MULHERES

Este projeto está mapeando negócios liderados por mulheres em mais de 15 países

Se as mulheres estivessem plenamente no mercado de trabalho, pelo menos 12 trilhões de dólares poderiam ser adicionados ao PIB mundial.

16/09/2017 09:43 -03 | Atualizado 16/09/2017 09:54 -03
Girls On The Road
O projeto Girls On The Road está mapeando as práticas de mulheres empreendedoras em mais de 15 países.

A desigualdade de gênero não é apenas uma questão social, mas também é um desafio econômico crítico.

Se as mulheres - que representam a metade da população em idade de trabalho no mundo inteiro - estivessem desempenhando o seu potencial econômico, pelo menos 12 trilhões de dólares poderiam ser adicionados ao Produto Interno Bruto (PIB) global nos próximos dez anos.

De acordo com o relatório da McKinsey Global Institute publicado em 2015, os setores público, privado e social precisarão atuar fortemente para reduzir as disparidades de gênero no trabalho e na sociedade se quisermos caminhar para um mundo mais rico e equilibrado.

No Brasil, dados mais recentes mostram que a situação das mulheres tem avançado. Em 2016, elas ocuparam 44% das vagas disponíveis. A renda das trabalhadoras também tem ganhado cada vez mais importância no sustento das famílias. Hoje, 40% dos lares são chefiados por mulheres.

Apesar dos avanços, as mulheres ainda ganham bem menos do que os homens, mesmo tendo mais tempo de estudo e qualificação. Quando se trata da participação em cargos de liderança nas empresas e nas organizações, o índice ainda é baixíssimo: apenas cerca de 5% e 10% das instituições são chefiadas por mulheres no Brasil, de acordo com um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

É neste cenário que o empreendedorismo surge como uma opção para muitas mulheres que não desejam seguir a lógica das carreiras executivas.

Em qualquer lugar do mundo, os desafios são similares

O projeto Girls On The Road foi idealizado pelas brasileiras Fernanda Moura e Taciana Mello e vai percorrer mais de quinze países com a missão de identificar, entrevistar e compartilhar histórias de mulheres empreendedoras que impactaram de alguma forma a realidade à sua volta. A ideia surgiu de um incômodo quando elas moravam no Vale do Silício

"A gente começou a se perguntar onde estavam as mulheres diretoras e donas de empresas. O gender gap existe até no Vale. Queremos contar a historia dessas mulheres empreendedoras e trocar informações", explica a dupla em entrevista ao HuffPost Brasil.

Desde julho de 2016, elas estão em contato com iniciativas e, através de entrevistas, têm mapeado as boas práticas, os desafios e a rede que está sendo construída por essas mulheres. Atualmente, elas estão na Rússia e não deixaram de notar a influência da cultura local no mindset de negócios liderados por mulheres.

"Aqui, se você começa a empreender e vai ganhando espaço no país, isso chama atenção do governo e o seu negócio pode até fechar. Qualquer empreendedor tem medo do governo. Quando a gente fala com essas mulheres a gente percebe que elas são muito bem preparadas tecnicamente, principalmente em áreas como computação e matemática. Elas têm ambição de crescer, de tocar seus negócios, mas ao mesmo tempo elas não querem correr riscos diante do governo", explica Fernanda.

Anteriormente, quando o projeto estava na Nova Zelândia, a dupla se deparou com a história de uma refugiada que havia deixado o Irã por conta de perseguições políticas. Após ela e a família terem o asilo negado em Dubai, Canadá e Estados Unidos, finalmente conseguiram um abrigo no país da Oceania.

"Ela não tinha perspectiva nenhuma de transformação. Mas ela tinha acumulado diversas experiências. E ela não carregava aquele estereótipo que a gente pensa de uma pessoa triste ou desacreditada. Na Nova Zelândia, a primeira coisa que ela fez foi começar a estudar. Então, se envolveu com design e montou um negócio pequeno, mas cheio de propósito, resultado de tudo que ela já tinha vivido. Hoje está super bem", compartilha Taciana.

O projeto está em busca de mostrar a diversidade dos perfis, desde a garota jovem que está se arriscando em startups, passando por aquelas mulheres que o empreendedorismo é uma forma real de sobrevivência, e até as mais maduras, que abriram mão de uma carreira estabilizada para dar vida a uma ideia.

Existem limites no empreendedorismo?

Para Taciana Mello, as mulheres não se arriscam a empreender por vários motivos que passam pela autoconfiança, estereótipos, educação financeira e até uma auto-limitação que elas se impoem.

