COMPORTAMENTO

Miss Brasil 2017 e a dificuldade do brasileiro em aceitar a beleza que o representa

A ‘beleza diversa’ funciona só até a página dois.

25/09/2017 09:10 -03 | Atualizado 26/09/2017 18:25 -03
Miss Brasil / Reprodução
Monalysa Alcântara, a Miss Brasil 2017

Pelo segundo ano consecutivo, a Miss Brasil é uma mulher negra. Parece absurdo pensar que alguém como Monalysa Alcântara, a vencedora do concurso em 2017, é uma raridade em um país que afirma viver uma democracia racial. O evento de beleza que leva o nome do País não representava o Brasil, mas um padrão externo e totalmente imposto, e a vitória da Miss Piauí dividiu o público e causou polêmica nas redes sociais.

Em mais de 60 anos de concurso, Monalysa é a terceira negra a ser vencedora. A primeira foi Deise Nunes, em 1986, e até 2016 houve um período de 30 anos em que essas mulheres não levaram a coroa – o que torna essa vitória ainda mais significativa:

"Ganhar o Miss Brasil, poder representar a mulher, principalmente a mulher negra e nordestina no Brasil e agora também no mundo, é uma honra, um orgulho imensurável. Me sinto responsável por representar não só a minha raça e o meu povo, mas também toda a nossa carga histórica", explicou a Miss Piauí.

O motivo para essa falta de aceitação é estrutural, segundo explica a ativista e youtuber Xan Ravelli, do canal Soul Vaidosa: "Não há outra resposta para esta pergunta que não o racismo. O racismo no mundo, e no Brasil de forma bem peculiar, mantém negras e negros fora dos espaços — e dos padrões, que sempre construíram e sedimentaram os conceitos do que é ou não 'belo'".

A História é mesmo importante ao falar de beleza miscigenada

O primeiro ponto que precisa ficar claro ao se discutir a miscigenação por aqui é que a palavra é mais bonita do que a realidade que ela engloba. Desde a colonização, as mulheres foram vítimas de uma cultura do estupro que começa a se entranhar na História no momento em que os portugueses desembarcaram nas praias. Eles estupraram as índias repetidamente durante o processo de colonização das terras brasileiras, e esse padrão de comportamento se manteve com a chegada das negras escravas vindas da África. Aqueles que eram considerados diferentes dos colonizadores precisavam obedecer às vontades do 'mais forte', já que eram também vistos como 'inferiores'.

Ou seja: desde o começo o homem branco se impôs como o padrão vigente e determinou a ordem de importância dos outros gêneros e raças em relação à sua própria. "Os nossos referenciais do que é o ideal, de poder e de riqueza, estão associados à pele branca e ao fato de a beleza negra nunca ter estado em voga, em alta ou em discussão como ela está agora. É um primeiro momento em que estamos vendo esse florescimento", explica a pesquisadora e historiadora de moda e beleza Andréia Míròn.

A miscigenação existe, claro, porém sem o viés romântico em que muitas pessoas acreditam. A História do Brasil se baseia na tentativa de embranquecimento da população, mantendo sempre o homem branco no topo dessa pirâmide social.

Levando em consideração que o homem branco ditava as tendências, comandava os mercados e determinava o que era e o que não era permitido no Brasil, o padrão de beleza defendido por esse mesmo homem tornou-se vigente. Ou seja, a mulher branca, de olhos claros e cabelos lisos era vista como a mais bonita, e a rejeição ao que não se encaixava nessa visão era imediata.

"Os padrões de beleza, assim como muitos outros padrões, estão definidos a partir da perspectiva branca. Socialmente, não aprendemos a identificar a beleza fora da pele branca, fora do cabelo liso, do nariz afilado, do corpo magro. Então, é como se não aprendêssemos que outras imagens, formas e texturas fora desse padrão branco eurocêntrico também são belas", diz Xan.

