ENTRETENIMENTO

Jeannette Walls: ‘Se você decidir não ser vítima do passado, não vai ser controlado pela mágoa’

Em entrevista ao HuffPost, autora do bestseller ‘O Castelo de Vidro’ fala sobre convivência com más lembranças da infância na pobreza e adaptação para o cinema com Brie Larson.

24/09/2017 06:27 -03 | Atualizado 24/09/2017 06:27 -03
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Walls registrou essas memórias no livro 'O Castelo de Vidro' — que se tornou bestseller do New York Times por mais de 250 semanas, recebeu incontáveis elogios da crítica e, neste ano, uma adaptação para o cinema.

Se a escritora norte-americana Jeannette Walls, 57, tivesse a chance de voltar no tempo e ter uma conversa consigo mesma quando jovem, ela diria: "Confie em si mesma, seja forte e acredite no futuro".

Isso porque antes de tornar-se uma renomada jornalista em Nova York, Walls viveu um bom pedaço de sua vida na cidadezinha de Welch, Virgínia Ocidental, onde ela revirava o lixo da escola para encontrar comida e usava um balde na cozinha de casa como privada. Antes disso, ela, os três irmãos e os pais, Rex e Rose Mary Walls, mudavam-se de cidade em cidade em latas-velhas para fugir de cobradores de dívidas.

Rex, um alcoólatra constantemente desempregado, e Rose Mary, uma artista, deixaram os filhos passar fome várias vezes. Ambos tinham pontos de vista incomuns a respeito de como educá-los. Eles os levavam para conhecer a natureza em vez de confiar à escola a tarefa de ensiná-los sobre ela, por exemplo. Em casa, havia muito afeto e estímulo à imaginação.

Walls registrou essas memórias no livro O Castelo de Vidro — que se tornou bestseller do New York Times por mais de 250 semanas, recebeu incontáveis elogios da crítica e, neste ano, uma adaptação para o cinema. O filme homônimo traz Brie Larson (recente vencedora do Oscar por O Quarto de Jack) no papel da autora e Woody Harrelson e Naomi Watts como Rex e Rose Mary, respectivamente. Dirigido por Destin Daniel Cretton (Temporário 12), o longa-metragem está em cartaz no Brasil desde 24 de agosto. O livro está disponível nas lojas com edição da Globo Livros.

"Sou apenas uma garota com uma história, isso é tudo", disse a escritora em entrevista ao HuffPost Brasil.

Ela gargalhou incontáveis vezes durante a conversa. Talvez por que adorou o filme e depois de tanto sofrimento, encontrou paz para lidar com o legado contraditório que seus pais lhe deixaram.

Uma das memórias mais marcantes é o casarão dos sonhos da família, chamado de "Castelo de Vidro". Concebida pelo próprio Rex, que desenhou a planta e planejou todo sistema de encanamento e eletricidade, a casa nunca foi construída — o espaço reservado a ela tornou-se uma vala no quintal em que a família descartava lixo e atraía ratos para dentro de casa.

Na adolescência, Walls e seus irmãos se mandaram para Nova York; eles não confiavam mais no juízo dos pais e foram estudar e trabalhar na cidade grande em busca de uma vida melhor. Após conseguir completar o ensino médio e formar-se na faculdade — com ajuda de bolsas e financiamentos —, a carreira de Walls como jornalista deslanchou. O ápice foi quando ela se tornou colunista de fofoca da renomada New York Magazine, e passou a habitar um mundo de pessoas ricas e poderosas.

O problema foi a crise de consciência que veio depois: seus pais haviam seguido os filhos para NY e, enquanto eles viviam bem, Rex e Rose Mary, sempre à esquerda no espectro político, moravam em uma ocupação de prédio. Às vezes, vasculhavam lixo pela cidade e dormiam em praças.

Walls escondia de todos sua origem. Ela tinha receio de perder as amizades e a carreira. No entanto, após um processo de autocrítica e resgate das boas lembranças, ela perdoou os pais e a si mesma. Havia chegado a hora de aceitar que o passado também é parte de quem ela é.

Atualmente, Walls vive com o marido e a mãe em uma fazenda em Phoenix, Arizona; ela tem trabalhado em um novo romance, cuja história será protagonizada por uma mulher de negócios na década de 1920. A autora não tem gostado muito do resultado.

"Isso é algo do qual nós escritores não podemos escapar. Por mais que a gente odeie o que está escrevendo, pior ainda é não escrever", conta.

Além de ser "apenas uma garota com uma história", o relato de Walls em O Castelo de Vidro mostra que ela é uma heroína de si mesma. A história da escritora é uma daquelas de reviravoltas improváveis — e ela conseguiu realizar todas sozinha. Leia abaixo a entrevista da autora para o HuffPost.

HuffPost Brasil: Você parece estar em ótimos termos com sua família agora. O que tornou isso possível?

Jeannette Walls: Bem, tudo na vida é sobre escolhas, não é? Você pode ficar chateada e enraivecida por causa das coisas que deram errado, ou pode aprender com elas, alegrar-se com o que você tem. Não é uma questão de o que foi dado a você na vida, mas o que você faz com o que te foi dado.

E todos aqueles planos do castelo de vidro que seu pai concebeu? O que passa pela sua cabeça quando você pensa a respeito deles?

Para mim, o castelo de vidro não era só uma ideia de estrutura física, mas mais sobre sonhar e ter esperança no futuro, acreditar que um dia eu teria uma vida melhor. Acredito que se você der essa esperança a uma criança, será o maior presente que ela pode ter. É muito mais valiosa que uma mansão a esperança de que, um dia, você terá uma bela vida.

