NOTÍCIAS

François Hollande: 'Os Jogos Olímpicos de Paris 2024 são uma oportunidade para várias gerações'

Após a nomeação de Paris para organizar os Jogos Olímpicos de 2024, o ex-presidente da França deu sua opinião ao HuffPost.

14/09/2017 19:27 -03 | Atualizado 14/09/2017 19:28 -03
AFP
François Hollande: 'Se tudo correr bem, estarei no Estádio da França para acompanhar esse momento histórico'

Foi no outono de 2012, logo depois de ser eleito presidente da República, que ele teve a ideia. Três meses após a eleição, sua viagem a Londres para dar apoio aos atletas franceses na Olimpíada de Londres deslanchou o engajamento de François Hollande a favor da candidatura de Paris para sediar os Jogos de 2024.

Cinco anos mais tarde, essa possibilidade virou realidade. Após as derrotas da candidatura francesa para os Jogos Olímpicos de 1992, 2008 e 2012, na quarta-feira Paris foi escolhida em Lima. Isso é motivo de "orgulho imenso" para o ex-presidente da República francesa.

No dia 2 de agosto de 2024, "se tudo correr bem", François Hollande estará na tribuna do Estádio da França para assistir à cerimônia de abertura. Enquanto isso, ele, que fez de tudo para promover o projeto, conversa com o HuffPost sobre a gênese da candidatura francesa e os desafios que precisarão ser superados nos próximos sete anos.

HuffPost França: O que o senhor está sentindo, sabendo que os Jogos Olímpicos vão voltar a Paris cem anos após os de 1924?

François Hollande: Sinto orgulho, mas também uma certa impaciência. Cem anos é muito tempo para esperar! É uma aventura extraordinária e uma oportunidade para várias gerações!

Em que momento o senhor achou que era preciso que os Jogos voltassem a Paris? Estava convencido disso quando chegou ao Eliseu, em maio de 2012?

Eu tinha consciência de que a oportunidade existia, mas que, para agarrá-la, precisávamos da sorte do nosso lado. Eu ainda não estava convicto em relação a essa candidatura quando fui a Londres, algumas semanas após minha eleição em agosto de 2012. Vi a felicidade dos espectadores, o ambiente fantástico em toda a Inglaterra e a transformação dos bairros londrinos que sediavam o parque olímpico, a vila olímpica e o "media center". Foi nesse momento que achei justo recolocar a pergunta: é imaginável e, sobretudo, razoável lançar a candidatura da França para sediar os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2024?

Eu sabia como a derrota de 2005 tinha sido traumática, tanto para os atletas quanto para os responsáveis políticos que haviam travado a campanha. Por isso, propus que fizéssemos um estudo de oportunidades em torno desse grande projeto, consultando o mundo esportivo, os atores econômicos e, é claro, os vereadores de Paris. Encarreguei Bernard Lapasset e Tony Estanguet de fazer esse trabalho. Esse estudo durou dois anos e mostrou que a realização da Olimpíada poderia servir de forte impulso unificador não apenas para Paris, mas para a França como um todo.

A partir desse momento, a bola estava no campo do movimento esportivo e da prefeitura de Paris, os únicos habilitados a lançarem uma candidatura. Eles tinham que saber que o Estado exerceria seu papel e que eu me colocaria a serviço dessa organização para fazer a França ganhar.

Então o senhor se considera, de certa forma, responsável por essa vitória?

Responsável, não. Artífice, sem dúvida alguma. É um orgulho imenso ver que nosso país é capaz de se superar e de aliar suas forças para ganhar!

AFP
François Hollande com Muriel Hurtis, Tony Estanguet, Anne HIdalgo e Teddy Riner (da esquerda para a direita) após os Jogos Olímpicos do Rio.

O senhor temeu, especialmente em 2014, que a prefeita parisiense, Anne Hidalgo, pudesse decidir por não lançar a candidatura de Paris?

Falei a você da dor que me causou a decepção de 2005. Anne Hidalgo a vivenciou diretamente ao lado de Bertrand Delanoë, a quem homenageio porque também ele está à origem do sucesso de hoje. Entendi que era preciso convencê-la com bons argumentos e que ela precisava conseguir a adesão da Câmara de Vereadores de Paris. Ela precisou proceder metodicamente para isso.

Mas, se quiséssemos que desse certo, era preciso colocar o movimento esportivo no primeiro lugar. Com relação a isso, tenho que saudar o trabalho de Tony Estanguet, Bernard Lapasset e todo o Comitê Olímpico Francês, sob a direção de Denis Masseglia (presidente do Comitê Olímpico e Esportivo francês, NR).

De que modo a organização dos Jogos Olímpicos em Paris pode beneficiar a França? Como fazer para que o esporte amador também se beneficie?

A chave de uma organização bem-sucedida é que ela deve beneficiar ao maior número possível de pessoas. Além das obras de infraestrutura, os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos vão mudar profundamente a relação dos franceses com o esporte e levarão toda uma geração ao engajamento com a cidadania. O verdadeiro legado desses Jogos será uma cidade acessível a todos, um novo paradigma para o esporte francês, mas também uma poderosa alavanca de sucesso para a juventude que, dentro de sete anos, estará ao cerne do evento. A educação, a diversidade, a inclusão social e o desenvolvimento durável vão constituir a marca desses Jogos da Fraternidade.

A participação popular faz parte dos desafios a serem superados.

O senhor não receia que isso carregue um custo enorme para a França, como a Olimpíada do Rio teve para o Brasil ou como os Jogos de Atenas deixaram a Grécia com um prejuízo?

Não se deve confundir investimento com extravagância. A candidatura foi concebida para ser ambiciosa, mas responsável. São necessários investimentos, especialmente para a área de Seine-Saint-Denis, que se beneficiará de nova acessibilidade, e para a Grande Paris, que verá sua realização acelerada. A França precisa dessa infraestrutura.

Não se pode comparar a situação de Paris com a de Atenas em 2004 ou do Rio de Janeiro de 2016. Além disso, vamos organizar Jogos diferentes, modernos, participativos e inovadores. Na ocasião da COP21, o COI e seu presidente, Thomas Bach, foram meus convidados, porque eles sabem que hoje não se pode organizar Olimpíadas com o gigantismo dos anos passados. A candidatura de Paris venceu também devido à qualidade dessa preocupação ambiental. Porque ela corresponde perfeitamente à nova agenda e às novas exigências do COI.

AFP
François Hollande com o presidente do Comitê Olímpico Internacional Thomas Bach.

Os opositores criticam a falta de consulta à população, como foi o caso de Hamburgo, que desistiu devido à hostilidade de seus habitantes à proposta. O senhor receia enfrentar tal oposição pelo fato de não ter exigido uma consulta desse tipo em Paris?

As pesquisas de opinião conduzidas, especialmente pelo COI, indicaram alto nível de apoio ao projeto. É claro que é legítimo que haja oposição e que as pessoas façam perguntas sobre o custo ou os transtornos ocasionados pelo evento. Mas o trabalho de Paris 2024 mal começou. A participação popular faz parte dos desafios a serem superados.

Onde o senhor estará no dia da cerimônia de abertura?

Se tudo correr bem, estarei no Estádio da França para acompanhar esse momento histórico.

Se o senhor só pudesse assistir a uma prova, qual seria?

Seria o decatlo: a modalidade mais difícil, mais completa e mais longa.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost FR e traduzido do francês.

Olimpíada: 13 atletas LGBT que brilharam na Rio 2016