ENTRETENIMENTO

O documentário de Lady Gaga é uma espiada divertida e fascinante nos bastidores da cantora

'Gaga: Five Foot Two', na Netflix, explora solidão, Madonna e a busca da fama pela vida toda.

15/09/2017 19:56 -03 | Atualizado 15/09/2017 19:56 -03
Netflix

O novo documentário de Lady Gaga, "Gaga: Five Foot Two", abre com uma imagem dela suspensa no ar. Apenas sua metade inferior está visível, enfatizando as botas stiletto brilhantes que adornam suas pernas. Ela está prestes a ser levada para o céu para a grande entrada no show do intervalo do Super Bowl deste ano, quando ela chegou ao palco de rapel. A bota chamativa significante pop: uma artista tão famosa por sapatos excêntricos não exige que seu torso pareça familiar.

No entanto, em "Five Foot Two", Gaga abandonou, até certo ponto, a decadência sobre a qual ela construiu uma carreira. Esta é a era "Joanne", afinal de contas. Agora ela pula de gênero para gênero, menos interessada em coreografias e figurinos, mais inclinada à auto-reflexão e aos violões. Essa mudança é a espinha dorsal de "Five Foot Two", que estreou sexta-feira no Festival de Cinema de Toronto, antes do lançamento no Netflix, em 22 de setembro.

Embora Gaga possa parecer mais austera hoje em dia, "Five Foot Two" ainda é um documentário tradicional de popstar, cheio de intrigas de bastidores. Gaga ensina o produtor superstar Mark Ronson a usar o Instagram! Ela tem um "colapso de bebê" no set de "American Horror Story: Hotel" depois de receber um novo roteiro no último minuto! Ela grava com Florence Welch! Ela ensina sua equipe a estar mais bem preparada! Ela recebe flores de seu ex-noivo! Ela fica sentada com os seios expostos!

Mais intrigante ainda: Gaga fala sobre Madonna, que passou de predecessora a rival veemente. Sabíamos que isso vinha por aí: Gaga publicou um teaser no Instagram algumas semanas atrás que terminava justamente quando ela dizia: "A única coisa que realmente me incomoda nela é que..."

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Infelizmente, a frase não é tão saborosa quanto parece. Gaga é divertidamente provocadora ao discutir Madonna, prometendo que ela sempre admirá a senhora rainha da música. (A suposta rivalidade esquentou quando certos fãs, críticos de música e a própria Madonna acusaram "Born This Way", de Gaga, de imitar o "Express Yourself", de Madonna). O que "realmente incomoda" Gaga é que Madonna, também uma italiano que começou a carreira em New York, chamou Gaga de "redutora" falando com um jornalista, não com a própria. "Me dizer que sou uma merda pela mídia?", diz ela no filme. "É como um cara que me manda um bilhete pelo amigo."

Justo, só que Gaga parece não levar em conta o fato de que agora está fazendo a mesma coisa: expressar seus sentimentos sobre Madonna em resposta a uma pergunta da mídia. Como todas as boas brigas entre popstars, esse drama virou performance. Mas Gaga se mantém jovial diante dessa provação, dizendo que adoraria que Madonna falasse cara a cara o que pensa dela.

"Só quero que Madonna me empurre contra uma parede e me beije e me diga que eu sou uma merda", diz ela, praticamente fazendo um convite. A multidão na estréia de sexta-feira foi à loucura.

Mais tarde, no apartamento de sua avó, olhando fotos da adolescência, Gaga encontra um retrato no qual ela tem um vão entre os dentes, como Madonna. "Se eu tivesse deixado esse vão, teria tido ainda mais problemas com Madonna", diz ela, novamente adotando uma postura de leve desafio.

Outra ironia está no fato de que Madonna fez o documentário seminal do pop, "Truth or Dare", de 1991, que acompanhou sua turnê Blond Ambition. Muitos outros tentaram suas próprias versões, em geral com resultados mais ou menos -- Katy Perry, Justin Bieber, Beyoncé e Oasis, para citar alguns. Nenhum é tão elétrico como "Truth or Dare". O mesmo vale para "Five Foot Two", embora este chegue perto.

Como em "Truth or Dare", o relacionamento de Gaga com a fama é assunto-chave. Ela fala da solidão de ir para casa sozinha todos os dias depois de ter sido objeto de tanta atenção. Fala sobre ser uma mulher nesse negócio, sobre o desejo de envelhecer nessa indústria do entretenimento, apesar do preço que a notoriedade cobrou de estrelas como Marilyn Monroe. Ela lida com o vazamento prematuro que permite que os fãs baixem "Joanne" ilegalmente. Cuida de seus problemas médicos, como a fratura que sofreu no quadril em 2013, durante uma turnê. Ela revisita sua triste história familiar. Vai ao Walmart comprar seu próprio disco. Descreve as desvantagens da fama, algo de que ela se recusa a abrir mão.

"Quando você fica aos 21 ou 22 anos, você pára de crescer [...]", diz Gaga. "Você precisa se deixar para trás."

Então, de volta ao Super Bowl, que Gaga considera a jóia da coroa de sua carreira de quase dez anos. Retornamos às botas que abriram o filme, a câmera acompanhando Gaga enquanto ela se prepara para o que pode ser o momento mais assistido de sua vida. Os ensaios são fascinantemente frustrantes para Gaga, mas, quando chega a grande, ela está relaxada e decidida. Sua pequena estatura parece crescer quando ela troca as roupas confortáveis vistas na maioria de "Five Foot Two" (o nome é uma referência à altura da cantora, 1,57 m) por mais um modelo decadente. Ela está subindo ao lugar que é seu por direito: o palco mundial.

Em meio a todas as referências a Madonna e outras pepitas saborosas, o que é mais incrível a respeito de "Five Foot Two" -- dirigido por Chris Moukarbel ("Me @ the Zoo", "Banksy Does New York") -- é o quão incrivelmente encantadora Gaga permanece. Dentro e fora do estúdio, ela mostra um conhecimento profundo de sua imagem pública. Sabe o que as pessoas esperam dela, e como melhorar essas expectativas. Enquanto alguns ícones pop podem parecer distantes, ou sujeitos a uma máquina além de suas regras, Gaga é uma artesã em todos os sentidos. É uma coisa esplêndida de ver.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Lady Gaga com e sem photoshop