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Exclusivo: Novo estudo comprova aumento de crimes de ódio na era Trump

Dados obtidos pelo HuffPost indicam que os crimes de ódio aumentaram nos EUA em 2016. Os números de 2017 também não parecem nada bons.

23/09/2017 09:17 -03 | Atualizado 23/09/2017 09:17 -03

Mohammad Khursheed / Reuters
Mesquita destruída em incêndio na cidade de Victoria, Texas, em janeiro. A polícia prendeu Marq Vincent Perez, 25, que foi indiciado por crime de ódio.

O número de crimes de ódio aumentou nos Estados Unidos em 2016, marcando a primeira vez em mais de uma década que o país experimentou aumentos anuais consecutivos em crimes motivados por raça, religião, sexualidade, deficiência ou origem nacional.

Os dados coletados pelo Centro para o Estudo do Ódio e do Extremismo na Universidade Estadual da Califórnia, em San Bernardino, e fornecidos com exclusividade ao The Huffington Post, mostram que os crimes de ódio aumentaram cerca de 5% de 2015 a 2016.

O estudo, preparado pelo professor Brian Levin, é visto como uma previsão confiável das estatísticas oficiais de crimes de ódio do FBI, lançadas anualmente em novembro. As conclusões de Levin para 2016 representam os dados mais abrangentes até o momento sobre crimes de ódio no ano da recente eleição presidencial e sustentam os indícios alarmantes de fanatismo no país.

De acordo com Levin, o estudo encontrou aumentos "quase idênticos" em crimes de ódio em dois conjuntos de dados distintos.

O primeiro conjunto de dados consiste de números de crimes de ódio informados por forças policiais de 31 grandes cidades e condados, incluindo as 10 maiores cidades americanas. O estudo apurou 2 101 crimes de ódio, um aumento de quase 5% em relação aos números do ano anterior.

Das cinco maiores cidades do país, todas, com a exceção de Houston, apresentaram aumentos percentuais de dois dígitos, disse Levin.

Os crimes de ódio em Chicago aumentaram 20% em 2016; 24%, em Nova York; 15%, em Los Angeles; e 50%, na Filadélfia. A cidade com o maior aumento nos crimes de ódio foi a capital do país, Washington, que registrou aumento de 62%.

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Das 31 cidades pesquisadas, disse Levin, 15 tiveram totais que representam a maior alta em anos. Das 13 cidades e municípios que apresentaram declínio, a maioria corresponde a áreas que historicamente têm baixos números de crime de ódio.

Também notável nos dados das cidades: das sete que detalharam crimes de ódio antimuçulmanos em 2016, seis viram aumentos nessa categoria. Nacionalmente, em 2015, os crimes de ódio contra muçulmanos aumentaram 67%.

O segundo conjunto de dados no estudo de Levin consiste de números de crimes de ódio fornecidos por 13 Estados, incluindo 5 dos 10 mais populosos dos Estados Unidos. Houve 3 887 crimes de ódio nos 13 Estados em 2016, de acordo com Levin, representando um aumento de quase 5% em relação aos 3 705 contabilizados no ano anterior.

Embora alguns Estados tenham registrado aumentos substanciais nos crimes de ódio, outros tiveram diminuição. O Tennessee, notadamente, viu uma queda de 30% nos crimes de ódio.

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"Se esses aumentos globais moderados de 5% se mantiverem em nível nacional em 2016, será a primeira vez desde 2004 que o país teve aumentos anuais consecutivos dos crimes de ódio", disse Levin. Os crimes de ódio aumentaram quase 7% entre 2014 e 2015.

O estudo de Levin projeta -- com um "grau de confiança ligeiramente maior do que moderado", disse ele -- de 6 069 a 6 245 crimes de ódio registrados no Relatório Unificado de Crimes do FBI para o ano passado, marcando o maior número de crimes de ódio desde 2012, outro ano de eleição presidencial.

Desde que o FBI começou a coletar estatísticas de crimes de ódio, no início da década de 1990, a agência sempre registrou aumentos em anos de eleição presidencial, algo que Levin acredita estar associado a um acirramento das divisões políticas.

Mas 2016 foi notável pelos "aumentos significativos" nos crimes de ódio no período em torno do dia da eleição, disse ele.

"O que foi tão incomum em 2016 -- com exceção do Centro-Oeste -- e particularmente entre as maiores jurisdições com os melhores dados, foi um pico claro e dramático para o período eleitoral, diferente de qualquer coisa que eu possa recordar na minha carreira profissional", afirmou Levin.

