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A ação da vigilância sanitária e o impasse da comercialização de produtos artesanais no Rock in Rio

Após desabafo de chef, outros profissionais relataram desperdício de comida no Rock in Rio por não cumprirem regras da fiscalização.

17/09/2017 11:59 -03 | Atualizado 17/09/2017 11:59 -03
Divulgação

Após o desabafo da chef Roberta Sudbrack, outros profissionais que trabalhavam na Gourmet Square do Rock in Rio relataram situações similares diante da atuação da fiscalização sanitária nas cozinhas do evento.

Jayme Drummond é responsável por um dos buffets parceiros do festival. No Facebook, ele afirmou que a fiscalização sanitária impediu que ele utilizasse alguns de seus temperos por não conter um selo com o registro do CNPJ do fornecedor.

"Vivemos um constante pânico, pois nunca sabemos quais os reais critérios de inspeção serão adotados durante suas incansáveis visitas. Ontem, cerca de 10kg de tempero comprados na tradicional Casa Pedro, foram parar no lixo. Estavam dentro do prazo de validade, conforme a etiqueta da foto. A alegação foi de que não havia o CNPJ da Casa Pedro na embalagem", escreveu.

O Laguiole, empresa de Drummond, também foi impedido de servir os lanches que preparava para o público da área VIP do evento.

De acordo com o relato, a fiscalização sanitária avaliou os sanduíches enquanto os alimentos estavam sendo montados e penalizou o serviço por não ter a etiqueta de validade. O resultado foram 40 quilos de comida jogados no lixo.

"Os fiscais chegaram entre a finalização das tais bandejas e a colocação da bendita etiqueta. Não teve conversa, lá se foram embora quilos de pães com recheio fresquinho. Vocês não imaginam o vazio que dá no peito ao ver comida boa sendo descartada num mundo onde ainda existe tanta fome", compartilhou Drummond.

Ao menos outro estabelecimento, um restaurante nordestino, também foi afetado com a apreensão e o descarte de alimentos. No último sábado (16), 160 quilos de carne de sol foram inutilizados no restaurante Sertanorte.

Em entrevista ao G1, a coordenadora de alimentos da Vigilância Sanitária, Aline Gomes, explicou que a Lei 7889 prevê que produtos com circulação nacional precisam ter registro junto ao Ministério da Agricultura, através do selo do Serviço de Inspeção Federal (Sif).

Ou seja, quando o produto possui apenas o selo estadual, ele só pode ser comercializado no estado de origem em que foi produzido - caso em que se enquadraria os produtos artesanais, como queijos e linguiças, utilizados por Sudbrack, por exemplo.

"Durante as inspeções, nós verificamos que o queijo que ela estava comercializando tinha o selo do Estado de Pernambuco. Esse produto não poderia estar sendo comercializado no município do Rio de Janeiro. Assim como a linguiça, que possui o sisp, que serve apenas para o Estado de São Paulo. E como que esses alimentos vieram parar aqui? Como eles passaram pelas barreiras?", esclareceu a coordenadora.

A vigilância sanitária do Rio de Janeiro invadiu o meu estande no Rock in Rio com quase 15 pessoas e decretou que os queijos brasileiros, bem como a charcutaria brasileira da melhor qualidade, meus fornecedores há pelo menos 20 anos, não são bons o bastante para comercialização. Sem nenhum bom senso ou razoabilidade, jogaram fora mais de 80kg de queijo dentro da validade, assim como 80kg de linguiça fresca e previamente aprovada pelo controle do evento Rock in Rio. Todos inspecionados pelos órgãos sanitários dos seus Estados. O motivo? Faltava 1 carimbo, um selo, uma coisa qualquer. Estou fechando a minha operação no Rock in Rio porque a minha ética, o meu profissionalismo e as minhas convicções não me permitem ver uma cena dessas. Comida da melhor qualidade sendo jogada fora enquanto tantas pessoas morrem de fome no mundo. O meu prejuízo provavelmente é do tamanho desse mesmo mundo, mas minha dignidade e as minhas crenças são maiores! POR FAVOR COMPARTILHEM! ME AJUDEM A SALVAR A DIGNIDADE DA GASTRONOMIA BRASILEIRA! Mas não compartilhem pouco. Por favor COMPARTILHEM MUITO! Estou entrando com uma liminar na justiça para salvar o restante de toda a mercadoria que temos em estoque para que possamos pelo menos doar a quem precisa. E me comprometo não só a doar, mas preparar essa comida da melhor qualidade e da qual eu me orgulho de servir há mais de 25 anos para quem precisa. Por favor compartilhem! Obrigada 🙌🏼

