MUNDO

Quem são e o que querem os ultranacionalistas alemães

É a primeira vez desde 1949 que um partido populista de direita tem votação tão expressiva.

25/09/2017 08:00 -03 | Atualizado 25/09/2017 10:39 -03
Wolfgang Rattay / Reuters
A AfD defende a expulsão rápida dos imigrantes ilegais e de refugiados que tiveram seus pedidos de refúgio negados. 

As eleições na Alemanha surpreenderam, e não foi pela possível vitória de Angela Merkel na conquista do quarto mandato. A novidade foi o avanço da extrema-direita, que se tornou a terceira maior força política no Parlamento.

É a primeira vez desde 1949 que um partido populista de direita tem votação tão expressiva. A Alternativa para a Alemanha (AfD) ficou com 13% dos votos, equivalente a cerca de 80 cadeiras no Parlamento.

No ano passado, o partido já tinha demonstrado bom desempenho nas eleições estaduais.

Na década de 1960, partidos nacionalistas chegaram a ocupar cadeiras no Parlamento, mas não de maneira tão expressiva quanto dessa vez. Esses partidos eram focados em combater o comunismo e na expansão territorial.

'Nazistas reais'

A sigla populista de direita e com foco xenófobo foi criada há quatro anos, em meio à crise da Grécia. Na época, a bandeira era evitar que a Alemanha ajudasse financeiramente o governo grego. De lá para cá, o partido se radicalizou.

Enquanto a chanceler Angela Merkel recebeu mais de 900 mil imigrantes e refugiados em 2015, o partido é contra essa política de acolhimento. Suas bandeiras são: anti-imigração, anti-islâmica, e de controle das fronteiras.

Para isso, a AfD defende a expulsão rápida dos imigrantes ilegais e dos refugiados que tiveram seus pedidos de refúgio negados. O grupo quer ainda banir as mesquitas e reduzir a idade penal para tratar jovens a partir de 12 anos como adultos em casos específicos.

Esse tipo de posicionamento tem levado o partido a ser comparado com o nazismo. "Pela primeira vez desde 1945, nazistas reais poderão ocupar a tribuna do Reichstag [edifício do Parlamento]", disparou o ministro de Relações Exteriores e vice-chanceler, o social-democrata Sigmar Gabriel.

A comparação é endossada pelo ministro de Relações Exteriores de Luxemburgo, Jean Asselborn. "70 anos depois da guerra, neonazistas estão de volta ao Parlamento alemão", disse à DPA News.

Axel Schmidt / Reuters
Alexander Gauland e Alice Weidel: principais candidatos do partido.

Embora nacionalista, a legenda tem uma formação que foge dos estereótipos tradicionais. Claro que agrega figuras que dizem que o Holocausto criminaliza alemães, mas também é aberto à diversidade. Alice Widel, que integra o grupo, é lésbica e divide a moradia entre a Alemanha e a Suíça.

'Devolver o país aos alemães'

Ao lado de Widel, o principal nome dessa força, entretanto, é Alexander Gauland. "Escalado para causar", o candidato de 76 anos teve uma campanha calcada em frases polêmicas, como: "Nós vamos mudar esse país... nós vamos devolver nosso país ao nosso povo".

Ele disse, por exemplo, que os alemães deveriam ter orgulho dos soldados que lutaram nas guerras, inclusive aqueles responsáveis por atrocidades e crimes de guerra do regime nazista.

Na linha de frases de efeito, a agência de notícias alemã DW, destaca que o partido, em propaganda contra o islã, usou cartazes com os dizeres: "Burcas? Nós preferimos biquínis".

Fabrizio Bensch / Reuters
Campanha anti-islã: "Burcas? Nós preferimos biquínis".

O que esperar

Especialistas em política alemã acreditam que a AfD terá dificuldade para sobreviver em meio aos partidos tradicionais. A Alemanha assistiu recente a ascensão e queda do Partido Pirata. A expectativa é que a cena se repita.

Alguns críticos acreditam que o partido vai se desfazer por conta própria. Há muitas divergências internas, além da previsão de que as próprias regras constitucionais parem os nacionalistas.

Hannibal Hanschke / Reuters
"Não repita a história": O apelo de manifestantes contrários à expansão da AfD.

Irritados com a expressiva vitória da AfD, manifestantes ocuparam o centro de Berlim no domingo (24) para protestar. Cartazes como "Berlim odeia a AfD" e "Nazi pigs" demonstraram o sentimento da oposição aos nacionalistas.

Angela Merkel no Brasil em 5 momentos