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Na Alemanha de 2030 pessoas e coisas estarão conectadas, prevê Angela Merkel

Em entrevista exclusiva, a chanceler da Alemanha traça um panorama futurista para o país e destaca os desafios para conquistar igualdade em um mundo digital.

21/09/2017 20:08 -03 | Atualizado 21/09/2017 20:08 -03
Reinhard Krause / Reuters
Merkel está em campanha para conquistar o quatro mandato de chefe de governo.

Já pensou que carros sem motoristas andando nas ruas pode se tonar algo natural? Assim como redes digitais com total controle na agricultura de modo sustentável? Parecem preocupações distantes, mas para a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, são reais e imediatas.

Em campanha pelo quarto mandato de chefe de governo a ser decidido no próximo dia 24, Merkel conversou com o Focus Online - parceiro do HuffPost Alemão - sobre a Alemanha futurista de 2030 e quais caminhos serão adotados para chegar até lá com garantia de igualdade.

A chanceler parte da premissa de que em dez anos "as pessoas não apenas estarão conectadas através de seus smartphones, como estão hoje, mas também, para falar em termos simples, através de coisas".

Para ela, até as escolas vão precisar mudar para se adaptar ao avanço da tecnologia. "É claro que o que e como os alunos aprendem vai mudar. A leitura, a escrita e a aritmética continuarão a ser fundamentais, mas habilidades básicas de programação também serão ensinadas", acredita.

"Precisamos promover a alfabetização em mídias digitais, para que os alunos possam aproveitar a revolução digital ao máximo e para que aprendam como manejar com responsabilidade suas próprias informações e as de outras pessoas."

Redes sociais

Os algoritmos que hoje pautam o que é difundido nas redes sociais também estão na mira da chanceler. Ela acredita que, por limitarem a diversidade de opinião, eles também limitam as pessoas.

"Se todo o mundo toma conhecimento apenas de informações parciais, e quando falta uma base compartilhada de conhecimentos e fatos sobre a qual podemos basear nossas opiniões, isso muda o modo como as opiniões são formadas na sociedade."

Leia a íntegra da entrevista.

Focus Online: Qual será a cara da Alemanha no ano 2030? Quais são os objetivos que a senhora busca?

Angela Merkel: O objetivo de meu trabalho é que a Alemanha continue a ser um país forte e bem-sucedido daqui a dez ou 15 anos; um país que oferece bons empregos a mais pessoas do que hoje e que seja socialmente justo.

Como a senhora pretende chegar a isso?

Precisamos formar os trabalhadores qualificados necessários ou permitir que esses profissionais trabalhem na Alemanha, através de uma Lei de Imigração de Mão-de-Obra Qualificada, voltada para esse fim. A Alemanha vai se transformar em consequência da digitalização. Espero que até 2030 tenhamos uma rede nacional de gigabytes que, entre outras coisas, será um pré-requisito importante para ampliar o número de veículos autônomos (sem motorista) que transitam nas ruas. Veremos conceitos inteiramente novos, especialmente na área da mobilidade – sobretudo nas regiões urbanas, mas também nas áreas rurais. A zona rural, e em especial a agricultura, dependem de redes digitais eficientes para poder operar de maneira economicamente bem-sucedida e ambientalmente favorável, também no futuro. Vamos assegurar o acesso dos cidadãos a quase todos os serviços do Estado através de um portal digital dos cidadãos. Todas as pessoas terão uma conta de cidadão que especificará exatamente quem tem acesso a esses dados. A transparência e a proteção de dados exercerão um papel importante nisso. O progresso digital, também no sistema de saúde, pode proporcionar mudanças importantes e positivas para as pessoas. Enquanto isso, a telemedicina ganhará importância muito maior, especialmente em áreas rurais.

Qual é, a seu ver, o potencial futuro das empresas alemãs e da economia da Alemanha?

