ENTRETENIMENTO

Quem é a autora ‘queer’ e antifascista do desenho ‘Moomins’, aclamado nos Estados Unidos

Prepare-se para saber um pouco mais sobre o inquietante e internacionalmente aclamado livro ‘Moomin Falls in Love’ da escritora finlandesa.

25/09/2017 06:01 -03 | Atualizado 25/09/2017 15:52 -03

Para um livro de histórias em quadrinhos infantil, Moomin Falls in Love (Moomin se Apaixona, ainda não lançado no Brasil) não é tão fofinho como se poderia esperar.

A história, escrita e ilustrada pela artista finlandesa Tove Jansson, acompanha os amantes Moomintrol e a Donzela Snork, personagens que tecnicamente são trolls -- seres antropomórficos escandinavos --, mas se parecem mais com hipopótamos feitos de pelúcia e de marshmallow.

Desde a primeira página, o relacionamento deles é perturbado. "Eu me pergunto", Moomintrol diz para si mesmo, "por que a heroína em um livro é sempre mais bela do que a que está em casa". Quando uma enchente atinge o Vale dos Moomins, ele acaba salvando a vida de uma linda, embora egocêntrica "sedutora senhorita" chamada La Goona, apaixonando-se perdidamente por ela no processo. "Você não vê que ela é uma vampira!?", grita Snork exasperada, diante da tentativa do amado de cortejar outra.

Assim como qualquer protagonista, Moomintrol acaba percebendo o erro cometido. O conto termina com Moomintrol encenando um dramático gesto de reconciliação para conquistar a Donzela Snork novamente, embora o pedido de desculpas pareça mais uma performance obrigatória do que uma verdadeira expressão de arrependimento. No final das contas, a história não traz a grande resolução moral típica da literatura escrita para um público jovem, mas proporciona a leitura sobre adoráveis criaturas de conto de fadas com falhas humanas facilmente reconhecíveis.

Jansson criou Moomins in Love em 1956, 11 anos depois de apresentar pela primeira vez as criaturas sem boca no livro intitulado Os Moomins e o Dilúvio (Autêntica Editora), publicado originalmente em 1945. Ela iniciou a coleção em meio ao pano de fundo da Segunda Guerra Mundial; as leves histórias suavizavam seu sofrimento e ansiedade diante da turbulência política. As histórias normalmente giravam em torno de provações da vida ― desavenças familiares, problemas financeiros, solidão, romances descontrolados e, às vezes, luto. Embora existam enchentes e catástrofes naturais ocasionais, na maioria das vezes os conflitos são banais e, raramente, vistos com uma espécie de "lente cor-de-rosa". Os personagens constantemente se desentendem e se decepcionam uns com os outros, num vaivém entre a felicidade e a melancolia.

Nos últimos 72 anos, a série se tornou extremamente popular. Foram vendidas milhões de cópias da coleção ilustrada, com a tradução para 44 idiomas, enquanto os personagens foram adaptados para várias séries de TV e filmes. Existe até um parque temático dos Moomins, o Moomin World, na Finlândia. Mais recentemente, os Moomins foram destaque no noticiário com o anúncio de que Kate Winslet e Rosamund Pike assinaram um contrato para participar da série de animação "Moominvalley", programada para ir ao ar em 2019. Um filme sobre os Moomins, estrelado por Alicia Vikander, também estaria nos planos.

A atual febre despertada pelos Moomins também é perfeita para lembrar a singularidade da mulher por trás da série, que equilibrou uma carreira de sucesso no segmento de livros infantis ilustrados com histórias de ficção para adultos e charges políticas antifascistas.

Tove Jansson

Nascida em 1914 em Helsinque, Finlândia, os pais de Jansson eram artistas boêmios ― do tipo de pessoas que têm um macaco de estimação chamado Poppolino. O pai de Jansson era um escultor errático e indulgente de monumentos; sua mãe, uma ilustradora ousada que aceitou um trabalho de desenhar selos para pagar as contas. Narrativas, obras de arte e socialização com a comunidade criativa foram elementos importantes da infância de Jansson, tanto que escreveu e ilustrou seu primeiro livro de imagens, Sara and Pelle and the Water Sprite's Octopuses, com 13 anos.

