MULHERES

O caso da CEO que precisou pintar o cabelo para 'ser levada a sério' no Vale do Silício

“Os estereótipos ultrapassados demoram a morrer”.

13/09/2017 16:44 -03 | Atualizado 13/09/2017 17:13 -03

Uma executiva-chefe do Vale do Silício revelou que tingiu seus cabelos, que são naturalmente loiros, usou roupas soltas e trocou as lentes de contato por óculos, tudo isso "para ser levada a sério" no trabalho.

Eileen Carey, que comanda a empresa de software Glassbreakers, disse A BBC News: "A primeira vez que tingi meu cabelo foi seguindo o conselho de uma mulher que trabalhava com capitais de investimento.

"Ela me disse que para conseguir aquele aumento [ela faria uma proposta a investidores], seria uma vantagem se eu tingisse meu cabelo de castanho, porque há mais reconhecimento de CEOs mulheres com cabelo escuro."

"Ser morena me ajuda a ficar parecendo um pouco mais velha, e eu senti que precisava disso para ser levada a sério."

Enquanto muitas pessoas no Twitter estão indignadas pelo fato de uma mulher mudar sua aparência para se sair bem no trabalho, mulheres que trabalham na área das STEM (sigla que indica ciências, tecnologia, engenharia e matemática) disseram ao HuffPost Reino Unido que Eileen Carey "não é a única" a sentir esse tipo de pressão e que, lamentavelmente, isso não é novidade.

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Charlotte Attwood, gerente de marketing digital na Women In Tech, falou: "Não me surpreende que as mulheres na área de tecnologia sintam a necessidade de mudar de aparência para serem levadas a sério".

"Acho que, de modo geral, as mulheres lutam para ser levadas a sério na área da tecnologia da informação, que sempre foi vista como um setor dominado por homens", ela disse ao HuffPost Reino Unido.

"A igualdade de gêneros no setor da tecnologia melhorou muito nos últimos anos porque hoje há muito mais mulheres ocupando cargos mais altos, como gerentes e CEOs, no setor, mas ainda existe um problema enorme que precisa ser resolvido."

Helen Wollaston, executiva-chefe da WISE, que faz campanha pelo equilíbrio de gêneros na ciência, tecnologia e engenharia, concordou que é lamentável que uma mulher sinta pressão para mudar sua aparência para um emprego, mas disse que isso não chega a ser surpreendente.

"Pelas histórias que ouvimos na WISE, sei que ela não é a única", disse Wollaston ao HuffPost Reino Unido.

"Existem mulheres superinteligentes e hábeis lá fora – morenas, negras e loiras. Quando elas conquistam perfis mais altos na mídia, nas empresas, nas escolas e universidades, isso ajuda a mudar as percepções, mas os estereótipos ultrapassados demoram a morrer."

Anne-Marie Imafidon, co-fundadora da Stemettes, acrescentou: "Infelizmente, a aparência da pessoa ainda afeta o modo como ela é tratada, então neste caso [o de Eileen Carey], ela resolveu 'se enquadrar' e pintar o cabelo. Enquanto as percepções sociais mais amplas não mudarem, os grupos subrepresentados vão continuar a sentir pressão para 'transformar-se' para subir na vida."

Therese Stowell, gerente de produtos principais da empresa de softwares Pivotal, já escreveu antes em blogs sobre a importância de se incentivar a diversidade de gêneros no setor da tecnologia.

Também ela disse que não ficou nem um pouco surpresa em ouvir falar que uma CEO no setor da tecnologia se sentiu pressionada a mudar sua aparência.

"As empresas de tecnologia vêm se esforçando para buscar igualdade de gênero, mas não é fácil modificar vieses sociais profundos. Os seres humanos são programados para fazer julgamentos imediatos, então mesmo para as pessoas que estão trabalhando ativamente, ser inclusivas é um desafio", ela disse ao HuffPost Reino Unido.

Elas deram suas declarações depois de uma reportagem do "New York Times" este ano ter exposto até que ponto as mulheres no setor da tecnologia enfrentam assédio sexual em seus locais de trabalho.

Duas dúzias de mulheres nesse setor relataram ao jornal sua experiência de serem assediadas por mentores, investidores e outros colegas homens.

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Wollaston disse que as coisas melhoraram para as mulheres na área STEM nos últimos anos, "na medida em que mais empresas se dão conta de que equipes profissionais com um bom equilíbrio de gênero beneficiam as empresas", mas opinou que muito mais ainda precisa ser feito para que as mulheres no setor de tecnologia possam ter as oportunidades e o respeito que merecem.

"Precisamos de equilíbrio de gêneros na tecnologia, desde a sala de aula até nos conselhos de direção das empresas. Quando as mulheres deixarem de chamar a atenção por serem uma minoria pequena (apenas 10% dos estudantes de computação de nível mais alto este ano foram meninas), vamos poder ser quem somos e ser avaliadas por nossa capacidade, em vez de pela cor de nossos cabelos", ela disse.

"Eu gostaria de ver mais homens criticando comentários sexistas e comportamentos inapropriados, especialmente homens em posições de poder e influência. Se vamos encarar esta questão a sério, poderemos trabalhar juntos para criar uma cultura em que todos possamos trabalhar melhor e ter os melhores resultados."

Imafidon acrescentou: "O preconceito que impede as mulheres de ascender profissionalmente é feito de gerentes incompetentes e pessoas que assistem sem fazer nada. É preciso que a cultura mude e se transforme numa cultura em que as pessoas não apenas têm consciência de seus próprios preconceitos como também conseguem protestar quando veem outras pessoas agindo por preconceito. Se não houver repercussões, esses hábitos indesejáveis não vão mudar."

"O número de investidores que foram 'expostos', que perderam seus empregos ou sua influência depois que mulheres puseram a boca no trombone, mostra que, quando ninguém critica esse tipo de comportamento, ele continua porque faz parte da cultura, da chamada 'normalidade'."

Enquanto isso, segundo Attwood, a desigualdade salarial entre homens e mulheres é um fator fundamental nos problemas de igualdade de gêneros no setor de tecnologia.

"Essa disparidade salarial precisa acabar urgentemente para que possa haver mais igualdade de gêneros nos locais de trabalho. Isso tudo se resume ao estereótipo em torno das pessoas que trabalham no setor de tecnologia, um estereótipo que já nasce na escola", ela disse.

"Se incentivarmos as crianças nas escolas a pensar que a tecnologia é tão relevante para as mulheres quanto é para os homens, isso dará às meninas a confiança necessária para escolherem a tecnologia como opção de estudos superiores e profissão."

Para Stowell, a igualdade de gêneros nas STEM precisa "começar pelos líderes", para que as coisas possam melhorar.

"Precisamos combater o viés implícito com iniciativas como patrocínios que incentivem as mulheres a continuar no setor de tecnologia e avançar nele", ela disse.

"Aqui na Pivotal nós nos esforçamos para criar um ambiente sadio e acessível. Temos discussões frequentes com nossa equipe de diversidade e estamos discutindo um potencial código de conduta para o setor – um que seja aberto, solidário e promova o respeito mútuo."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.

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