MUNDO

A crítica à supremacia branca e as consequências para quem é negro

A presidência de Trump deslocou a indignação nacional e colocou os antirracistas na mira do repúdio.

25/09/2017 07:20 -03 | Atualizado 25/09/2017 07:20 -03

No ano que antecedeu e nos meses que se seguiram à eleição de Donald Trump, os detratores mais ardentes do presidente americano abraçaram um tema comum: a ideia fantasiosa da "normalidade".

O refrão que era e continua a ser repetido era que as obsessões megalomaníacas bizarras de Trump e seu desafio à tradição política "enfraqueciam nossas normas democráticas" e que, em vista disso, o reinado de Trump "não é normal". Existe uma ingenuidade sutil nessas noções, que ignoram o fato de que o iliberalismo que acompanha a presidência de Trump já teve consequências maiores ou menores para milhões de americanos negros e morenos. A violência política não se acalmou, as obstruções colocadas para alguns eleitores exercerem seu direito de voto persistem, e os homens brancos ganharam deferência cega, em grande medida, antes da eleição de 2016.

Mas o anseio por normalidade trai o fato de que o decoro presidencial está em séria falta no regime atual e que isso tem um impacto muito real. É inusitado, por exemplo, que um presidente defenda neonazistas publicamente; que ele endosse grosseiramente a brutalidade policial; que se gabe de cometer agressão sexual, ou que afirme que imigrantes mexicanos são estupradores, traficantes de drogas e capangas violentos. E, vindas de um presidente cuja mensagem de nacionalismo etnocêntrico seduziu milhões de eleitores, essas são declarações e atitudes que têm ecos evidentes em nosso país. Elas assinalam tolerância àqueles que se arrogam a identidade americana às expensas de todos os outros, e, em resposta a pessoas desse tipo, a cumplicidade gera a violência.

Na segunda-feira a co-apresentadora do programa "SportsCenter" da ESPN Jemele Hill usou sua conta no Twitter para destacar que Trump é supremacista branco:

(Donald Trump é um supremacista branco que se cercou em grande medida de outros supremacistas brancos.)

Os tuites de Jemele foram repudiados amargamente por usuários do Twitter que consideram rótulos como "supremacista branco" insultos, e não rótulos identificadores comprováveis. Para essas pessoas, ser chamado de racista ou supremacista branco é inapropriado, mesmo que a descrição seja, estritamente falando, acertada.

A ESPN se dobrou diante dessas reações de repúdio e divulgou um pedido de desculpas em nome de Jemele:

(Os comentários de Jemele Hill no Twitter sobre o presidente não representam a posição da ESPN. Discutimos o assunto como Jemele e ela reconhece que suas ações foram inapropriadas.)

Não houveram explicações do por que as palavras de Jemele foram inapropriadas, e menos ainda se foram erradas.

A primeira modelo transexual da L'Oréal, Munroe Bergdorf, sofreu consequências piores quando condenou a supremacia branca. Depois de escrever um post no Facebook sobre como o racismo é insidioso, a modelo foi despedida pela L'Oréal, que, apesar disso, logo após o incidente se qualificou como defensora da diversidade.

(A L'Oréal defende a diversidade. As declarações de Munroe Bergdorf destoam de nossos valores, por isso decidimos encerrar nossa parceria com ela.)

Vale notar que as reações de repúdio aos antirracistas prejudicam exclusivamente pessoas negras que querem combater a prática do racismo, de maneiras que suas contrapartes ideológicas brancas raramente vivenciam na pele.

Quando Stan Van Gundy, o treinador chefe do Detroit Pistons, descreveu Trump como "descaradamente racista e misógino", ele não foi despedido.

Quando Steve Kerr, treinador chefe do time Golden State Warriors, campeão da NBA, concordou abertamente com Van Gundy, ninguém em posição de poder tentou demiti-lo.

Quando o treinador chefe do San Antonio Spurs, Gregg Popovich, falou de nosso "pecado nacional", os flagelos do racismo e do privilégio branco, não apareceu nenhuma turba furiosa obrigando-o a deixar seu cargo ou fazendo com que fosse repreendido.

Na quarta-feira, porém, a secretária de imprensa da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, falando em briefing à imprensa, considerou as declarações de Jemele Hill sobre Trump "um delito passível de demissão". Poucos meses antes disso, o próprio Trump deixou entender que pressões da Casa Branca impediriam Colin Kaepernick de voltar a encontrar trabalho na NFL pelo resto da vida, depois de o jogador ter se manifestado contra a brutalidade policial.

Tudo isso revela uma relutância generalizada da parte de brancos em aceitar que se devem respeitar as opiniões expressas por negros, mesmo com relação a coisas como o racismo, algo que as pessoas negras vivenciam intimamente e de modo frequente. Mas essa é uma tradição que extrapola em muito os limites da política. Um estudo de 2016, por exemplo, utilizou dados fornecidos pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças para ilustrar a disparidade entre receitas médicas escritas para pacientes negros e brancos dos departamentos de emergência de hospitais. Os dados sugerem uma relutância maior em receitar medicamentos para pacientes negros que sofrem dor. Keisha Ray, professora assistente na Texas State University, propôs uma explicação assustadora desse fenômeno.

"Aos pacientes negros em departamentos de emergência, consultórios médicos e clínicas não é dado o luxo de serem vistos simplesmente como pacientes que precisam de assistência médica", disse Ray. "Em vez disso, eles são encarados como menos que humanos, pessoas que procuram drogas e que, de modo geral, exageram seus problemas."

Esses comportamentos revelam o pouco-caso com que é tratada a situação dolorosa de negros. Essas coisas não são, por si sós, criações de Donald Trump. Mas o risco que corremos quando cedemos à vontade de um presidente que é abertamente supremacista branco tem resultados semelhantes. Tolerar o racismo branco frágil inevitavelmente desloca a janela através da qual observamos esse racismo, obrigando-nos a enxergar opressores e oprimidos sob ótica semelhante.

O efeito desse medo – da recusa em permitir uma crítica clara e fundamentada – é a apreensão das ferramentas que podemos usar para combater o racismo.

Quando as pessoas falam em tom assustado sobre a normalização de Donald Trump, referem-se a precisamente esse fenômeno. Não é a mera normalização no sentido concreto, político – por exemplo, a permissão de proibir a entrada de muçulmanos no país ou de expulsar imigrantes, a permissão da brutalidade policial ou a recusa do presidente em apresentar suas declarações de imposto de renda. Em vez disso, é o medo de que as opiniões mais tenebrosas do presidente, e a defesa dessas opiniões por pessoas que conhecemos e amamos, nos imobilizem, impedindo-nos de condená-las como desprezíveis. Para muitas pessoas, condenar Trump equivale a condenar sua mãe, seu pai, seus primos ou seus amigos que o apoiam. E, do mesmo modo, se Trump é supremacista branco, também o são aqueles que compartilham os objetivos dele.

Não devemos compartilhar esse medo de sermos examinados atentamente.

O efeito desse medo – da recusa em permitir uma crítica clara e fundamentada – é a apreensão das ferramentas que podemos usar para combater o racismo.

É como se estivéssemos sobre um banco de areia que estivesse sendo devorado pela água, sem barco, com a água infinita ao longe e a maré chegando cada vez mais perto. E, se nossa intenção é calar aqueles que se manifestam contra o racismo, como fizeram a ESPN, a L'Oréal e outros, teremos que nos dispor a explicar por que confiscar seus meios de sobrevivência atende aos nossos interesses nacionais.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

De que o mundo mais tem medo em Donald Trump