado, e, para Mona, ter a irmã mais velha ao lado na maior parte da jornada a ajudou a aguentar. Enquanto esperavam ser vendidas, ela lamentava pelas outras garotas cambojanas que viajavam sozinhas. Mas Mona teve medo de nunca mais ver a irmã depois que fossem separadas.

As irmãs se lembram claramente de estar sentadas em um quarto de hotel enquanto os pais de seus futuros maridos as avaliavam.

O novo marido de Mona tinha 27 anos e morava com os pais. A família era dona de uma loja que vendia sapatos, cintos, pratos e outras bugigangas. Mona quase não podia sair de casa. Sozinha, com saudades da família e sem poder se comunicar com seus novos familiares, Mona escapou três meses depois com outras três cambojanas que haviam sido traficadas para o mesmo vilarejo na província chinesa de Anhui, no leste do país.

Escapar não foi fácil. A nova família chinesa de Mona a vigiava de perto no começo, mas depois relaxou e permitiu que ela socializasse com outras mulheres cambojanas no vilarejo. Mona conseguiu escapar quando algumas mulheres cambojanas a levaram de moto um dia. Mona teve sorte. A polícia a ajudou contatar as autoridades cambojanas, o que nem sempre é o caso quando mulheres traficadas abordam a polícia na China ― em muitos casos, as mulheres são devolvidas aos seus capturadores ou traficadas de novo.

Mona conseguiu receber ajuda em Xangai e acabou chegando a Pequim, onde foi repatriada com a ajuda da embaixada do Camboja. De lá, voltou para casa, onde deu à luz uma menina.

Mona descobriu que estava grávida em Xangai, onde foi submetida a um exame físico no consulado. No início, pensou em fazer um aborto, mas, quando chegou ao Camboja, já estava em estágio avançado da gravidez.

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Mona* descobriu que estava grávida depois de escapar da família que a havia comprado.

Um ano depois, sua irmã Theary, a quem nunca foi dito o nome do vilarejo na China para onde havia sido vendida, também retornou ao lar. Um dia conseguiu escapar e por, três dias, perambulou sem saber em que parte do país estava. Finalmente, conseguiu contatar a polícia chinesa com a ajuda de um taxista e iniciou o processo de repatriação, enquanto permanecia em um centro de detenção chinês. Demoraria um ano para que ela conseguisse voltar ao Camboja.

Nem todas têm sorte o suficiente para escapar.

Na China, não há um procedimento claro para lidar com mulheres estrangeiras que escaparam do tráfico de pessoas. Normalmente, o sucesso de uma fuga depende da proximidade com uma embaixada ou consulado e agentes policiais que a mulher encontra.

Segundo Nadia Jung, conselheira da organização antitráfico Chab Dai, com sede no Camboja, a maioria das vítimas de tráfico não tem sorte de escapar.

"Para serem repatriadas, precisam entrar em contato com a embaixada ou consulado ou alguém que possa ajudá-las, mas na China é difícil, já que existem muito poucas organizações que ajudam vítimas de tráfico", explica Jung, acrescentando que soube de mulheres que "tentaram escapar, mas não conseguiram, e terminam novamente na casa do marido ou da família, que então passam a ser mais rigorosos".

A mulher Khmer me disse que eu deveria fazer sexo com meu marido logo ou ele pediria o dinheiro de volta. Leak*, 31.

Leak*, de 31 anos, tentou escapar da casa de seu marido chinês quatro vezes antes de finalmente conseguir ser repatriada ao Camboja.

Uma mulher do vilarejo de Leak, em Kampong Speu, a oeste da capital, havia prometido a ela um bom trabalho na China. A mulher que recrutou Leak era uma vizinha de meia-idade.

"Ela não me disse que tipo de trabalho eu faria", diz Leak. "Mas eu teria feito qualquer coisa por mais dinheiro, porque minha família é muito pobre e desesperada."

Depois de sua chegada à China, Leak foi vendida para uma mulher cambojana que então a revendeu para o homem que se tornaria seu marido. Ela se lembra de estar sentada ao redor de uma mesa de jantar vendo seu novo marido pagar o equivalente a US$ 10.300 dólares por ela. Tal quantia percorreria um longo caminho até chegar à família de Leak no Camboja. Mas estava indo todo para o traficante.

"A mulher Khmer me disse que eu deveria fazer sexo com meu marido logo ou ele pediria o dinheiro de volta", disse Leak, que permaneceu sob forte supervisão de seu marido chinês e parentes por quatro anos, antes de conseguir escapar definitivamente.

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Leak* recalls sitting at a dinner table and watching her new husband pay the equivalent of $10,300 for her.

Hoje, as três mulheres estão aliviadas de estar em casa e novamente com suas famílias, mas continuam preocupadas com seu futuro econômico.

Retornaram há alguns meses, e a vida não tem sido gentil com elas. Leak está desempregada. Theary trabalha em uma plantação extraindo látex por menos de US$ 140 ao mês. Seus pais a proibiram de voltar a Phnom Penh ― onde ela poderia encontrar um trabalho melhor remunerado ― depois do que aconteceu. E Mona agora é mãe.

Sentada na cabana que divide com os irmãos, Mona olha para as bochechas fofas e pálidas da filha enquanto a embala.

"A bebê se parece com sua avó chinesa", diz.

Mona agora tem uma boca a mais para alimentar, uma boca que é uma lembrança dolorosa de tudo o que deixou para trás na China.

*Os nomes foram alterados para proteger a identidade das vítimas.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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