"Passa por uma atitude da mulher, é preciso gerar esta autoconfiança e combater os estereótipos relacionados ao papel da mulher na sociedade. A revolução industrial acabou nos tirando de um papel ativo que desempenhávamos nos campos e nas fazendas, para voltar a narrativa de mulheres que só servem para trabalhos domésticos", explica.

Mello chama atenção, ainda, para a questão da maternidade. De acordo com ela, isto foi apontado em praticamente todas as entrevistas.

"Mesmo nos países mais mais avançados a maternidade ainda deixa as mulheres marginalizadas do mercado de trabalho. Até na Noruega. Quando estivemos por lá, vimos muitos pais cuidando dos filhos, mas sempre tem o sentimento de que só a mulher é capaz de certas funções e a gente acaba tomando isso para si. A sociedade impõe e a gente incorpora. Muitas mulheres acham que não dá para conciliar, que não devem dividir com os parceiros, mas o fato é: Por que elas são insubstituíveis nos trabalhos domésticos e totalmente substituíveis no mercado de trabalho?"

Ainda, há o que as idealizadoras do projeto perceberam como uma certa necessidade de masculinização por parte das empreendedoras ao alcançarem determinados níveis de responsabilidades.

"Muitas delas nos passaram um tipo de pensamento de que tudo bem começar um negócio, mas não poderiam crescer tanto, por que ai perderia a essência. 'Aí a gente vai ter que começar a ser mais dura, porque vamos ocupar mais responsabilidades, e eu não sou assim', eram os argumentos. E não faz sentido. Elas se limitam porque elas acham que não podem sair do universo que foi dito que era feminino e passar a ocupar o universo que é visto como socialmente masculino", defende Fernanda.

Planeje!

Para Carolina Ruhman, responsável pelo projeto Finanças Femininas, a educação financeira pode se tornar um grande obstáculo, ou uma ótima alavanca, para quem quer se jogar nos próprios negócios.

"Acredito que a educação financeira é uma ferramenta para transformar a vida das mulheres. Elas começam a bancar suas próprias escolhas, construir a sua independência - e não dá para falar de empoderamento sem falar da independência financeira", argumenta em entrevista ao HuffPost Brasil.

Carolina explica que a mulher tem tradicionalmente menor acesso a educação financeira, já que por muito tempo quem cuidava das contas familiares era a figura masculina. Por exemplo, as brasileiras só puderam ter uma conta bancária individual em 1962 no Brasil, o mesmo período em que elas começaram a ascender no mercado de trabalho.

"Mas o mundo mudou e a gente precisa correr atrás disso. A mentalidade de que marido bom é aquele que a mulher não precisa se preocupar com dinheiro não faz mais sentido. Ou ainda que é preciso tomar cuidado com mulher poderosa demais, independente demais. Isso é um absurdo, mas que acaba afetando a forma como cada uma delas vai pensar em sua vida financeira", argumenta.

Rugman, ainda, chama atenção para a necessidade de segmentar a educação financeira se você quiser que ela realmente seja efetiva.

De acordo com a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os públicos mais importante são as mulheres e as crianças. As crianças por serem o futuro dos países e por existir a necessidade de prepará-las para lidar melhor com o consumo e planejamento. Já as mulheres, por todas as questões históricas, mas mas também por serem "multiplicadoras de conhecimento".

"Quando a mulher percebe que uma informação transformou a vida dela, ela leva o conteúdo para todos os seu ciclos, amigos, família, irmãos, marido etc. E a gente acompanha isso no Finanças. Recebemos diversos depoimentos em que elas dizem ter recomendado ou terem sido indicadas por outras mulheres", explica Carolina Rugman.

Aprendizados que cruzam fronteiras

Três dicas para empreender, por Girls On The Road

Comece.
Nunca vai existir o melhor momento ou o momento correto. Você nunca vai estar 100% preparada. Comece e comece sempre. Você sempre vai ter mais a aprender. Você não pode ficar paralisado achando que você precisa estar perfeita. O perfeito muda. Negócio que começam de uma maneira vão se transformando ao longo do tempo. Coloque sua ideia para fora. Você vai amadurecendo de acordo com a demanda.

Peça ajuda.
Já escutamos de muitas mulheres que não sabiam por onde começar, mas que pedir ajuda fez toda a diferença. As respostas podem ser muito relevantes. Converse com pessoas que já passaram por situações parecidas. Troque experiências

O que é o sucesso?
Como a gente define o sucesso? A gente fica muito presa ao medo de falhar. Parem de seguir a régua que existe lá fora, porque é uma régua pensada por homens e para homens. Preste atenção no seu autodesenvolvimento. O sucesso é definido por você. Uma única definição de sucesso é muito limitador.

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