Ao observar esse contexto, é possível entender por que o racismo é algo estrutural no Brasil. E a miscigenação acaba se tornando uma desculpa para dizer que não existe racismo por aqui. A palavra ganhou ares românticos e é vista como um atributo positivo, enquanto guarda todo um histórico de opressão nas entrelinhas.

Buscando uma outra vertente, Míròn explica que quando uma nova ideia surge, ela causa um impacto social, e a primeira reação é a rejeição: "Nós nunca ficamos tão ligados como neste milênio, em que as pessoas viraram Pantones, nós colocamos as pessoas em classificações, nós as classificamos e categorizamos conforme certos quesitos. E isso tem criado um desconforto, porque a partir do momento que você constrói bases que você acredita que são sólidas e o outro mostra uma visão diferente, o primeiro impacto é recuar, é não aceitar. Só depois isso essa ideia passa a ser diluída".

Aceitação: o próximo passo

A rejeição ao que foge do padrão branco de beleza é um fato – o cabelo afro ainda é considerado por muitos como 'sujo' – e o momento é de um trabalho pesado em direção à aceitação, não apenas da individualidade de cada um, mas de que o brasileiro, por si só, não tem um único referencial do que é belo, como acontecia na Grécia Antiga.

"Acho que isso se deve ao fato de que, infelizmente, vivemos em uma cultura na qual aprendemos a odiar todas as representações do negro: a pele, o cabelo, a boca, o nariz. Acredito que temos avançado em um caminho para romper alguns estigmas em relação a isso, mas precisamos continuar para que possamos avançar cada vez mais", completa a Miss Brasil 2017.

Míròn vai além, explicando que não é só a mulher que precisa fazer essa desconstrução, mas o povo brasileiro como um todo – ainda mais porque, vivendo na eterna síndrome do vira-lata, ele acredita sempre que está em desvantagem em relação aos demais povos. "O brasileiro tem essa crise de autoestima, uma falta de identificação por causa desse sincretismo social. Nós ainda não víamos qual é essa cara do brasileiro. E agora a gente vê que esse é o brasileiro, ele é tudo isso. Cada um começa a aflorar com a sua questão. O fato de nós sermos tudo isso e as pessoas não aceitarem ser tudo isso... Eu quero ser único, a minha pele quer ser única, o meu cabelo quer ser único... Essa questão da exclusividade de ser brasileiro não existe. Não foi passado nenhum manual para nós do que é ser brasileiro."

Por isso, a historiadora diz que o ideal é a sociedade chegar a um ponto no qual não existam mais padrões de referência do que é belo, porque todos respeitam a beleza uns dos outros, e as classificações e os julgamentos são descartados. "Eu vou ter que criar dentro da minha própria pessoa um referencial próprio."

Esse cenário parece utópico se o discurso de Míròn não for colocado em prática. Entra aí a importância da cultura do amor próprio e da aceitação de si antes do próximo – a beleza de todos só pode ser reconhecida como igual a partir do momento que nós mesmos nos sentimos iguais aos outros. Isso significa que é preciso também um reconhecimento de que o sistema em que vivemos é falho e que ele precisa mudar para incentivar essa mesma aceitação.

"O processo de desconstrução e reconstrução é diário, já que o racismo tem muitas formas de dizer o quanto a mulher negra e crespa é inadequada. Conhecer a história dos heróis negros e heroínas negras desde criança foi muito importante para a formação da minha autoestima, assim como uma figura materna preta, forte, linda e que sempre fez questão de reforçar o quanto ser negra me faz maravilhosa", completa a youtuber.

No mais, podemos sempre seguir as (belas) palavras da própria Monalysa Alcântara, que também acredita nesse caminho como a saída para toda intolerância que é noticiada por aí: "poderíamos incentivar a aceitação da beleza mostrando sempre a nossa essência real, sem nos apegarmos a um padrão ou a um único estilo".