MULHERES

Shona McAndrew encontra beleza em esculturas ‘plus size’ e em si mesma

Com sua obra em exibição no Museu do Sexo, em Nova York, a escultora aborda a dismorfia corporal e o medo da feminilidade.

14/09/2017 18:24 -03 | Atualizado 14/09/2017 18:24 -03

Alerta: Este artigo contém fotos de esculturas nuas e parcialmente nuas. Se isso for um problema, pare de ler agora.

Shona McAndrew

Nos últimos meses, uma mulher chamada Norah tem se tocado à vista de todos no Museu do Sexo, na cidade de Nova York.

Norah — vestindo uma calcinha de cintura baixa e uma camiseta "I Love NY" — é, na verdade, uma escultura em tamanho real de papel machê que está atualmente sentada no centro da exibição "NSFW (Not Safe for Work): Female Gaze" [Não Apropriado para o Ambiente de Trabalho: Contemplação Feminina]. Esparrachada sobre uma poltrona de estampa floral, Norah delicadamente puxa seus pelos pubianos; seu rosto, congelado em uma expressão que pode indicar tanto uma pessoa perdida em fantasias quanto entediada.

A escultura é obra da artista multimídia Shona McAndrew, de 26 anos, que considera Norah não só uma escultura, mas também uma amiga. "Elas parecem muito humanas", disse a artista ao HuffPost sobre suas várias esculturas. "Elas realmente têm uma presença humana."

Segundo sua própria narrativa internalizada, McAndrew é uma "outsider" desde que nasceu. "Meu pai brinca que sabia que eu era seu bebê quando me viu no hospital porque eu tinha o dobro do tamanho dos outros nenens", disse. Nascida e criada em Paris, McAndrew tem mãe escocesa e pai russo-americano — por isso falam inglês em casa. Ser a única criança americana em uma escola francesa a fez se sentir "um pouco diferente" desde cedo. Além disso, McAndrew era maior do que a maioria de seus colegas de classe. "Eu era uma criança gordinha, e não ajudava o fato de viver na França, onde todo mundo se parece com um camarãozinho", explicou.

Mas este sentimento profundamente enraizado de alteridade se transformou em algo mais frutífero, diz McAndrew. "Eu era uma 'outsider', mas não me importava muito", admitiu. "Aquilo ajudou a me tornar uma observadora."

Shona McAndrew

Há muito tempo McAndrew gosta de observar as pessoas, e as mulheres são seus temas favoritos de pesquisa e inspeção. Em parte, seu fascínio pela feminilidade decorreu do que ela percebeu ser uma incapacidade de ela mesma materializar isso. "Há tantas definições de feminilidade, e eu sentia que não estava me encaixando em nenhuma delas", lembra. "Eu ficava observando como as mulheres são criaturas incríveis, embora não me associasse como uma delas."

A observação acabou dando lugar à documentação por meio de desenhos. Filha de uma mãe protestante e de um pai judeu, McAndrew não comemorava feriados religiosos quando era criança. Em vez disso, a arte era a tradição seguida pela família. Frequentar classes semanais e visitar museus foram os pilares da educação de McAndrew. "Não era uma criança muito confiante", lembra a artista. "Desenhar era o que sabia fazer bem. Também me deu o direito de olhar para as pessoas. Fez com que eu me focasse no que significava ser uma observadora." Especificamente, enfatizou McAndrew, desenhar lhe deu o direito de observar as mulheres. "As mulheres me assustavam mais do que qualquer outra coisa porque eu não as entendia", disse. "Eu me sentia como alguém desenhando animais na natureza."

McAndrew exibiu sua obra pela primeira vez na tenra idade de 8 anos, em um museu "pouco conhecido" chamado Louvre. Seu trabalho — um retrato de mergulhadores — foi exposto em uma pesquisa de obras infantis de sua escola. "Ativou o ambiente como você nem pode imaginar!", brincou, fazendo referência à teoria da ativação do comportamento. Apesar da exibição precoce, a autoestima de McAndrew piorou no ensino médio. Ela sofria de dismorfia corporal e via seu corpo apenas em comparação com os de suas miúdas colegas de classe francesas. Naquela época, McAndrew também foi diagnosticada com síndrome do ovário policístico, uma disfunção hormonal cujo um dos sintomas é aumento de peso.

