MULHERES

Para algumas mulheres, os abrigos são o último recurso contra a violência doméstica. O Harvey também os levou embora.

A tempestade afetou cerca de um quarto dos programas do Estado para mulheres que fogem do abuso.

19/09/2017 18:52 -03 | Atualizado 19/09/2017 18:53 -03
Andy Campbell/HuffPost
Mary Woods ao ver os danos que o furacão Harvey fez no abrigo contra violência doméstica em Humble, Texas.

HUMBLE, Texas – Mary Woods ficou preocupada quando tirou a última embalagem de leite da geladeira.

O furacão Harvey havia castigado o Texas uma semana antes com chuvas torrenciais, e a comida estava acabando no The Door, único abrigo para vítimas de violência doméstica na região ao norte de Houston.

Woods, 52, é uma das funcionárias do abrigo. Ela rapidamente fez uma lista dos itens prioritários: ovos, pão, fraldas, papel higiênico, frios e sucos.

As vias principais em torno do The Door alagaram por causa da tempestade, deixando presas 40 mulheres e crianças que vivem no lugar. Ninguém chegava ou saía. Quando a água começou a baixar, e as estradas voltaram a ficar transitáveis, muitas lojas ainda estavam fechadas, e o abrigo precisava de doações desesperadamente.

Woods enviou a lista para o Texas Council on Family Violence, uma coalizão de todo o Estado para questões de violência familiar, mas o órgão estava soterrado por pedidos. Mais de um quarto dos programas estaduais de violência doméstica estavam no caminho do Harvey, e virtualmente todos eles sentiram os efeitos da tempestade.

O abrigo de Beaumont ficou completamente sob a água e possivelmente não vai voltar a operar. Outro abrigo perdeu a cerca traseira, o que compromete sua segurança. Vários outros foram muito danificados. Alguns tentaram evacuar antes da tempestade, mas não tinham para onde mandar as moradoras. Não era seguro procurar as famílias, onde os maridos certamente as encontrariam. Os grandes centros de evacuação, como os mantidos pela Cruz Vermelha, também poderiam representar risco. Os hoteis estavam lotados, e mudar para outros abrigos semelhantes nem sempre era possível, pois a maioria já estava lotada.

"Tivemos de procurar cada vez mais longe", diz Gloria Terry, diretora executiva da coalizão. Ela observa que algumas mulheres tiveram de viajar mais de seis horas para encontrar vagas. Outros, como o The Door, decidiram não evacuar, acreditando que suas clientes estariam mais seguras ali mesmo.

Terry recebeu a lista de Woods no sábado, enquanto conferia freneticamente as necessidades do 32 programas afetados pela tempestade. Ela enviou a lista de Woods para várias organizações humanitárias, mas a maioria delas exigia que as doações fossem retiradas pessoalmente, algo que ela não era capaz de fazer. Horas mais tarde, o pedido chegou às mãos de Colony Soto, um ex-lutador profissional de luta livre que organizou uma central de doações no centro de treinamentos de sua empresa, na cidade de Katy, Texas.

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Colony Soto (à direita) organizou uma central de doações no centro de treinamentos de sua empresa, na cidade de Katy, Texas.

A Domination Zone Wrestling costuma receber homens e mulheres dispostos a subir no ringue. Mas, na semana passada, a academia virou um depósito para a comida excedente doada para o Elk Lodge, um hotel próximo. O ringue estava cercado de alimentos não-perecíveis, produtos de limpeza e fraldas. Soto disse ao The Huffington Post que quis ajudar assim que o furacão chegou.

Ele e seus ajudantes olharam a lista metodicamente para ver o que tinham, antes de correr pela sala e encaixotar os suprimentos. Atum, confere. Manteiga de amendoim, confere. Desinfetante e luvas de látex, confere. Uma hora depois, dois repórteres The Huffington Post transportaram os suprimentos para The Door.