Dentro de dez anos, as pessoas não apenas estarão conectadas através de seus smartphones, como estão hoje, mas também, para falar em termos simples, através de coisas. Os fabricantes vão se comunicar com seus produtos, por assim dizer; cada parafuso presente em uma máquina sempre estará conectado com a produção que deu lugar a ele, pelo tempo que seu ciclo de vida durar. Consertos e manutenção serão realizados de maneira muito diferente. Já estamos assistindo a muito disso hoje. Todo o campo da inteligência artificial exercerá um papel crucial. Por essa razão é tão importante continuar a fortalecer institutos como a Sociedade Max Planck e organizações semelhantes.

A senhora tem a impressão de que o mundo corporativo ainda está envolvido demais com a velha economia e que a transição para o mundo digital ainda não foi realizada no mesmo grau alcançado por outros países?

Já estamos bastante bem posicionados na chamada Industrie 4.0 e nos esforços para padronizar a internet das coisas. Isso se aplica não apenas às grandes empresas, mas também a muitas pequenas e médias empresas. O setor de ofícios especializados também vem adotando a digitalização rapidamente. Não estou muito preocupada com a influência de nossa economia no que diz respeito à digitalização dos processos de produção.

Então onde existe espaço para melhorias?

Precisamos recuperar algum atraso no que diz respeito às relações entre as empresas e seus clientes. Há um número cada vez maior de grandes provedores asiáticos e americanos online que querem conseguir produtos locais. Do outro lado da equação estão os fabricantes desses produtos na Alemanha, que precisam aprender a personalizar muito mais suas relações com seus clientes. Se controlarmos essa interface de intersecção entre fabricantes e clientes, se outros não dominarem as vendas com suas ofertas digitais, vamos evitar a possibilidade de nos tornarmos uma bancada de trabalho extensa. Precisamos absolutamente dar certo nisso.

Uma mudança fundamental está por vir em maio do próximo ano, sob a forma da Diretiva ePrivacidade. Com ela, será impossível rastrear uma pessoa através de cookies normais. Isso significa que as pessoas vão precisar de um único login, e o problema neste país é que Google, Facebook e Amazon dispõem de muito mais dados. Como pretendemos impedir que Google, Facebook e Amazon ganhem poder excessivo?

Precisamos garantir a igualdade de acesso aos dados, também para os pequenos fornecedores. Isso tem um impacto sobre a determinação de prioridades, por exemplo, a questão de onde eles emergem e onde ocorre o contato com os consumidores. É importante garantir que nem tudo seja automaticamente direcionado aos grandes fornecedores. Essa Diretiva lança uma luz mais importante nesse contexto. Para explicar em termos simples, precisamos garantir que os pequenos fornecedores também tenham acesso aos consumidores. Não é fácil porque nós, sem conhecermos os algoritmos de modo detalhado, precisamos garantir que esses algoritmos ofereçam oportunidades justas para todos. Já vimos, por exemplo, como o Facebook modifica seus algoritmos constantemente, de modo que você nunca sabe o que lhe está sendo oferecido. Se você acessa essa plataforma com pouca frequência, as mudanças se mostram consideráveis.

Há o seu feed pessoal que é personalizado de tal maneira que você só vê aquilo que corresponde aos seus interesses.

É verdade. E é precisamente por isso que precisamos ficar de olho, já que isso limita a diversidade de opinião, é claro. Quando recebemos apenas aquilo do qual provavelmente vamos gostar, somos tremendamente limitados.

E isso, novamente, exerce impacto enorme sobre a sociedade como um todo.

É claro. Se todo o mundo toma conhecimento apenas de informações parciais, e quando falta uma base compartilhada de conhecimentos e fatos sobre a qual podemos basear nossas opiniões, isso muda o modo como as opiniões são formadas na sociedade.

A senhora mencionou as empresas menores. Como pode assegurar que elas não serão potencialmente impedidas de entrar no mercado em primeiro lugar devido à falta de influência financeira?

Para começar, é extremamente importante também ligar as áreas rurais à internet de banda larga. Em segundo lugar, precisamos estabelecer padrões. O Governo Federal montou a plataforma Industrie 4.0 especialmente para as pequenas e médias empresas, para ajudá-las a se lançarem na internet das coisas.