"No colégio, um dos garotos bacanas da classe me chamou de lado e disse que todos os meninos haviam conversado e decidido que, se eu perdesse peso, seria uma das meninas mais bonitas da escola", lembra McAndrew. "Sempre senti que, sem emagrecer, não seria uma candidata à feminilidade. Eu esperava que as pessoas me vissem entrar no banheiro para terem certeza de que eu era uma mulher."

Shona McAndrew

McAndrew estudou psicologia, mas continuou fazendo arte nesse período. Primeiro, pintou mulheres em aquarela. No processo de seleção para programas de pós-graduação em psicologia, McAndrew mudou de ideia e decidiu tirar um ano de folga para se concentrar em sua arte. A escolha a levou a se candidatar a um programa de mestrado na Rhode Island School of Design. Foi aceita.

Com o tempo, a obra de McAndrew começou a mudar. Em vez de pinturas, começou a fazer esculturas maciças, fisicamente trabalhosas, de papel machê. Em, em vez de idealizar os corpos de outras mulheres, começou a se inspirar no seu.

A artista começou seu processo escultural tirando fotos de seu próprio corpo em várias posições, que muitas vezes destacam a fisicalidade e a sexualidade. Ela combina esses aspectos de seu corpo para conjurar mulheres imaginárias que ganham vida em seu papel machê. Em uma escultura, uma mulher chamada Alice contempla, nua e reclinada, a imagem dos lábios de sua vagina refletida em um espelho Hello Kitty. Em outra, Sofia depila as pernas em um maiô com estampas de melancia.

"Tento fazer com que as mulheres 'plus size' não estejam 'antes' das fotos", explicou.

Shona McAndrew

Para a maioria das pessoas, fotografar seus corpos desnudos e transformar o resultado em uma escultura tridimensional seria suficiente motivo para causar ansiedade. Para alguém com dismorfia corporal, a tarefa é ainda mais desafiadora. Para McAndrew, o simples fato de fazer as esculturas vale mais do que sua recepção positiva.

Outro desafio que McAndrew enfrenta ao dar vida às suas "amigas" é a esgotante fisicalidade envolvida na criação de esculturas de grande porte. "Muitas pessoas ficam confusas quando descobrem que sou eu quem está fazendo as peças", diz. "Acho que tem muito a ver com os estereótipos sobre mulheres 'plus size' e do que somos capazes. Aqui estou eu, fazendo essas fisicamente trabalhosas esculturas que me fazem lutar tanto para que estejam nesse meio."

Ao longo dos últimos anos, McAndrew tem se sentido menos distante da ideia de feminilidade, em parte porque conseguiu ampliar seu entendimento sobre o que é feminilidade ou como deve ser. "Eu via outras mulheres 'plus size' e as achava bonitas, mas não conseguia ver isso em mim mesma", lembra. "Se você não se ama, como pode esperar que alguém te ame? É tão irritantemente verdadeiro."

Atualmente, McAndrew está trabalhando em uma série de esculturas que a retratam ao lado do namorado. Em uma obra, o casal aparece na cama, nu, olhando para a tela de um computador. McAndrew está segurando o pênis flácido do namorado. Pela primeira vez, a artista está explicitamente esculpindo o próprio corpo. "Não encarei a imagem de nossos corpos um ao lado do outro", disse McAndrew, descrevendo que seu namorado é do tipo surfista bonitão.

"Temos corpos muito diferentes", acrescentou. "Acho que colocá-los lado a lado será bem conflituoso para mim. Estou mais nervosa sobre como vou lidar com isso do que como os outros vão se sentir."

(Meu "antes" e "depois". Encontrei as fotos do processo de construção da Sofia!).

"NSFW: Female Gaze" está atualmente em exibição no Museu do Sexo, em Nova York. A primeira exposição exclusivamente com obras de McAndrew estreia em março na galeria Pilot Projects, Filadélfia.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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