ENTRETENIMENTO

Karin Slaughter: ‘A vida da mulher vale mais na ficção do que na realidade’

Escritora norte-americana é conhecida por abordar violência contra a mulher em histórias policiais — e por não economizar em sangue e mortes também.

16/09/2017 15:34 -03 | Atualizado 16/09/2017 15:34 -03
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‘Você é boa escritora, embora seja mulher’: Ouvir esta frase não impediu Slaughter de continuar a escrever — e nem de lançar um livro por ano.

Antes de Paula Hawkins e Gillian Flynn se tornarem bestsellers gigantescos contemporâneos com A Garota no Trem e Garota Exemplar, respectivamente, e outros incontáveis romances escritos por mulheres com a palavra "garota" no título, a escritora de policiais Karin Slaughter, 46, já fazia enorme sucesso com seus livros.

A autora, natural de Atlanta, Georgia, teve um início de carreira bastante difícil. Depois de arriscar-se ao abandonar empregos estáveis — ela já foi pintora de casas, dedetizadora e dona de uma empresa de placas —, teve que lidar com o machismo de um meio literário dominado por homens, seja na escrita ou na crítica.

"Acho que foi a combinação de ser jovem e bastante idiota para achar que eu poderia fazer isso", ri Slaughter, em entrevista ao HuffPost Brasil, a respeito de apostar na carreira na literatura. Ela acordava de madrugada para escrever, antes de ir para mais um dia no trabalho "normal".

No fim das contas, tudo deu certo: o primeiro romance dela, Cega, tornou-se bestseller do New York Times e a catapultou para o sucesso. Desde a ocasião, violência contra a mulher é o tema das dezenas de livros que ela já lançou.

Esposa Perfeita, o livro mais recente de Slaughter a chegar às livrarias brasileiras, é o décimo título da série protagonizada pelo detetive Will Trent. No primeiro capítulo, o personagem encontra um cenário horrendo de assassinato na mansão de um atleta acusado de estupro que ele lamenta não ter conseguido neutralizar. Logo nas primeiras páginas, as reviravoltas já são várias.

Fica perceptível a preocupação de Slaughter com a concepção de personagens femininas que sejam tão interessantes quanto os homens: elas têm personalidade marcante e isso não implica em carisma ou superioridade moral.

Em recente passagem pelo Brasil, a autora esteve na última Bienal do Rio e, em São Paulo, encontrou-se com livreiros e participou de uma sessão de autógrafos.

Ela também tirou um tempinho para conversar com o HuffPost — Slaughter comentou o início de carreira, violência contra a mulher e abordagem do assunto feita pela ficção, entre outros assuntos.

Leia a entrevista completa:

HuffPost Brasil: Você escreve romances há quase 20 anos, muito antes de grandes bestsellers como Paula Hawkins e Gillian Flynn surgirem neste século. Como foi iniciar a carreira de escritora em um gênero literário dominado por homens? Foi difícil ter a confiança das pessoas?

Karin Slaughter: Sim e não. Meu primeiro livro foi bestseller do New York Times e entrou em listas de mais vendidos do mundo tudo. No entanto, os críticos de literatura, naquela época, me repreenderam por escrever sobre violência contra a mulher e ser mulher. Essa foi a parte difícil, porque a maior parte deles é homem. Eles achavam que mulheres não deviam contar essas histórias. Constantemente, eu tinha que justificar meu direito de contá-las. Eu diria que, pelos primeiros dez anos de minha carreira, a todo lugar que eu ia, fosse Itália, Austrália ou Emirados Árabes, repórteres me diziam "você escreve como um homem". Este era o único jeito que eles tinham de me dizer "você é uma boa escritora, embora seja mulher". Mas, agora, acho que está ótimo. Mulheres têm feito um trabalho fantástico ao falar sobre crimes que nos afetam. A maior parte dessas histórias de mulheres vinha sido contada por homens. Para nós, ter a oportunidade de falar sobre nossas próprias experiências e ser bem-sucedidas nisso é maravilhoso.

O fato é que, ao longo da história, mulheres têm sido bem-sucedidas contando histórias que as pessoas querem ouvir — Agatha Christie, Daphne du Maurier e Dorothy L. Sayers são exemplos. Nos Estados Unidos, se você verificar o dez livros mais vendidos na lista do New York Times, vai ver que muitos nomes são de mulheres. Frequentemente elas eram bestsellers, mas foram esquecidas, porque bolsas de estudo são feitas por homens e muitos deles não estão interessados em vozes de mulheres daquele tempo. No entanto, isso está mudando. Acho que eventualmente haverá paridade, mas ainda é muito difícil para mulheres receberem críticas legítimas. Mais livros escritos por homens são criticados do que os escritos por mulheres, mais livros escritos por homens ganham prêmios. Eu fui indicada ao principal prêmio de mistério dos EUA, o Edgar Award — nomeado após Edgar Allan Poe — e pesquisei quem o venceu nos últimos 60 anos. Apenas 11 mulheres o venceram. Então eu pensei "bom, não vou ganhar isso. As chances não são boas para mim" [risos]. Acho que até o momento, as mulheres têm se saído muito bem em vendas, mas crítica e respeito ainda continuam a nos trazer dificuldade.