Los Angeles viu um aumento de 29% nos crimes de ódio no último trimestre de 2016. Nova York viu um aumento de cinco vezes nos crimes de ódio durante um período de duas semanas em torno das eleições. O Estado da Califórnia viu mais crimes de ódio em novembro, mês da eleição, do que em qualquer outro mês. Quase 15% dos crimes de ódio de Seattle no ano passado ocorreram em novembro, e os 13 crimes de ódio daquele mês foram mais que o dobro do recorde do ano anterior. A Filadélfia contabilizou sete crimes de ódio em novembro, em comparação com apenas um nos quatro meses de novembro anteriores, somados. Boston em novembro teve mais crimes de ódio do que qualquer outro mês de 2015 ou 2016.

Esse aumento nos tempos de eleição sustenta evidências anteriores coletadas pelo Southern Poverty Law Center, que documentou uma onda de incidentes de ódio horríveis nos meses que seguiram as eleições.

É provável que haja múltiplas explicações para o aumento de crimes de ódio em 2016, disse Levin, incluindo "fanatismo particularmente agudo e generalizado contra certas comunidades, como transgêneros e muçulmanos" e "incentivo e integração do nacionalismo branco".

A campanha eleitoral do presidente Donald Trump estava repleta de alvos retóricos e de bodes expiatórios, e ele muitas vezes demorou a condenar -- e, em alguns casos, pareceu sinalizar seu apoio aos -- supremacistas brancos.

A manifestação dos supremacistas brancos em Charlottesville, Virgínia, no mês passado -- o maior desses encontros em mais de uma década, de acordo com a Liga Anti-Difamação -- viu muitos supremacistas brancos erguendo cartazes pró-Trump, cantando slogans pró-Trump ou usando bonés com o slogan "Make America Great Again".

Depois de um neonazi atacar uma multidão com um carro, matando uma mulher e deixando 19 feridos, Trump se recusou a condenar especificamente os supremacistas brancos. Ele disse mais tarde que havia "pessoas boas" em "ambos os lados" das manifestações de Charlottesville -- uma declaração que ele repetiu esta semana.

Levin e outros especialistas em ódio e extremismo expressaram preocupação com o fato de que a retórica de Trump pode ter relação com um aumento contínuo dos crimes de ódio. Levin encontrou um aumento marcante dos crimes de ódio contra muçulmanos na sequência da proposta original de Trump, em dezembro de 2015, de proibir a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos.

Levin também começou a coletar dados de crimes de ódio de 2017 -- e as coisas não parecem nada boas.

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Uma análise dos dados oficiais da polícia de 13 grandes cidades, disse Levin, mostra 827 crimes de ódio até agora neste ano, um aumento de quase 20% nas cidades em comparação com o mesmo período de 2016.

As seis maiores cidades americanas registraram 526 crimes de ódio este ano, totalizando um aumento de 22%, disse Levin.

Os ataques antissemitas, antimuçulmanos e antinegros foram responsáveis por um aumento de 28% nos crimes de ódio na cidade de Nova York. Los Angeles viu um aumento de 50% nos crimes violentos de ódio, enquanto os crimes de ódio em Washington D.C. e Seattle aumentaram 22% até agora este ano. Phoenix, que experimentou um declínio nos crimes de ódio em 2016, até agora viu um aumento de 46% em 2017.

Os números de Levin para 2016 e 2017, como ele próprio admite, pintam um retrato apenas parcial dos crimes de ódio nos Estados Unidos. Seus dados, afinal, dependem de crimes contabilizados por forças policiais. Mas crimes de ódio muitas vezes não são denunciados e, em alguns casos, não são contabilizados como tal por departamentos de polícia que não têm treinamento para identificar crimes de ódio.

Isso também é verdade para a contagem anual do crime de ódio do FBI, amplamente considerada insuficiente. Mais de 3 000 agências federais, estaduais e locais de aplicação da lei não transferem seus dados de crime de ódio para o FBI, e muitas outras ou subestimam os números ou relatam, incorretamente, que registraram zero crimes de ódio.

Uma pesquisa nacional realizada pelo Departamento de Estatísticas da Justiça dos Estados Unidos descobriu que, entre 2003 e 2015, havia um número impressionante de 250 000 crimes de ódio todos os anos no país, a maioria não denunciada à polícia.

America does not do a good job of tracking incidents of hate and bias. We need your help to create a database of such incidents across the country, so we all know what's going on.Tell us your story.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Protestos contra supremacia branca