Você era muito pobre quando criança, mas ao se mudar Nova York, você se tornou uma grande jornalista, fez parte de um mundo muito elitista. Como foi essa experiência, considerando toda pobreza que você vivenciou no passado?

Foi surreal. [risos] Foi bizarro. E me parecia ser tão injusto. Foi me dada a escolha de "o que eu faço a respeito disso? Eu digo o quão injusto isso é ou tento fingir que é normal para mim?". Há uma grande contradição na pobreza e na riqueza: elas frequentemente andam lado a lado. E eu estava sendo desonesta a respeito de tudo. Ficava em silêncio. Não sabia o que fazer. Eu conheci algumas das pessoas mais poderosas do mundo. Era bizarro para mim. E, de uma certa maneira, foi horrível [também]. Você pode se mover de um mundo para o outro e não se deslumbrar ou se intimidar por tudo isso.

Você parece ter memórias maravilhosas e terríveis de seu passado. Os mesmos pai e mãe que deixaram você e seus irmãos passarem fome por negligência, por exemplo, deram a vocês vários momentos de diversão e os inspiraram a fazer diferença no mundo. Como é viver com esse legado contraditório?

Sim, é exatamente sobre isso que a história [de O Castelo de Vidro] é: a beleza e o horror dos mesmos pais que, por um lado, nos privaram de tantas coisas e nos colocaram em circunstâncias terríveis, mas por outro, nos deram esperança e autoconfiança. Eu acredito que se deve escolher em o quê você se foca. Se eu escolher me focar no lado ruim, ficarei amarga e enraivecida. Amargura e raiva não são perigosas para as pessoas pelas quais você as sente, mas para você, por dentro. É sua escolha. Se você se focar no bom e nos presentes [que vêm com isso], então é o dono da situação, está no controle. Se você decidir que não vai ser uma vítima de seu passado, não vai ser controlado pela raiva e pela mágoa. Não que eu não esteja ciente da culpa dos meus pais, é que eu me recuso a deixá-los me controlarem.

Divulgaçao
Brie Larson em cena de 'O Castelo de Vidro', no qual ela interpreta Jeannette Walls.

Você está feliz com o filme de O Castelo de Vidro?

Acho que ficou maravilhoso. Fizeram um trabalho espetacular. Woody Harrelson foi fenomenal. A primeira vez que eu o vi no personagem, comecei a tremer e chorar, porque ele capturou tão bem meu pai. Não acho que o tenha interpretado — ele se tornou meu pai. Brie Larson foi espetacular. A garota que interpreta o que chamam de "Jeannette intermediária", Ella Anderson, foi fenomenal. Ver uma atriz de 11 anos entender aquelas emoções complicadas foi impressionante. E a que chamam de "Pequena Jeannette", Chandler Head, foi incrível. Todos eles foram incríveis. Naomi Watts entende minha mãe melhor do minha mãe entende ela mesma [risos]. E o roteiro ficou ótimo. O jeito que ele vem e vai entre passado e presente foi extremamente habilidoso e autêntico. Acho que a música também foi maravilhosa. Amei tudo no filme. Alguns podem falar que pobreza e desespero não têm afeto, mas quem diz isso não viveu a pobreza. Essa é uma das coisas em que Destin foi brilhante. Ele entendeu que havia dor e desespero, mas também havia beleza, afeto e gentileza. E, mais importante, esperança.

Como foi essa experiência de ir ao set e ver os atores caracterizados como sua família?

Foi hilária. [risos] Em algumas cenas, Brie Larson usou roupas que realmente eram minhas. Algumas pinturas da minha mãe estão no filme. Esse foi o nível da busca deles por autenticidade. Uma das músicas escritas para o filme foi baseada em poemas do meu pai. Destin tentou ao máximo fazer tudo da maneira correta. Todos que trabalharam no set, seja atrás ou diante da câmera, estavam incrivelmente dedicados a buscar a verdade daquela história. Não é [uma história] boa ou ruim, e este foi o desafio. Como você conta uma história que de certa maneira é bastante obscura, mas também tem uma linda luz? É um balanceamento incrível. Estar no set e vê-los se transformar em membros da minha família foi surreal e lindo. E foram sempre tão respeitosos. Afinal, eles estavam interpretando pessoas reais. Eles me ligavam ou mandavam emails constantemente com perguntas a respeito dos membros da minha família para entender detalhes. As performances não são rasas, superficiais — os atores se importaram profundamente não só com a verdade dos personagens, mas com a verdade da história também. [Além disso,] Eles eram como uma família. Corriam pelo set, subiam em árvores, havia uma incrível sensação de afeto. Naomi Watts foi tão maternal. Dizem que é difícil dirigir crianças em filmes, mas acho que é por isso que Destin conseguiu performances incríveis.

Como foi para você se ver interpretada pela Brie Larson, que recentemente venceu um Oscar por O Quarto de Jack?

[risos] Ela fez um ótimo trabalho. Brie Larson se importa profunda e apaixonadamente [com o trabalho]. Ela [a personagem] não quer que o mundo veja as feridas e tenta ser fria e dura, mas na verdade está vulnerável. Ela se desliga da dor, mas também da beleza. Ela tem que se reconectar, tem que ser a pessoa inteira.

Livros de Jeannette Walls lançados no Brasil:

O Castelo de Vidro e o romance A Estrela de Prata foram publicados pela Globo Livros. Cavalos Partidos, romance biográfico sobre a avó materna da autora, Lily Casey Smith, foi lançado pela Nova Fronteira.

Assista abaixo ao trailer de O Castelo de Vidro:

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