ENTRETENIMENTO

O herói de 'A Fantástica Fábrica de Chocolate' era originalmente negro

Mas a agente literária de Roald Dahl o convenceu a fazer Charlie Bucket ser branco.

20/09/2017 22:00 -03 | Atualizado 22/09/2017 11:25 -03
Silver Screen Collection via Getty Images
Peter Ostrum no papel de Charlie Bucket e Gene Wilder como Willy Wonka, no set de “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, em 1971.

Gerações de leitores cresceram lendo o famoso livro infantil A Fantástica Fábrica de Chocolate (Charlie and the Chocolate Factory), de Roald Dahl. Mas o livro amado sobre um menino pobre que ganha um bilhete dourado para fazer um tour pela fábrica mágica de doces do gênio recluso Willy Wonka quase teve cara muito diferente.

Na quarta-feira a viúva do escritor, Liccy Dahl, contou à BBC Rádio 4 que quando seu falecido marido primeiro idealizou Charlie and the Chocolate Factory, o protagonista era "um garotinho negro". Quanto ao porquê de isso ter mudado, ela disse: "Não sei. É uma pena."

Quem aventou uma resposta foi o biógrafo de Roald Dahl, Donald Sturrock, que explicou: "Foi a agente dele quem achou, quando o livro primeiro foi lançado, que não seria boa ideia que o herói fosse negro".

Embora seu nome não tenha sido especificado na entrevista à BBC, a agente literária em questão foi provavelmente Sheila St. Lawrence. Ela e sua predecessora Ann Watkins são descritas como tendo exercido grande influência sobre Roald Dahl ao longo de toda a relação de trabalho que tiveram com o escritor. Em 2015 Sturrock disse à revista Vanity Fair que St. Lawrence trabalhou estreitamente com Dahl sobre Charlie and the Chocolate Factory, aconselhando-o a enxugar parte da narrativa amalucada e reduzir o elenco originalmente imenso de personagens.

Parece que ela também levou Dahl a mudar de ideia quanto a fazer Charlie Bucket ser um garoto negro. "Sheila disse que as pessoas perguntariam 'por quê?"", explicou Sturrock.

O raciocínio descrito por Sturrock ilustra um desafio frequentemente enfrentado por escritores de cor: as editoras sempre enxergaram as pessoas brancas como o padrão e esperavam que um personagem só não fosse branco se sua raça exercesse um papel específico na história. Até pouco tempo atrás, a representação étnica diversificada em livros não era vista pelo establishment literário como algo que tivesse valor inerente. Mas isso começou a mudar, em grande medida graças a grupos ativistas como o We Need Diverse Books.

Ronald Dumont via Getty Images

O incidente também revela como o fenômeno de "pintar personagens de branco" pode acontecer em vários pontos do processo criativo na indústria de entretenimento. Charlie and the Chocolate Factory acabou sendo protagonizado por um menino branco, e o mesmo aconteceu com os dois filmes baseados no livro, que tiveram atores brancos representando Charlie e os outros membros da família Bucket.

Roald Dahl, que nasceu em 13 de setembro de 1916, não apenas fez a concessão de tornar o herói do livro branco como atraiu críticas devido aos personagens Oompa Loompas, racialmente problemáticos. A Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP) e outras entidades argumentaram que os operários da fábrica de chocolate, mostrados originalmente como sendo pigmeus africanos, reforçavam narrativas prejudiciais sobre trabalho escravo africano. Dahl argumentou que sua intenção era antirracista, explicando: "Eu via os Oompa Loompas como criaturas encantadoras, enquanto as crianças brancas no livro eram altamente desagradáveis". Mas ele se deixou persuadir pelos críticos e, em 1973, reescreveu os personagens, convertendo-os em seres de pele clara e cabelos longos, vindos de uma ilha fantástica.

Apesar de seus elementos que dividiram opiniões, Charlie and the Chocolate Factory permanece há décadas como um dos livros infantis mais amados de Roald Dahl. Mas, agora que veio à tona esta nova informação sobre a história passada de Charlie, talvez seja hora de termos uma nova edição do livro. Liccy Dahl achou que sim, dizendo à BBC Rádio 4 que seria maravilhoso ver o livro retrabalhado com um Charlie negro, conforme a ideia original de seu marido.

O livro já foi transposto ao cinema em dois filmes grandes, um dos quais o blockbuster A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005), de Tim Burton. Mas esta notícia pode indicar que é hora de se criar uma nova adaptação. Atenção, Hollywood!

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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