COMPORTAMENTO

Por que as marcas estão focando em pessoas e não em produtos

E os influenciadores são peça-chave nesse ambiente de mudanças.

13/09/2017 09:17 -03 | Atualizado 15/09/2017 10:24 -03
Divulgação / Avon
Tay Oliveira

Há alguns anos, ter um MBA, uma especialização ou uma experiência de trabalho no exterior era um diferencial no mercado de trabalho. Por mais que hoje esses pontos ainda tenham a sua importância na hora de procurar um emprego, o currículo perdeu espaço para as próprias pessoas, que cada vez mais se tornam protagonistas de uma mudança na sociedade como a conhecemos.

Perceber a forma como isso vem acontecendo é difícil apenas para quem não presta atenção: as mulheres e os membros das comunidades LGBTQ e negra estão em alta. Porém, ao contrário de uma tendência de moda, que perde a força em alguns meses, essas pessoas estão se tornando cada vez mais fortes e mostrando como o relacionamento é a principal moeda de troca da nova era.

Tay Oliveira, uma das influencers do clube E Aí Tá Pronta, de Avon, é um exemplo disso. Blogueira e youtuber, ela percebeu como poderia ter um papel importante nesse ambiente de mudança, usando a sua história como base para criar laços com meninas iguais a ela e que não se sentiam representadas pela mídia tradicional.

"[Eu percebi que as pessoas poderiam se identificar comigo] Quando coloquei as tranças coloridas em degradê que eu mesma pintei. Na época, esse tipo de fibra, o jumbo (cabelo sintético que usamos para fazer as box braids) em degradê ainda não havia chegado no Brasil e só dava para comprar pela internet, era muito caro. Descobri como eu poderia tingir essas fibras e eu mesma transformar na cor que queria. Quando fiz, foi um sucesso e muitas meninas, muitas mesmo, vieram me pedir para ensinar, na época não tinha nem o meu blog. Vi que meninas periféricas como eu também gostariam de uma representatividade próxima delas e que parecesse acessível a elas", disse ao HuffPost Brasil.

Quem tem uma vivência parecida é Mari Rodrigues. Também parte do clube da marca de cosméticos, ela percebeu enquanto fazia compras no shopping que não poderia ser a única a se sentir frustrada toda vez que tentava experimentar uma roupa. Gorda, ela soube que poderia dar dicas para outras como ela que se viam ignoradas pela moda – e pela sociedade no geral – ou que passavam por constrangimentos em situações cotidianas, como consultas médicas ou entrevistas de emprego.

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Mari Rodrigues, do blog Aquela Mari

"Acho que a maior conquista dentro desse novo apelo da mídia é poder mostrar o que realmente é a gordofobia. O preconceito contra pessoas gordas vai muito além de não nos acharem bonitas ou atraentes, mas é uma questão de direitos negados e é aí que entra o nosso discurso. Sempre que possível eu reforço que ser gorda é ter acesso restrito a coisas básicas, como andar de ônibus (já reparou como as catracas estão cada vez mais estreitas?), arrumar um emprego ou mesmo ter um atendimento médico respeitoso", defende.

Entre tantas denúncias de assédio sexual e escândalos envolvendo o ambiente de trabalho, a Uber contratou Bozoma Saint John, uma mulher negra, para ajudar no seu rebranding e tentar limpar a imagem que a empresa ganhou nos últimos anos. É, no mínimo, uma missão necessária, já que a cultura machista e preconceituosa acabou afetando a marca e produziu um baque e tanto para os negócios.

Paloma Santos, que atende pelo username Paloma Barbiezinha nas redes sociais, sabe como essa inclusão é importante em um momento no qual a luta pelos direitos femininos e de grupos minorizados estão tão em pauta.

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Paloma Barbiezinha

"As marcas estão mais preocupadas em quem as realmente representa independentemente de quantidade de seguidores que aquela pessoa tenha, porque hoje as pessoas não querem apenas comprar um produto; elas querem qualidade, história/conteúdo e isso é algo que não tem volta", diz Paloma.

Quebrar o padrão não significa apenas buscar mais representatividade e diversidade na forma como a marca se posiciona diante do mercado e do mundo, mas também no quanto ela banca o discurso que passa e na tolerância que tem com as contradições a esse discurso. Ainda é cedo para saber o impacto que o trabalho de Bozoma terá na Uber, mas existem outros casos, como o do youtuber Pewdiepie, em que a necessidade de ser firme no posicionamento se fez presente.

O produtor de conteúdo, o maior do mundo no Youtube, fez um vídeo com declarações preconceituosas e antissemitas, que beiram o neonazismo, e perdeu o contrato com algumas de suas maiores parceiras: a Disney e o Youtube Red, uma área de acesso paga da rede que não exibe anúncios e oferece conteúdos exclusivos.

"Em tempos de redes sociais, uma pisada na bola pode ser fatal para qualquer marca. Uma ação ou propaganda com mulheres mais próximas da vida real viraliza super-rápido, enquanto propagandas só com mulheres brancas, altas e magras são consideradas 'mais do mesmo'. Sem contar que o discurso de quem representa também é levado em conta, visto que já vimos casos de pessoas com comportamento inadequado terem contratos cancelados e a carreira destruída, como o do cantor Biel", explica Mariana.

Mais do que nunca, ter coerência no agir, falar e pensar precisa ser a base de qualquer relacionamento, seja online ou offline, seja entre marcas e consumidores ou entre pessoas. É preciso levar em conta a luta que aconteceu até agora para tê-la como base para o futuro e criar um ambiente de crescimento em conjunto.

"Todas as oportunidades que venho tendo, de estar em projetos maravilhosos, de ter essa voz, foi porque outras mulheres negras incríveis que já estão no mercado há anos abriram essa porta para mim, e outras negras incríveis que precisam dessa representatividade me enaltecem e me seguem por inspirá-las", finaliza Tay.

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