COMPORTAMENTO

Por que é natural transar com outras pessoas além do seu parceiro, segundo esta especialista

Em entrevista ao HuffPost Brasil, a psicanalista Regina Navarro Lins fala sobre seu novo livro e os modelos de relacionamento atuais.

15/09/2017 06:58 -03
Flickr.com/Iloveart Iloveart/CreativeCommons
"As pessoas que não fazem pacto de exclusividade, pacto de controlar o outro, provavelmente são mais felizes".

Há 50 anos, falar que um dia as mulheres não casariam mais virgens seria uma loucura. E se hoje você ouvisse falar que daqui a alguns anos, o casamento monogâmico será cada vez menos presente e as relações abertas cada vez mais frequentes?

É o que diz a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins.

"Eu acho que a gente tem que abandonar os modelos. O modelo que temos de casamento é péssimo. As pessoas sofrem muito. Daqui há alguns anos, as pessoas terão a mente aberta para transar com outros além do seu parceiro ou parceira. E tudo bem", constata em entrevista ao HuffPost Brasil.

Se você está acostumado com o padrão de relacionamento monogâmico e a ideia de amor romântico, saiba que esse comportamento é recente. E é preciso fazer uma viagem na história para entender.

De acordo com Lins, foi só a partir do surgimento da propriedade privada que o homem descobriu que fazia parte da procriação. Então, a mulher, como pode engravidar, é aprisionada e só pode se relacionar sexualmente com um único homem.

Por amor? Não.

A exigência de exclusividade começou há 5 mil anos, mas somente para as mulheres, porque como os homens não engravidam, podiam transar com quem quisessem, e os relacionamentos podem até ter mudado de formato, mas sua essência, não.

"No século 19, o amor romântico passou a ser uma possibilidade no casamento", conta Regina. Mas foi no século 20, a partir de 1940, que ele se expandiu, incentivado, inclusive, por produtos culturais, como os filmes Hollywood. "Por isso que hoje há tanta separação. Antes, ninguém casava esperando prazer sexual nem realização afetiva", conclui.

E, sim. O modelo de relacionamento monogâmico (e muitas vezes conflituoso e sofrido) que conhecemos hoje vem daí.

"As pessoas que vivem sem controle, vivem de uma forma mais satisfatória. As pessoas que não fazem pacto de exclusividade, pacto de controlar o outro, provavelmente são mais felizes", afirma Regina.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, a especialista falou sobre relacionamento aberto, ciúme, relações extraconjugais e outros tabus que causam sofrimento e dúvida. Ela, que já é autora de O Livro do Amor - Vol. 1 e 2, pretende dar mais um nó na cabeça de quem está preso a relacionamentos tradicionais com o livro "Novas Formas de Amar", que será lançado em novembro, pela editora Planeta.

Leia a entrevista completa:

HuffPost Brasil: Quando surgiu o amor romântico?

Regina Navarro Lins: O amor romântico é uma coisa bem recente na história. Começou no século 12, mas ninguém podia casar por amor. As pessoas casavam com quem a família escolhia. No século 19, o amor romântico passou a ser uma possibilidade no casamento. Mas foi no século 20, a partir de 1940, que ele se expandiu, incentivado pelos filmes de Hollywood. Por isso que hoje há tanta separação. Antes, ninguém casava esperando prazer sexual nem realização afetiva.

Por que o amor romântico gera sofrimento?

O amor romântico traz mais sofrimento do que alegrias porque é calcado na idealização. Quando alguém conhece uma pessoa, atribui a ela características que ela não possui e passa a vida infernizando a pessoa para se enquadrar naquilo que inventou. Ele prega que os dois se transformam num só, que nada mais vai faltar, que o amado vai ter todas as necessidades atendidas pelo outro.

Amor gera muito sofrimento. Porque você casa esperando uma alma gêmea, alguém que te completa. Na vida a dois, no dia a dia, você não consegue manter a idealização. Na convivência, você começa a perceber na pessoa aspectos que você não gosta. Então vem o desencanto, o ressentimento, a mágoa.

Se o amor romântico traz mais sofrimento do que alegrias, por que as pessoas ainda o desejam?

Todo mundo deseja viver o amor romântico porque somos condicionados a isso. Desde que nascemos, nos ensinaram a desejar esse tipo de amor. Os filmes colaboraram muito para isso. As pessoas amam estar amando. Se apaixonam pela paixão, muito mais do que por alguém especial.

Por que casamento é o tipo de relacionamento que menos se faz sexo?

Porque gera familiaridade e intimidade excessivas, que contribuem para tirar o tesão. Mas o fator que é o grande vilão é a exigência de exclusividade. O casamento desenvolve certa dependência emocional.

É necessário um mínimo de insegurança para se conquistar, para seduzir. O que mais vemos nos casamentos são pessoas que se gostam, se dão bem, mas acabam virando irmãos.

Eu acho que a gente tem que abandonar os modelos. O modelo que temos de casamento é péssimo. As pessoas sofrem muito.

Como um casamento pode funcionar melhor?

Eu acho que um casamento pode ser muito bom, mas para isso as pessoas têm que ter respeito, amigos em separado, programas separados e não pode ter controle nenhum sobre o outro, nem mesmo da vida sexual.

O que leva à traição?

Não aceito a palavra traição. É perjorativa, tem um peso negativo. Eu acho que relações extraconjugais existem numa quantidade enorme porque as pessoas sentem vontade, sentem desejo por outras pessoas. Não tem nada a ver com amor.

Conheço pessoas que amam seus parceiros, têm desejo sexual por eles, mas transam com outras pessoas também, simplesmente porque gostam de variar.

Por que algumas pessoas têm ciúme doentio?

A gente aprende a ser ciumento. Desde que nascemos, valorizamos o ciúme. Tem gente que acha que se o parceiro não tem ciúme é porque não ama. Então, geralmente, o ciumento tem baixa autoestima. Uma pessoa que se acha legal, interessante, não vai ficar achando que vai ser trocada em cada esquina.

Por que os casais liberais geralmente são mais felizes?

As pessoas que vivem sem controle, vivem de uma forma mais satisfatória. As pessoas que não fazem pacto de exclusividade, pacto de controlar o outro, provavelmente são mais felizes.

A sociedade está em processo de mudança do relacionamento monogâmico para o relacionamento aberto?

As mentalidades mudam. A gente está no meio desse processo de mudança. Então, se uma mulher chega para o marido e diz "eu quero uma relação aberta", esse marido pode sofrer. Hoje, o maior desafio que os casais estão vivendo é uma das partes propor a abertura da relação e a outra parte se desesperar.

Agora, a maioria das pessoas sonha em se fechar numa relação a dois, mas daqui a algum tempo, as pessoas já vão estar com a mente aberta para transar com outros além do seu parceiro.

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