POLÍTICA

Como o depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro se tornou mais um capítulo de 2018

"Jamais enganaria o povo brasileiro."

13/09/2017 20:33 -03 | Atualizado 13/09/2017 20:33 -03
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Lula: "Vou continuar esperando que a Justiça faça justiça nesse país".

"Se eu tivesse que contar uma mentira para enganar alguém, jamais enganaria vocês. Jamais enganaria o povo brasileiro."

Embora ainda falte quase um ano para a campanha eleitoral, as palavras do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à militância depois de depoimento ao juiz Sérgio Moro mostra que 2018 está mais perto que o esperado.

O tour do ex-presidente pelo País já dava o tom de como o PT está preparando o terreno para as próximas eleições. O segundo depoimento do petista à força-tarefa da Lava Jato se tornou mais um capítulo dessa trajetória.

O ato de apoio ao ex-presidente organizado por políticos e movimentos sociais em Curitiba foi o principal ingrediente do tom eleitoral.

Nas redes sociais, o apoio ao ex-presidente chegou a ficar no topo dos temas mais comentados no Twitter. Publicações sobre a fala de Lula também dominaram páginas simpatizantes ao petista.

Esse tipo de ato fortalece a unidade da esquerda em torno do ex-presidente, mesmo sem a certeza de que ele poderá ser candidato. Condenado na primeira instância, o ex-presidente aguarda decisão que poderá barrá-lo pela Lei da Ficha Suja.

Depoimento

Na segunda vez em que o ex-presidente ficou frente a frente com Moro, Lula evitou embate com o juiz, apesar dos momentos de tensão.

O petista foi ouvido sobre a acusação de ter recebido propina da Odebrecht para abrigar a sede do instituto que leva seu nome. Lula teria ainda recebido dinheiro para ocupar a cobertura vizinha a que morava enquanto foi presidente da República.

Quando Lula deixou o comando do País, o primo do pecuarista José Carlos Bumlai, Glaucos Costamarques, comprou o imóvel. As informações de Marcelo Odebrecht foram confirmadas na delação do ex-ministro Antonio Palocci.

O ex-presidente negou as acusações: "O dado concreto é que nem o Marcelo, nem o Emílio Odebrecht, nenhum empresario desse pais discutiu finanças comigo".

O petista mirou em Palocci e também chegou a disparar contra o ex-senador Delcídio do Amaral. Lula deu a entender que o ex-ministro acertou o acordo de delação premiada pelo interesse de sair da prisão:

Eu achei que o Palocci tá preso há mais de um ano, o Palocci tem o direito de querer ser livre, tem o direito de querer ficar com o pouco do dinheiro que ele ganhou fazendo palestra, ele tem família.
Eu fiquei muito preocupado com a delação do Palocci, porque ele poderia ter falado 'Eu fiz isso de errado, eu fiz isso'. Ele, espertamente, disse, 'não é que eu sou santo' e pau no Lula. 'Não é que eu sou santo', que é um jeito de você conquistar veracidade na tua frase. Eu fiquei com pena disso.
Essa é a peça de ficção mais hilariante que eu vi na fala do Palocci. Eu sinceramente não sei qual era a relação que o ex-ministro Palocci tinha com o doutor Marcelo Odebrecht.
Delcídio é um mentiroso, um descarado que foi solto em um pacto entre o Miller e a globo para fazer denúncia contra mim.
Eu vou continuar esperando que a Justiça faça justiça nesse país.

A defesa de Antonio Palocci reagiu as falas de Lula. Chamou o ex-presidente de "dissimulado". "Enquanto o Palocci mantinha o silêncio, ele era inteligente e virtuoso; depois que resolveu falar a verdade, passou a ser tido como calculista e dissimulado", disse o advogado de Palocci, Adriano Bretas, em nota.

Apoio partidário

Antes do ex-presidente prestar depoimento, militantes e intregrantes do PT criticaram a Lava Jato. Líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE) desqualificou o julgamento de Lula. Segundo ele, o processo "nada mais é que um conjunto de desrespeito as liberdades individuais, as garantias individuais que existem no Brasil".

Lula precisa ter um julgamento justo. Nós estamos aqui (em Curitiba) para cobrar isso.

Ministro nas gestões de Lula e de Dilma Roussef, Gilberto Carvalho engrossou o coro em defesa do correligionário:

Se mexer com Lula, é mexer com o povo brasileiro, com o povo pobre desse País. Eles não vão ter coragem. Espero que não tenham.

Para Carvalho, Lula é a única esperança do povo nesse momento, "além de Deus". Na avaliação dele, nenhum outro político se credenciou nesse período após o impeachment de Dilma para fazer essa defesa do povo.

"Isso foi demonstrado recentemente na caravana no Nordeste. É um fenômeno, um presente para o nosso País ter uma figura como ele."

Primeiro depoimento

Em maio, Lula foi ouvido pela primeira vez por Moro. Ele falou por cinco horas no caso do tríplex, o qual foi condenado a nove anos e seis meses de prisão.

O ex-presidente foi denunciado pelo Ministério Público Federal e depois condenado por ter recebido R$ 3,7 milhões de propina da OAS.

Na época em que foi ouvido, o petista aproveitou para dizer ao juiz que se sente vítima de perseguição.

"Estou sendo vítima da maior caçada jurídica que um presidente ou político brasileiro já teve. O objetivo é tentar massacrar esse cidadão. Ele tem que pagar o preço por existir. Esse cidadão cometeu o erro de provar que esse país pode dar certo."

Moro, então, rebateu:

"O senhor foi chamado nesse processo e tratado - desculpe se não pareceu em algum momento - com o máximo respeito."

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