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Guerra do Vietnã: Quem estava certo sobre o que deu errado (e por que isso importa no Afeganistão)

Na era do Vietnã, como hoje, os Estados Unidos se viam atolados numa guerra aparentemente sem fim, com custos cada vez mais altos e objetivos incertos.

23/09/2017 06:42 -03 | Atualizado 23/09/2017 06:42 -03
Yoichi Robert Okamoto/Wikipedia
O secretário de Estado Dean Rusk, o presidente Lyndon Johnson e o secretário da Defesa Robert MacNamara.

Por David Skidmore

Os fantasmas da Guerra do Vietnã sem dúvida estavam pairando sobre um conclave recente dos conselheiros do presidente Donald Trump em uma deliberação sobre as condições cada vez mais deterioradas no Afeganistão.

Na era do Vietnã, como hoje, os Estados Unidos se viam atolados numa guerra aparentemente sem fim, com custos cada vez mais altos, objetivos incertos e poucos sinais de sucesso. Tanto no Afeganistão como no Vietnã, sucessivos presidentes viram-se diante das mesmas opções: bater em retirada, escalar o conflito ou fazer apenas o suficiente para evitar uma derrota. Como seus predecessores nas duas guerras, Trump escolheu o caminho do meio – uma escalada incremental, sem um plano claro de saída. Apesar de Trump falar em "plano para a vitória", o secretário de Estado americano, Rex Tillerson, admitiu candidamente que tropas adicionais provavelmente não farão mais que "estabilizar a situação".

Como explicar a aparente preferência dos presidentes americanos pela insistência – seja no Afeganistão ou, 50 anos atrás, no Vietnã? Essa era uma questão central durante o curso da Guerra do Vietnã que tenho apresentado nos últimos 30 anos. Procuramos respostas em um debate fascinante entre ex-autoridades que emergiram nos estágios finais da guerra.

Um caminho perigoso

O historiador de Harvard Arthur Schlesinger ofereceu um ponto de vista em seu livro "The Bitter Harvest" (uma colheita amarga, em tradução livre), de 1967. Ex-conselheiro de John F. Kennedy, Schlesinger comparou o Vietnã a um pântano: o primeiro passo num pântano inexoravelmente o coloca num caminho perigoso. Schlesinger argumentou que as autoridades nos governos Kennedy e Johnson se lançaram cegamente no Vietnã, sem saber aonde o compromisso levaria. A escalada prosseguiu em vários pequenos passos, nenhum dos quais parecia terrivelmente consequente. Cada passo era dado com a crença otimista de que um pouco mais de esforço – um pouco mais de ajuda, algumas tropas a mais, uma ligeiraa intensificação dos bombardeios – mudaria o rumo das coisas, sinalizando a determinação dos americanos de manter o curso. Diante dessa perspectiva, acreditava-se, os comunistas do Vietnã do Norte aceitariam a paz nos termos dos Estados Unidos.

Wikimedia Commons
Arthur Schlesinger Jr. em 1951.

Essas expectativas equivocadas, argumentou Schlesinger, eram produto de um sistema de tomada de decisões caracterizado por "ignorância, más decisões e confusão". Uma burocracia disfuncional alimentou o equívoco e a inteligência excessivamente auspiciosa dos presidentes. O fracasso da Guerra do Vietnã, em outras palavras, surgiu da inadvertência e insensatez.

Apenas evite a derrota

Em artigos separados, essa interpretação do que deu errado foi desafiada por Daniel Ellsberg e Leslie Gelb. Ambos tinham trabalhado no Departamento da Defesa nos anos 1960 e ambos ajudaram a compilar os famosos "Papeis do Pentágono".

Gelb e Ellsberg chegaram a conclusões semelhantes sobre a fonte das políticas americanas em relação ao Vietnã. Ellsberg argumentou que os responsávels pelas políticas nos governos Kennedy e Johnson seguiram duas regras:

  1. Não perca o Vietnã do Sul para o comunismo, e
  2. Não envolva os Estados Unidos numa guerra terrestre de grande escala na Ásia.

Cada regra se inspirava em precedentes recentes. A "perda" da China para o comunismo, em 1949, gerou acusações de que os democratas eram "brandos em relação ao comunismo" e uma onda de histeria macartista domesticamente. Por outro lado, o público também não toleraria outra guerra terrestre parecida com o impopular conflito na Coreia.

Associated Press
Dan Ellsberg, em 1971.

Os custos domésticos percebidos dos dois extremos – retirada ou escalada irrestrita – levaram Kennedy e Johnson para o meio. Enquanto fosse factível, ambos fizeram o suficiente para evitar a perda do Vietnã do Sul, mas rejeitaram o compromisso direto de tropas americanas que os assessores militares insistiam ser necessário para obter a vitória.

