ENTRETENIMENTO

Do Egito antigo a MC Livinho: Um breve tratado sobre a origem do bigode

Deixe o barbear de lado e siga em frente.

22/09/2017 19:02 -03 | Atualizado 13/10/2017 12:10 -03

O bigode está em alta. MC Livinho e Matheus Carrilho, da Banda Uó e parceiro de Pabllo Vittar na música Corpo Sensual, estão aí para provar isso. Porém, esse visual não é para qualquer um. Menos casual, ele exige uma boa dose de autoafirmação e também senso estético de quem o cultiva.

No início deste século 21, o bigode foi transformado em um acessório de moda, assim como a barba cheia adotada pelos chamados hipsters. Mas a presença de bigode na sociedade ocidental não é recente.

A história desses pelos no rosto é antiga e cheia de reviravoltas.

Monstagem/Reprodução/Instagram
Artistas com milhares de fãs em todo o Brasil, MC Livinho e Mateus Carrilho ostentam seu medo seus bigodes.

O surgimento

O origem do bigode é incerta. Sabe-se que existem desenhos e outros registros de homens portando pelos acima dos lábios desde o Egito Antigo. Já a palavra bigode (bigoth) provavelmente nasceu do termo visigoth - ou visigodos, germanos que viviam na Península Ibérica durante a Idade Média, que ficaram conhecidos por ter grandes bigodes.

De Agostini / A. Dagli Orti via Getty Images
Estátua de Rahotep, funcionário com bigode do reinado de Sneferu - quarta dinastia da civilização egípcia.

Os germanos exclamavam com frequência as palavras "bei Gott", ou "por Deus". Os termos eram desconhecidos dos ibéricos, que passaram chamar o homens com pelos sobre os lábios de "bigod". Com o passar do tempo, a palavra deixou de fazer referência aos germanos, assumindo o significado do que todos conhecem hoje como bigode.

Os diferentes significados

Para além da questão estética, o bigode já teve função social bem demarcada na Ocidente.

"Um marco do bigode foi a queda dos reis franceses no século 19. Os monarcas da Era dos Luises sempre foram os mais empolados. Eles se maquiavam e foram os precursores do salto alto. Com a queda, durante a Revolução Francesa, os homens da elite deixaram o visual extravagante de lado" , afirma a historiadora especialista em moda Andreia Mirón.

No século 19, os homens do meio industrial assumiram um estilo composto por barba, bigode e cartola. "A cartola fazia alusão ao tamanho da chaminé da qual o indivíduo era dono. Nesse período, barba e bigode se tornaram algo regular. Tanto que o homem usava o termo 'fazer a barba e o bigode' também ao se referir a uma ida ao prostíbulo", completa a historiadora.

No início do século 20, o traço de pelos no rosto chegou a ser obrigatório apresentação de soldados de soldados europeus.

Hulton Deutsch via Getty Images
Winston Churchill com oficiais do exército francês: bigode em alta.

A ascensão da ideia de que um rosto lisinho significava civilidade e higiene fez com que o bigode e a barba caíssem em desuso nas décadas seguintes. Nos anos 70, o bigode ressurgiu glorioso. Até então símbolo de masculinidade e virilidade, ele foi incorporado pela comunidade LGBT.

Mafiosos e cafajestes bigodudos de filmes hollywoodianos passaram a dividir espaço com os integrantes ícones pop, como os integrantes do Village People e Freddie Mercury.

O bigode na atualidade

No início século 21, o bigode voltou a ganhar a atenção dos homens, muito por conta da campanha Movember, conhecida no Brasil como Novembro Azul.

Criada em 2003 em Melbourne, na Austrália, ela é uma campanha que incentiva homens do mundo todo a barbear o rosto no início do mês de novembro e adotar um bigode por 30 dias.

O título da campanha é uma combinação de mo (moustache/bigode) com november (novembro).

O intuito do desafio promover a conscientização do combate ao câncer de próstata e testículo – e chamar a atenção dos homens para a importância da realização de exames periódicos.

Nos últimos anos, o bigode voltou às passarelas com a retomada do estilo do anos 70. "O bigode hoje é uma distinção social, uma maneira que o homem viu como possibilidade de variação da própria imagem", acredita Andreia.

Das passarelas, o visual invadiu o cinema (no visual de atores como Brad Pitt e Joaquin Phoenix). E das telonas voltou para as ruas - tornando-se um visual cool e acessível.

O que explica esse vai e vem do visual na sociedade é a natureza autofágica da moda. "Isso significa que uma tendência é criada para posteriormente ser negada. Esse é o mecanismo que faz com que a novidade gere a necessidade da pessoa repensar a imagem", conta Andreia.

Segundo a historiadora, a ascensão do bigode nesses últimos anos vai além de uma questão de moda. "Estamos falando do comportamento de um homem que abre mão de uma composição mais tradicional para assumir um cuidado visual maior. Nesse momento, ele vai ter que ter outra pessoa cuidando dele".

Essa outra pessoa ou as outras pessoas a quem a historiadora se refere são os barbeiros, que voltaram a oferece locais só para homens nos grandes centros urbanos.

"Nós ficamos quase 150 anos sem esse local apropriado para homens. No século 19, eles tinham nos barbeiros um ambiente onde podiam falar sobre política, falar sobre mulheres", explica a historiadora. "Hoje, esses profissionais são ainda mais especializados, são visagistas, sabem trabalhar a triangulação do rosto e que têm uma noção da anatomia de como deve ficar esse bigode", finaliza.

Para quem ainda não se sente 100% seguro em assumir um belo bigode, Andreia Mirón dá uma duas dicas importante: "A pessoa precisa procurar um profissional qualificado e ter consciência de que essa excentricidade não vai fazer só parte da imagem dele. Ela vai compor o comportamento, a roupa e a maneira como ele está querendo ser visto pelas outras pessoas."

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