Foi difícil conseguir com que editoras lessem seu trabalho e o levassem a sério?

Não. Editoras sabem que esse tipo de livro, mesmo quando eu comecei, vende muito bem. Nos EUA, havia eu, Patricia Cornwell e Kathy Reichs escrevendo policiais. Há muitas mulheres escrevendo com diferentes estilos dentro do gênero, como Sue Grafton, Sara Paretsky, que faziam detetives mulheres mais "hardboiled". Elas são fantásticas, amo lê-las, mas escrever o tipo de policiais realistas e chocantes não era realmente isso que as mulheres estavam fazendo.

Nos EUA, geralmente, você precisa de um agente antes de conseguir um contrato [com a editora]. Minha agente ama meu trabalho e encontrou a editora certa para mim, que procurava por uma "escritora sulista de policiais" — eu vivo na Geórgia —, porque é isso o que Patricia Cornwell era. Eles acharam que isso ia funcionar, "então vamos encontrar outra". Acho que tive sorte por causa dela.

Você aborda a violência contra a mulher na sua obra. Ao fazer isso, você toma algum cuidado especial, como "não devo escrever essa frase assim", "não devo criar esse personagem dessa forma"?

Eu nunca penso dessa maneira. Quando escrevo meus personagens, eles parecem ser completamente construídos para mim. Acho importante escrever pessoas que são como as que você encontra na vida real: de algumas delas você gosta, mas outras, odeia.

Mulheres leem predominantemente esses livros. Em geral, elas leem mais que os homens. Nos EUA, 85% de todos os consumidores de livros são mulheres. Então eu tenho que estar ciente de que mulheres também são inclináveis a ver a fotografia de outra mulher e odiá-la, certo? [risos] Por razões inexplicáveis. Ajo com cuidado quando escrevo mulheres fortes, especialmente alguém como Sara [da série Will Trent], que é médica, tem um namorado muito bonito, o sexo deles é ótimo — tudo o que você odiaria em outra mulher, certo? Eu tomo bastante cuidado para me certificar de que ela cometa erros às vezes e tenha falhas, perca. Ninguém é perfeito.

Mulheres não são estimuladas a apreciar mulheres inteligentes e bem-sucedidas. [Mas] Homens [que os sejam], sim. Ou os que nem são inteligentes de verdade. Isso meio que não importa, desde que eles tenham a aura do sucesso e da autoconfiança. Nós os levantaremos, certo? Não vou falar de política, mas todos sabemos o que acontece. Eu tenho cuidado com isso.

A personagem de Angie [também da série Will Trent] é bastante enraivecida. Eu lembro de minha avó me dizer "ninguém gosta de uma mulher brava". Para mim, entretanto, é importante escrever a raiva dela, porque quando criança, ela foi tão prejudicada, abusada, estuprada. O que uma criança que teve essa vida se torna? Ela não vai ter uma "vida normal". E Angie também é bastante abusiva em relação a outras pessoas na vida dela. Esposa Perfeita foi uma oportunidade para falar a respeito disso. Ela é abusiva com o marido dela. Em Esposa Perfeita, eu escrevi sobre uma mulher que estava sendo abusada, mas Will também está sendo abusado e ele não percebe isso. Muitas mulheres também não percebem isso, que estão em um relacionamento abusivo. Eu queria que tivesse esse contrapeso, porque na vida de Will é tão claro que ele devia se afastar de Angie. Ele é um bom homem e não merece isso, mas mulheres nunca pensam isso a respeito de si mesmas quando estão em um mau relacionamento. Elas sempre pensam "eu fiz algo errado", "não deveria ir embora", "deveria tentar manter minha família unida", "deveria tentar ser uma boa esposa e mãe".

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'Esposa Perfeita', novo livro de Slaughter a chegar às lojas brasileiras, fala sobre relacionamentos abusivos, estupro e violência doméstica.

A cultura pop está repleta de violência contra a mulher. Elas são estupradas, espancadas, assassinadas. Twin Peaks é um exemplo — e é algo tão grande —, assim como The Killing e C.S.I. Você acredita que séries de TV, filmes e livros têm feito um bom trabalho quando mostram mulheres nessas circunstâncias?

O certo e o errado estão nos olhos do espectador. O que eu vejo como exagerado ou inapropriado, talvez não os sejam para outra pessoa. Sou uma pessoa passiva no mundo, acho que tenho direito à minha opinião, mas não acredito que o mundo deva parar só porque penso de um jeito. Acho que deve ser feito com responsabilidade. Mulheres são vítimas só na vida cotidiana, seja com estupro ou assédio verbal. Até quando dizem para elas sorrirem. Quando eu era mais jovem, isso me irritava tanto, porque eu estava trabalhando, pensando em um problema e um homem me dizia "você devia sorrir mais, faz você ficar mais bonita". E eu pensava "vá se foder!" [risos]. "Estou tentando administrar um negócio aqui!" Você nunca diria isso a um homem.