Em 1965, a deterioração da situação política e militar no Vietnã do Sul puxou de sob os pés de Johnson esse tapete do caminho do meio. O mínimo necessário para evitar uma derrota agora exigia o envio de tropas americanas. Mesmo depois de atingido esse ponto, as tropas foram introduzidas de maneira gradual, e Johnson recusou-se a aumentar os impostos para financiar a guerra.

Como esperavam Johson e Kennedy, o apoio da população à guerra se esvaiu conforme aumentou o número de vítimas. Richard Nixon respondeu a essas pressões domésticas com a "vietnamização", que gradualmente reduziu o número de soldados e ao mesmo tempo prolongou os esforços para impedir uma vitória comunista.

Ellsberg se refere a isso como "a máquina do impasse". Os governantes agiam de maneira calculada para evitar a derrota, mas entendiam que suas políticas não seriam capazes de produzir uma vitória. O impasse era uma escolha consciente, não produto do otimismo exacerbado ou de cálculos errados.

AP Photo/Jim Palmer
Leslie Gelb no Brookings Institution, em Washington, 24 de julho de 1971.

Fazendo eco ao relato das restrições domésticas sobre as políticas americanas, Gelb acrescentou dois conjuntos de restrições internacionais. A retirada foi descartada porque os responsáveis pelas políticas militares acreditavam na teoria dos dominós, que previa que a perda do Vietnã do Sul levaria a uma onda de vitórias comunistas por todo o Sudeste Asiático. Eles também temiam a perda de credibilidade dos Estados perante seus aliados, se fôssemos incapazes de lutar no Vietnã do Sul. Por esses motivos, bem como por causa do medo de uma reação da direita, Kennedy e Johnson não estavam dispostos a sair do Vietnã.

No entanto, Kennedy e Johnson também temiam os riscos internacionais de maiores agravamentos, argumentou Gelb. Uma invasão do Vietnã do Norte levantou a possibilidade de que a China ou a União Soviética interviriam mais diretamente ou retaliariam contra os interesses dos E.UA. em outra parte do mundo. Na era de armas nucleares, os E.U.A. preferiram manter o conflito com o Vietnã limitado e minimizar os riscos de uma guerra de superpotências.

Do Vietnã ao Afeganistão

Gelb e Ellsberg rejeitaram o argumento de Schlesinger segundo o qual as autoridades eram otimistas demais e tinham presciência de menos. Em vez disso, eles viam autoridades pessimistas no geral, reconhecendo que o próximo passo na escalada militar não seria suficiente e que passos adicionais teriam de ser dados só para manter o impase. A vitória não seria factível, e os presidentes optaram pelo impasse – a alternativa menor pior. Os presidentes não tinham uma estratégia clara de saída além da esperança de que o inimigo fosse se exaurir, ou que o problema pudesse ser empurrado para o próximo presidente.

Em vez de culpar os burocratas estabanados, Gelb argumenta que "o sistema funcionava". A burocracia fazia exatamente o que pediam as alta autoridades: evitar perder o Vietnã durante mais de uma década. Na verdade, o problema estava na crença subjacente – e nunca questionada – de que o Vietnã era de interesse vital para os Estados Unidos.

Quem estava certo?

Eu argumentaria que Gelb e Ellsberg apresentam razões mais convicentes que Schlesinger. Insistir de forma estabanada dava aos presidentes uma alternativa mais segura no curto prazo que as opções de bater em retirada ou escalar o conflito.

Uma dinâmica semelhante parece ocorrer na abordagem americana em relação ao Afeganistão. Os presidentes Bush, Obama e Trump todos aceitaram o impasse, em vez de adotar as posições mais arriscadas de saída ou escalada decisiva. Contra a insurgência entrincheirada do Taliban, a política americana se orienta pela necessidade de impedir o colapso total dos fracos aliados locais, não para obter uma vitória militar. Até mesmo o envio de mais tropas determinado pelo presidente Barack Obama atendeu a menos da metade do pedido original dos comandantes militares. Por outro lado, Obama depois voltou atrás no prazo que anunciara para uma retirada completa, optando por manter 11 000 soldados no país. Trump também voltou atrás de promessas de sair do Afeganistão, e enviou mais tropas.

Talvez a lógica da máquina do impasse esteja embutida no conceito de guerra limitada. Ou talvez ela seja uma consequência previsível de como os presidentes lidam com as restrições impostas pela política americana. De qualquer maneira, a história dos envolvimentos militares no Vietnã e no Afeganistão deveriam servir de alerta para futuros presidentes tentados a mais uma vez subir na esteira da guerra perpétua.

40 aniversario guerra Vietnam