Mas a senhora não acha que seria o caso, também, de considerar incentivos fiscais?

Recentemente adotamos concessões fiscais para start-ups, que devem ter a possibilidade de crescer. E queremos fazer com que as despesas com pesquisa possam ser deduzidas do imposto a pagar.

A senhora acaba de mencionar o acesso à internet de alta velocidade. Há discussões em curso com a Deutsche Telekom sobre como continuar a promover a rede de fibra ótica? Muitas áreas da empresa ainda têm internet fornecida por cabos de cobre.

Sim. Por um lado, injetamos ímpeto considerável na chamada vetorização para alcançar a meta dos 50 megabits por segundo. Quando trabalhamos na área dos gigabits, primeiro teremos que usar uma rede básica de banda larga, ou de fibra ótica ou de cobre. Isso pode então ser suplementado com o padrão de 5G para alcançar maior eficiência. Estabelecemos a aliança da rede. É claro que estamos trabalhando para garantir que todos possam desfrutar as mesmas condições de investimento. Pretendemos leiloar domínios de frequência adicional. Ademais, os serviços de fibra ótica poderão ser aprimorados nas áreas rurais ou uma cobertura de celular de alta performance pode ser oferecida nessas regiões.

A senhora acaba de mencionar que haverá um impacto sobre os locais de trabalho. Podemos supor que determinados tipos de trabalho vão deixar de existir. Como podemos assegurar que as pessoas cujos trabalhos se tornam obsoletos não fiquem para trás? Não seria hora de considerar a possibilidade de uma renda básica universal, afinal?

Não acredito numa renda básica universal. Estou convencida de que vamos conseguir ir adaptando as carreiras continuamente para atender às necessidades do momento. O número de pessoas empregadas não vai necessariamente diminuir, mas o tipo de trabalho que as pessoas fazem vai mudar. Haverá mais trabalhos ligados à programação, criação de aplicativos, no atendimento ao consumidor, etc. Precisamos agir desde já e criar os programas corretos de formação profissional. Também precisamos informar as crianças e os jovens sobre onde estão as oportunidades de emprego. E precisamos assegurar que as escolas estejam bem equipadas para preparar os alunos para a vida após a escola. Portanto, o Governo Federal vai ajudar a disponibilizar currículos modernos através da chamada E-Nuvem, à qual todos terão acesso. Acho que isso será um dos focos de nossa política educacional nos próximos quatro anos.

Levando em conta o que a senhora disse, será que os métodos de ensino padronizados, aqueles que conhecemos desde sempre, serão mantidos, ou as escolas vão precisar mudar?

As escolas vão precisar mudar, e essa mudança já está encaminhada em muitas escolas. É claro que o que e como os alunos aprendem vai mudar. A leitura, a escrita e a aritmética continuarão a ser fundamentais, mas habilidades básicas de programação também serão ensinadas. Precisamos promover a alfabetização em mídias digitais, para que os alunos possam aproveitar a revolução digital ao máximo e para que aprendam como manejar com responsabilidade suas próprias informações e as de outras pessoas.

Por quanto tempo podemos permitir que a educação fique a cargo dos Estados federais, sendo que os padrões variam tremendamente entre alguns deles?

Compreendo realmente que muitos pais não queiram mais ouvir discussões sobre a quem compete a responsabilidade da educação. O que é muito mais importante para eles é que as escolas estão mal equipadas ou nem sequer estão ligadas à internet. Mas as responsabilidades precisam ser definidas com clareza, e o Governo Federal acredita que compartilha essa responsabilidade. Por isso criamos uma emenda à Lei Básica, para que as escolas possam ser reequipadas e modernizadas. Vamos também concluir um acordo com os Estados sobre o ensino digital, para as escolas possam receber assistência em algumas áreas.

Não precisamos que os professores sejam mais bem qualificados, ou não precisamos de professores mais jovens, para que o uso das mídias digitais possa possa ser ensinado a crianças que já nasceram em contato com a internet?

Precisamos oferecer opções melhores de formação adicional aos professores. Estou certa de que muitos professores estão motivados. O que eles precisam é de tempo para cursar mais programas de formação.

