MULHERES

'A sociedade exige justiça por você, Mara'

Centenas de pessoas participaram da marcha organizada este domingo (17) na Cidade do México.

18/09/2017 17:08 -03 | Atualizado 18/09/2017 17:13 -03

Sandra Lucario

Desde a sexta-feira (15) estou morrendo de vontade de chorar. E de escrever. Vomito palavras. Vomito bílis. Vomito gritos. Não dá para acreditar no que está acontecendo. Mataram Mara. Isso nos doeu na alma. Nos doeu ficar sabendo que encontraram roupas dela na casa do motorista da Cabify. Nos doeu quando sua morte foi confirmada no Twitter. Quando soubemos que o sujeito a violentou e estrangulou.

Saímos em passeata.

Como saímos por Lesvy. Como saímos em passeata por Valéria. Como saímos em passeata para denunciar todas as violências.

Uma amiga diz que sair em marcha não adianta nada: "Garota, estou te dizendo que não adianta nada". Mas ela está aqui. Toda solidária. Correndo. Fotografando. Gravando vídeos. Sentindo que está fazendo alguma coisa.

Outra me fala que sentiu a marcha "triste e sem esperança. Pensei: 'E amanhã, de quem será a vez?".

Esse é o sentimento geral.

"México, você conseguiu. Estou com medo", penso, e ao pensar, me recuso a senti-lo. Porque quero ser livre. Porque sou sozinha. Vivo só há 20 anos. E resisto a ter a obrigação de avisar alguém de onde vou, quanto tempo vou ficar e avisar que já voltei. Porque resisto a ter que estar acompanhada de um homem para me sentir segura. Porque me enfurece ter medo quando ando na rua à noite.

"Quero ser livre e me sentir tranquila sendo livre", falei à minha amiga.

"Não podemos mais", ela me respondeu.

Nos abraçamos de longe.

Sandra Lucario

Vestidos de preto e roxo, centenas de mexicanos marcharam em passeata do Zócalo até a sede da Procuradoria Geral da República. O ponto de encontro foi em frente da Catedral.

Ali estavam trabalhadores que desmontavam escadas e cenários festejando a independência do México, e fãs do prefeito da Cidade do México, Miguel Ángel Mancera, que esperavam que o prefeito saísse ao balcão para agradecer aos funcionários públicos que festejaram o slogan de "cinco anos de realizações, não de política". Ali, entre eles, homens e mulheres estavam reunidos para evidenciar o verdadeiro México. Não o México dos festejos artificiais ou da padrinhagem. O México que hoje, mais que nunca, está de luto.

"Queremos justiça. Queremos que os direitos humanos sejam defendidos e respeitados. Uma coisa assim não pode acontecer com uma de nós. Muitas pensamos 'algo assim não pode acontecer conosco, porque fomos bem comportadas'. Mara fez como sua mãe lhe ensinou: escolheu um transporte seguro", disse María de la Luz Estrada, socióloga e mestre em Direitos Humanos e Democracia, coordenadora executiva do Observatório Cidadão Nacional contra o Feminicídio, enquanto ouvia os depoimentos de mulheres vítimas de violência.

Ao seu lado está Irinea Buendía, mãe de Mariana, vítima do primeiro feminicídio que chegou à Suprema Corte de Justiça do México.

Enquanto uma jovem de 16 anos dizia que "precisamos de feminismo" porque as mulheres estão sendo assediadas, violadas, assassinadas, María de la Luz Estrada exigia a implementação do Protocolo Alba, o procedimento de busca e investigação imediata para mulheres desaparecidas.

O Protocolo Alba foi instaurado em Ciudad Juárez em 1993. Em 2012 foi divulgado que o protocolo entraria em vigor em todo o país, mas o sistema de alerta só foi implementado nos Estados de Jalisco e Chihuahua. No Estado do México há o Protocolo Laranja.

Estão pedindo a aplicação do Protocolo Alba em Puebla, Tlaxcala e Veracruz.

Estrada explicou que o Observatório identificou padrões de procedimento dos criminosos: as vítimas são menores de idade e são sequestradas antes de ser assassinadas.

A aplicação do Protocolo Alba ajudaria a "evitar que um crime seja cometido".

Sandra Lucario

A sede da PGR acabou forrada de cartazes em que o Estado é acusado de feminicídio e com dizeres como "Morte ao patriarcado", "Nem a terra nem as mulheres são território de conquista", "Para cada sete mulheres assassinadas por dia no México há sete homens assassinos por dia no México", "Não são cantadas, são insultos. É meu corpo, eu me visto como eu quiser", "Dois padrões, duas medidas também é violência", "Exigimos segurança para todas", "Uma mulher desaparecida é nossa irmã, nossa mãe, nossa filha. Somos todas. Nem uma a mais!"

Ao término da mobilização, uma manifestante identificou seu suposto agressor, que depois de identificado correu para se esconder no centro comercial Reforma 222. Finalmente a Procuradoria Geral de Justiça da Cidade do México informou que foi aberto um inquérito contra o homem, acusado de assédio sexual depois de ter supostamente agredido uma mulher alguns meses atrás.

Em sua conta no Twitter, a Procuradoria Geral de Justiça da Cidade do México informou que a vítima e o acusado prestaram depoimento no Ministério Público.

Um vídeo viralizou nas redes sociais, mostrando um grupo de mulheres expulsando Jenaro Villamil da marcha. O clip gerou discussões no Twitter. Alguns usuários lamentaram a agressão e intolerância contra o jornalista e pediram que o combate aos feminicídios seja levado como uma luta inclusiva e solidária.

Mas as organizadoras do evento explicaram que em todas as marchas feministas "criam-se contingentes separatistas e contingentes mistos para que marchemos com quem nos agradar mais, acompanhadas pelos 'aliados do feminismo' (entre aspas, porque nunca podemos ter a certeza de que são aliados) ou sozinhas".

A irmã de Mara Castilla, Karen Castilla, fechou a jornada de mobilizações contra os feminicídios e a violência de gênero com a seguinte mensagem: "Irmã, ficaram te devendo justiça, mas a sociedade a está exigindo por você. #JustiçaParaMara".

Sandra Lucario
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