Esses são os tipos de crimes sobre os quais nós não falamos. Estupro, violência contra a mulher — mas sabemos que acontecem. Acho que são explorados a um certo nível. Nem todos os meus livros têm mulheres que são vítimas, mas todo livro, até aqueles em que homens são os personagens que morrem, terá uma mulher na capa. Escrevi um livro alguns anos atrás e matei cinco caras nele. A crítica disse que era meu livro menos violento. No livro seguinte, uma mulher morre. Disseram "ela está sendo violenta de novo". As pessoas sentem que na literatura, na TV, tanto faz, a vida de uma mulher vale mais do que na vida real. Porque se elas realmente se importassem, então estupradores iriam para a cadeia com mais frequência do que vão, crianças não seriam molestadas com a frequência que elas são e não seriam sexualizadas. Várias meninas são sexualizadas na mídia de uma maneira que meninos nunca são. O Brasil é um país bastante religioso, como a América, então a gente tem essa ideia de que somos todos bastante aprumados, corretos, gentis, mas todos estão vendo pornô. Há quem nós queremos ser e quem nós realmente somos. É importante falar sobre quem nós realmente somos. A ficção policial sempre coloca um espelho diante da sociedade. Enquanto mulher, para mim é importante escrever sobre esses crimes. Nós sabemos o que dá medo umas às outras. Se você estiver andando na rua à noite e ouvir um barulho, provavelmente olharia para trás para ver o que está atrás de você. Uma mulher, por outro lado, começaria a andar mais rápido. Essa é a diferença na maneira em que mulheres e homens encaram o mundo.

Alguns homens são bons em perceber essas nuances. Eu não digo "não leia livros escritos por homens, porque eles não sabem do que estão falando", mas eles tendem a desafiar mulheres que são abusadas. Se uma mulher é sexualmente violentada em um romance, ela se torna uma alcoolatra [risos] ou um anjinho frágil e o único meio para ela sentir-se curada e normal novamente é ser amada por um bom homem. Mas não é assim que acontece. É importante contar essas histórias do jeito que elas são. Eu fiz uma escolha quando comecei a escrever: nunca, nunca vou escrever uma história na qual, no fim, o homem salva a mulher. Ela salva a si mesma. E, às vezes, o homem também. Não vejo mulheres como criaturas frágeis. Mulheres têm de lidar com bastante merda. Quero contar as histórias delas, quero contar a minha história, quero apresentar mulheres como fortes.

Na infância, quando você começa a ler, o herói sempre é um homem. Meninas nunca vão pensar que são heroínas. Por isso eu amo os livros com Katnis Everdeen [da série Jogos Vorazes, de Suzanne Collins], porque ela não existia quando eu cresci. A garota [nas histórias] era sempre a irritante, gritava e fazia burrices. O exemplo clássico são os filmes de terror, em que elas correm e tropeçam e, por alguma razão, sempre estão de calcinha e sutiã. Acho que, enquanto escritor, você escreve os livros que quer ler. E esse é o livro que eu quero ler.

Em 2012, os direitos de adaptação da série Will Trent foram comprados por uma produtora sueca de TV, a Yellow Bird. Alguma novidade a respeito disso? E por que até hoje nenhum de seus livros foi adaptados para cinema ou TV?

Sim [, vai acontecer]. Leva todo o tempo do mundo. Por bastante tempo eu disse que não queria adaptações. Não é tão lucrativo quanto você pensa [risos], mas eles diziam coisas como "a gente pode filmar na Polônia", e eu respondia "bem, as pessoas no sul dos EUA não se parecem com os poloneses". Ou eles diziam "a gente quer que Will Trent seja solteiro, para ele ter várias namoradas", mas o personagem não é assim. Não entendiam [os livros] de verdade, mas a Yellow Bird, que fez Os Homens Que Não Amavam as Mulheres [filme baseado no livro de Stieg Larsson] e a série de TV de Kurt Wallander [personagem do escritor Henning Mankell], estava interessada. Conversamos bastante e eu disse sim a eles. Eu escrevi outro livro, chamado Cop Town, sobre mulheres policiais nos anos 1970, e a produtora de Charlize Theron [Denver & Delilah] comprou os direitos de adaptação para TV. Então vejamos. Essas coisas levam bastante tempo, entretanto.

Eu gosto mais de TV, com poucas exceções. Amo Mulher-Maravilha [risos], mas prefiro séries a filmes porque, na TV, dá para contar uma história toda. Com o filme você tem no máximo duas horas, talvez, para encolher [dentro dele] um livro de 500 páginas. Eu gosto da ideia de ser episódico.

Livros de Karin Slaughter lançados no Brasil:

Até o momento, foram publicados pela HarperCollins os títulos Esposa Perfeita, Flores Partidas e o e-book A Garota dos Olhos Azuis (prequel de Flores Partidas). Pela Record, foram lançados Cega, Frio na Espinha, Gênese, Fissura, Tríptico e Destroçados.

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