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Valorização do produto artesanal x burocracia

A repercussão do caso acendeu um debate sobre as leis de comercialização de alimentos e a valorização dos produtos artesanais no Brasil.

No seu Instagram, a chef Roberta Sudbrack argumentou que apoiava a ação da vigilância sanitária, mas reforçou que os produtos escolhidos por ela eram de alta qualidade e não forneciam risco à saúde do público.

"Os produtos descartados na operação do Rock in Rio gozavam de denominação de origem, selo de inspeção e atestados sanitários locais, além de notas fiscais. Foram escolhidos justamente por serem produtos de alta qualidade, representatativos de um Brasil que dá certo e que expressam nossa identidade."

No texto, ela reforça que foi selecionada para participar do evento justamente por impulsionar uma gastronomia que valoriza a produção local e artesanal do País.

Roberta Sudbrack não nega a importância da vigilância sanitária. Em 25 anos de profissão, sempre manteve relação de parceria e respeito com as ações de inspeção. Justamente por isso, a operação gerou espanto por sua truculência. O SIF (Selo de Inspeção Federal) é uma garantia extra. O selo original é o da inspeção local (em âmbitos municipal e estadual). Os produtos descartados na operação do Rock in Rio gozavam de denominação de origem, selo de inspeção e atestados sanitários locais, além de notas fiscais. Foram escolhidos justamente por serem produtos de alta qualidade, representantativos de um Brasil que dá certo e que expressam nossa identidade. O estande de Roberta Sudbrack situava-se numa área do evento intitulada Gourmet Square, e a chef foi convidada justamente porque representava esta chancela de produtos artesanais de alta qualidade. A operação estava sendo monitorada por três nutricionistas, e todas as informações de procedência dos produtos foram passadas previamente ao Rock in Rio, bem como ao respectivo órgão de consultoria de vigilância sanitária do evento. Não houve qualquer restrição ou proibição, bem como não havia nenhum risco sanitário no local. Embora o trabalho da vigilância sanitária seja de proteção à saúde humana, isto não ocorreu quando foi inutilizada uma quantidade substancial de produtos de grande qualidade, dentro do prazo de validade. Se não tivessem sido descartados incorretamente (jogados no lixo junto a produtos químicos), poderiam ter sido destinados a populações carentes, num país em crise e em estado de fome. A ação é lícita quando realizada com bom senso, e não com truculência e arrogância. A vigilância sanitária poderia ter mantido sua autoridade sem se utilizar deste lamentável espetáculo de desmandos. Não à toa, todo o estoque complementar está protegido por liminar protetiva, o que comprova a plena condição destes insumos. Roberta Sudbrack tem 25 anos de carreira e durante todo este tempo utilizou estes mesmos produtos, o que há de melhor entre os ingredientes brasileiros. Através deles, levou a nossa gastronomia para o mundo e tornou-se uma referência internacional.

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Em nota, a vigilância sanitária do Rio de Janeiro afirmou a necessidade de fiscalização e cumprimento de regras para os fornecedores de eventos em massa, como o Rock in Rio.

É atribuição da Vigilância Sanitária o gerenciamento do risco sanitário em eventos de massa, haja vista o risco potencial para a saúde dos frequentadores. As ações iniciam-se antes do evento, por meio da elaboração de plano operacional e de ações educativas.

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