Já havia uma quantidade inadequada de moradias de transição, mas quando você passa de pouco a nada -- o que você faz com isso?Gloria Terry, diretora executiva do Texas Council on Family Violence

Quando os suprimentos chegaram, Woods ainda estava ocupada, lidando com danos dos dias de chuva que o furacão Harvey despejou na cidade. A sala dos fundos do abrigo de 21 anos havia inundado, e parte do teto caiu sobre a recepção. Woods passou a maior parte da tempestade tentando evitar que a água escorresse para dentro do abrigo, enrolando lençois e pressionando-os na junção do piso com a parede. Quando um lençol estava encharcado, ela o jogava na lavadora e repetia o processo. Ela não queria que a água suja chegasse à parte da frente do abrigo, onde dormem as famílias.

Woods se orgulha de fazer o The Door parecer um lugar confortável e acolhedor. O lugar era uma residência, mas foi reformado e tornou-se um labirinto de corredores que praticamente uma trilha de migalhas de pão para ser navegado. O The Door tem uma creche e uma sala de jogos, além de quartos que abrigam pelo menos quatro mulheres cada um, com espaço extra para berços e camas de bebê. As residentes podem permanecer pelo menos 30 dias, mas muitas ficam até três meses, porque é muito difícil encontrar casas a preços acessíveis. Somente em 2016, mais de 700 vítimas buscaram abrigo de emergência no The Door.

Woods, que também é sobrevivente de violência doméstica, sabe o trauma com que suas residentes têm de lidar mesmo sem o estresse adicional da tempestade.

"Como eu disse a elas, aqui vocês estão seguras", disse ela. "Talvez não possamos sair, mas vocês estão seguras."

Woods já trabalhava no The Door nos furacões Rita, em 2005, e Ike, em 2008. As moradoras foram evacuadas antes da chegada do Rita, juntamente com cerca de 2,5 milhões de outros texanos. Elas passaram mais de 24 horas em um engarrafamento gigante na estrada. Durante o Ike, eles decidiram ficar lá mesmo, mas a casa ficou sem luz. Isso significava que o portão da frente, que usa um bloqueio eletromagnético e serve como um dos principais elementos de proteção do abrigo, estava aberto para qualquer pessoa que quisesse entrar.

"Corri para fora com um cadeado de bicicleta e tranquei o portão", disse Woods.

Alimentos e remédios são as necessidades mais imediatas e mais facilmente encontradas para vítimas de violência doméstica que acabam em abrigos como o The Door. As mulheres fogem de relacionamentos abusivos muitas vezes apenas com as roupas do corpo. Elas dependem do abrigo para ter acesso a diversos serviços, pois começam o processo complicado de reconstruir suas vidas a partir do zero. Esses recursos serão mais difíceis de encontrar depois do Harvey, disse Terry, pois milhares de outros texanos lidam com a perda de suas casas e pertences. (Doe aqui)

"Já havia uma quantidade inadequada de moradias de transição, mas quando você passa de pouco a nada -- o que você faz com isso?", disse Terry. Ela afirma que a sede da Lone Star Legal Aid em Houston, entidade que presta auxílio jurídico às vítimas de violência doméstica, foi destruída num incêndio. Terry também está preocupada com as vítimas que talvez estivessem pensando em procurar ajuda, mas agora estão espalhadas pelo estado -- provavelmente junto com seus agressores.

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Depois do furacão Harvey, o estoque de suprimentos do The Door caiu drasticamente.

Judy Cox, diretora executiva do Family Time Crisis and Counseling Center, órgão que administra o The Door, disse que um cliente de longa data havia encontrado recentemente um apartamento mobiliado para ela e seus cinco filhos – mas agora o lugar está inundado, assim como o carro da moradora.

"Ela perdeu tudo", disse Cox. "É realmente devastador. Passei por muitos furacões, mas, meu Deus, esse foi diferente."

Woods, que estava ocupada fazendo o inventário de todos os alimentos recebidos, disse que as vítimas da violência doméstica são resilientes.

"Quando elas chegam, choram e choram", disse ela. "Faz 12 anos para mim, e ainda há dias em que choro. Penso: 'Me salvei, mas está certo chorar, faz parte do processo de cura'. É importante para mim que as mulheres compreendam que podem fazê-lo também."

Contribuiu para a reportagem Andy Campbell

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Furacão Harvey: Devastação e enchentes no Texas, EUA