ENTRETENIMENTO

Feminismo, ambientalismo, religião ou política: Tudo é possível em ‘Mãe!’

Novo filme do diretor de ‘Cisne Negro’ e ‘Réquiem para um Sonho’ com certeza é um dos mais perturbadores do ano.

21/09/2017 15:35 -03 | Atualizado 25/09/2017 11:08 -03
Divulgação
Na história com Javier Bardem (à esq.) e Jennifer Lawrence, todo limite é rompido.

Em um belo casarão de estilo vitoriano no meio do mato, mora o casal interpretado por Jennifer Lawrence e Javier Bardem em Mãe! (Mother!, 2017), novo filme de Darren Aronofsky. Pouco sabemos a respeito do passado de ambos, mas a rotina manda a letra: ele é um poeta egocêntrico e narcisista servido de (quase) todas as maneiras pela paciente esposa. Um severo caso de bloqueio do escritor o impede de produzir, e um severo caso de vista grossa a impede de dar-lhe um pé-na-bunda.

Enquanto ela providencia as refeições e ele arranca os cabelos diante do papel em branco, surgem na porta de casa dois estranhos, vividos por Ed Harris e Michelle Pfeiffer. Eles são marido e esposa e, para o azar de Jennifer Lawrence, péssimos convidados também. Ela sequer os deseja ali, mas o marido faz questão de abrir a casa para os desconhecidos. Não diferente do primeiro casal, pouca informação nos é dada a respeito do segundo. A partir daí, a palavra "inferno" se torna suave demais para definir o que a protagonista vive.

"Ao mostrar a tragédia, você pode, na verdade, revelar a luz", disse o diretor em entrevista coletiva à imprensa na última terça-feira (19), em São Paulo. "O capítulo final do nosso relacionamento com a mãe natureza ainda não foi escrito."

Aronofsky e Lawrence não têm economizado explicações a respeito do enredo (caso você prefira se privar de qualquer informação, é melhor parar de ler esta reportagem por aqui e voltar a ela só depois de ver o filme. Escapar das entrevistas concedidas pelo cineasta e pela atriz é uma boa ideia também). O longa-metragem, afirma Aronofsky, é essencialmente uma parábola sobre a degradação do meio ambiente praticada pelo homem. Algumas metáforas bíblicas ajudam deixar a mensagem clara. O personagem de Lawrence, Bardem, Harris e Pfeiffer são, respectivamente, a mãe natureza, Deus, Adão e Eva.

No entanto, esta não é a única leitura possível para o novo trabalho do diretor dos também perturbadores Cisne Negro (2010) — pelo qual ele foi indicado ao Oscar —, Réquiem para um Sonho (2000) e Pi (1998).

Em entrevista à Variety, a protagonista diz considerar a obra "incrivelmente feminista". "Por acaso, eu estava lendo Jane Eyre [de Charlotte Brontë] e depois eu li Vasto Mar de Sargaços [de Jean Rhys]. Esses romances vitorianos e patriarcais mostram maridos amáveis e incríveis tirando lenta e delicadamente a dignidade de suas esposas."

"Para o filme ser feminista, não precisamos todos ser mulheres e agressivos. Antes de sabermos o que o feminismo é, já escreviam esses romances que mostram a força de mulheres sendo sugada delas."

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Darren Aronofsky na coletiva em São Paulo: a estampa '#todospelaamazonia' na camiseta não nega que a defesa do meio ambiente é urgente para o cineasta.

Mãe! não é o único filme norte-americano lançado neste ano que retrata anfitriões perdendo as estribeiras com hóspedes indesejados e invasões. O Estranho Que Nós Amamos, de Sofia Coppola, mostra um grupo de mulheres que recebe em casa um homem misterioso. Tudo muda quando o sujeito se revela como uma possível ameaça, e não um convidado. Já o rocambolesco Corra!, assinado por Jordan Peele, mostra um jovem negro conhecendo a família de sua namorada branca. Embora não seja necessariamente um invasor, o protagonista percebe que não é um hóspede, mas um alvo. Será que os cineastas norte-americanos querem denunciar um invasor no cenário político do país? Talvez ainda seja a ressaca das eleições do ano passado?

"Eu duvidaria disso", conta o diretor, que também assina o roteiro. "Fazer cinema leva muito tempo. Eu escrevi Mãe! em 2015, no oitavo ano do governo Obama. É uma coincidência ou, não sei, trágico, sair no primeiro ano de Trump."

"Imagino que os filmes de Jordan e Sofia tenham sido concebidos antes de Trump ser eleito e, como todo mundo no planeta, nós nunca achamos que isso seria possível até o dia seguinte à eleição. Alguns de nós ainda não acredita que é possível."

O nova-iorquino — cujo sotaque não nega as raízes no Brooklyn — persiste na metáfora da natureza sendo destruída por uma sociedade ingrata. É uma história contada do ponto de vista do planeta Terra e como não valorizamos os recursos que ele nos oferece. "Estou feliz por estar junto com esses cineastas", pondera.

Niko Tavernise
A casa, em formato octagonal, é um organismo vivo ligado à personagem de Jennifer Lawrence.

Não diferente de seus trabalhos anteriores, Aronofsky, a prata da casa do cinema de baixo orçamento feito nos Estados Unidos, retrata em seu sétimo longa-metragem personagens em situações enlouquecedoras e cenas aflitivas. Mais uma vez, nós acompanhamos a protagonista em um vertiginoso trajeto em alta velocidade espiral abaixo.

Durante toda projeção, acompanhamos a história de três ângulos de câmera: sobre o ombro da protagonista, o ponto de vista dela, ou com foco em seu rosto. A forma da casa lembra a de um octógono, o que permite a câmera também girar em torno da cabeça da atriz. É uma maneira de todos mergulharmos no arco da personagem, formado por uma improvável sequência de acontecimentos estarrecedores. Talvez seja este um dos motivos por que a recepção crítica tem sido polarizada; no último Festival de Veneza, houve vaias e aplausos entusiasmados na exibição. Pode ser que Mãe! seja estarrecedor até demais para alguns, no fim das contas.

"Quando você dá um soco, algumas pessoas vão gostar e outras vão querer bater de volta", defende-se. "E eu sabia que seria bastante divisivo e bastante intenso para as pessoas. Meu estilo pessoal precisa ir a esse lugar hiper-agressivo para ser de todo realizado."

Entretanto, como disse ao cineasta Hubert Selby Jr., autor do livro que deu origem a Réquiem para um Sonho, "ao olhar nos lugares escuros, você vê a luz" — um lema que o Aronofsky deixou claro levar a sério — e, assim como para alguns de seus personagens, pode haver redenção para nós no fim.

"Sou bastante otimista e acho que a paixão por trás desse filme foi a esperança. Acho que ainda há tempo para mudar."

Que assim seja.

Mãe! estreia nesta quinta-feira (21). Tem duração de 121 minutos e classificação indicativa 16 anos. A distribuição é da Paramount.

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