Dois anos depois, em 1929, Jansson começou a contribuir para uma revista de sátira finlandesa chamada Garm. Trabalhou na revista até seu fechamento, em 1953, e sentia um prazer particular em retratar imagens antifascistas que desafiavam governantes autoritários. "O que eu mais gostava", lembra, "era incomodar Hitler e Stalin". Sua charge política mais conhecida, publicada em outubro de 1938, mostra Hitler como um menino birrento chorando por causa de um bolo enquanto líderes mundiais exaustos se desdobram para aplacar sua fúria, oferecendo-lhe doces com os nomes de estados europeus.

Jansson pode ter retratado Hitler como uma criança petulante, mas suas ilustrações para crianças tratavam seus jovens leitores com dignidade e respeito, acoplando instantaneamente ilustrações empáticas com características humanas mais complexas. É difícil não se apaixonar por Moomintrol, com seu focinho redondo e barriga saliente, embora o sentimento azede quando ele mergulha em superficialidade e leve misoginia.

Dulwich Picture Gallery

A ilustradora criou a primeira criatura do tipo Moomin após uma discussão com seu irmão sobre o filósofo Immanuel Kant. Frustrada com o irmão, Jansson desenhou sua tentativa de "criatura mais feia imaginável" como um ato de vingança, criando um troll mais magro e de aparência mais desagradável ― mais ornitorrinco do que hipopótamo ― que ela apelidou de Snork. Depois de finalizar a forma angular das criaturas, nasce o Moomin, um ser que desperta uma vontade de abraçar imediata.

É difícil descrever o quão extravagantemente atraentes são os Moomins. Leitores e espectadores devotados da franquia reconhecerão a reação visceral e bizarra ao ver um Moomin fazer cara feia, se arrumar ou contemplar solenemente algo distante. É quase desconcertante, para dizer o mínimo, se sentir tão entusiasmado por desenhos bidimensionais. Ainda assim, os desenhos e diálogos engenhosamente organizados evocam expressões humanas com inquietante congruência.

Muitos dos personagens Moomins são vagamente autobiográficos, inspirados em pessoas importantes na própria vida da artista. O inegável encanto das criaturas, por isso, se conecta com a afeição que os leitores sentem em relação aos amigos delas, mesmo quando seu comportamento é questionável ou negativo. Os Moomins nunca são maldosos ou cruéis, mas podem ser mesquinhos, chorões, decepcionantes ou desonestos. O leitor perdoa sua falta ocasional, em parte, por causa de sua doce familiaridade. Algo sobre suas emotivas sobrancelhas, narizes inchados e corpos pálidos nos faz sentir que esses desenhos bidimensionais são estranhamente da família.

Tove Jansson

Apesar de dedicar sua vida à literatura infantil, Jansson nunca teve filhos. "Ela fez uma escolha positiva ― e documentada ― de não casar e ter família", sua sobrinha Sophia disse ao jornal "The Guardian".

Ao longo da vida, Jansson amou tanto homens quanto mulheres; a escritora teve um breve relacionamento com o filósofo político Atos Wirtanen, que inspirou o personagem Moomin Snufkin, identificado por seu cachimbo e chapéu de pescador. Jansson então teve um romance secreto com a diretora de teatro Vivica Bandler. Além de Bandler ser casada, naquela época a homossexualidade era ilegal na Finlândia. Acredita-se que as personagens Moomin Thingumy e Bob, gêmeas inseparáveis que se comunicam em sua própria língua secreta e se escondem em espaços confinados, tenham sido inspiradas em Bandler e Jansson. Nos livros, Thingumy e Bob carregam uma mala com um gigante rubi, símbolo de seu amor.

Bandler e Jansson acabaram se separando e, em 1956, Jansson conheceu a artista Tuulikki Pietila, que se tornaria sua parceira para o resto da vida. Jansson nunca se referiu a si mesma como lésbica, segundo sua sobrinha, mas usava a expressão codificada de atravessar "para o lado assustador". Pietila também aparece nos livros dos Moomins como Too-ticky, um personagem humano andrógino que veste uma camiseta listrada vermelha e carrega uma maleta.

Jansson faleceu em 2001, aos 86 anos, mas a paixão internacional pelos Moomins continua viva até hoje. Talvez por causa da combinação de cenários semelhantes aos dos humanos com floreios simbólicos e surrealistas da série. (A Donzela Snork, por exemplo, muda de cor quando muda de humor.) Ou talvez porque, em tempos de ansiedade política ― seja em 1945 ou em 2017 ―, haja algo imensamente reconfortante em abrir um livro infantil cheio de contratempos banais e inquietantes aventuras.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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