A participação das pessoas em igrejas, sindicatos e associações vem diminuindo. Estamos nos tornando uma sociedade composta de muitos indivíduos autocentrados, até mesmo egocêntricos?

A revolução digital nos coloca desafios nessa área também. Todo o mundo pode rapidamente encontrar uma tribo de indivíduos de pensamento semelhante ao seu com quem reagir, mesmo sem jamais encontrá-los cara a cara. Mas só vale a pena viver em sociedade se nos encontramos concretamente e realmente damos apoio uns aos outros. Sinto-me muito encorajada pelo fato de que, dos 82 milhões de habitantes de nosso país, mais de 30 milhões optam por fazer trabalho voluntário. Queremos promover o trabalho voluntário, por exemplo dando apoio ao Serviço Voluntário Federal, que todos os anos recebe mais candidatos do que as vagas disponíveis. Também criamos vagas adicionais para pessoas que trabalham com refugiados, e eu gostaria de manter essas posições. É um bom sinal, afinal, o fato de tantos jovens se disporem a oferecer seu tempo voluntariamente para ajudar a outros.

A senhora acredita, como nós, que integrar pessoas de origem imigrante será o maior desafio enfrentado por nossa sociedade nos próximos anos?

Deixe-me colocar a questão em termos um pouco diferentes: acredito que nosso maior desafio é manter uma coesão social firme na era digital. Parte dessa tarefa consiste em integrar as pessoas à sociedade. Muitas pessoas, especialmente jovens, já estão plenamente investidas na revolução digital e a encaram como algo instigante, enriquecedor, que oferece muito para ser descoberto e usado e que também é divertido. Há outros que temem que seus empregos vão desaparecer. É claro que haverá mais profissões que vão exigir maior know-how. É por isso que a educação precisa ser reforçada para todos, sem converter todos em acadêmicos. Em vez disso, precisamos reforçar a formação profissionalizante e assegurar que ela atenda às demandas do local de trabalho na era digital. Com certeza precisamos fazer mais para trazer migrantes e refugiados para dentro da força de trabalho. Ao mesmo tempo, porém, precisamos ajudar as pessoas de famílias de instrução mais baixa. Nos próximos quatro anos, pretendo voltar atenção especial aos desempregados de longo prazo. Uma prioridade durante o próximo mandato legislativo será ajudar essas pessoas a encontrar trabalho e reingressar na força de trabalho.

O que teremos que ter realizado até o ano 2030 em termos de integração, considerando que hoje as pessoas de origem imigrante correm risco maior de cair na pobreza?

Fizemos algum progresso. No início de meu primeiro mandato como chanceler, criei na Chancelaria Federal o posto de Comissário do Governo Federal para a Migração, os Refugiados e a Integração, para elevar o perfil dessa questão. Nosso relatório regular sobre a integração aponta para os avanços conquistados, por exemplo com respeito à porcentagem de alunos que obtêm o certificado de conclusão do ensino fundamental. Mas ainda resta muito a ser feito. Ainda existe um desnível grande entre os jovens de origem imigrante e os jovens sem essa origem. Hoje, pelo menos, a geração mais jovem tem oportunidades muito maiores que no passado de participar na sociedade, graças ao direito legal às creches e à pré-escola.

Com o aumento do número de migrantes no país, muitas pessoas estão preocupadas e perguntam como será a cara de nossa sociedade em 2030. A Alemanha vai conservar sua cultura predominantemente judaico-cristã – ou seja, ocidental?

É evidente que nosso país vai continuar firmemente enraizado nessa cultura e guiado por ela. Ao mesmo tempo, 4 milhões de muçulmanos vivem na Alemanha. Também eles contribuem para nossa prosperidade, e eles fazem parte igual da Alemanha e ajudam a moldar nossa sociedade. Os valores e as regras consagradas na Lei Básica se aplicam a todos, sem exceções. Elas não estão escritas em papel, mas formam a base de nossa coexistência.

Então vamos continuar a ter o domingo de folga, e não a sexta-feira?

É claro que sim.

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