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Como a 'homenagem' ao Rio com armas e drogas despertou uma polêmica sobre educação

"Quando não há supervisão do educador pode ser um fator de risco para uso de drogas”, diz especialista.

12/09/2017 15:06 -03 | Atualizado 14/09/2017 14:28 -03
Montagem / Redrodução / Youtube
Alunos de escola no Rio de Janeiro levam simulam armas e drogas em escola.

Começou com uma exposição na última terça-feira (5) para marcar a passagem de alunos do terceiro ano do Ensino Médio, mas se tornou um debate polêmico com um vídeo divulgado nas redes sociais.

Nas imagens, alunos da unidade São Cristóvão III do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, com idade entre 16 e 17 anos, usam réplicas de armas e simulam sacos de cocaína e tabletes de maconha para representar os cariocas.

Em vídeo divulgado pela procuradora do Ministério Público Federal do Distrito Federal Beatris Kicis, uma adolescente de maiô segura uma metralhadora dourada, de brinquedo, no que é chamado de "festa de favela". Outros jovens estão com armas falsas e saquinhos colocados em cima de uma mesa mostram cápsulas com pó branco, que simulariam cocaína, e etiquetas como inscrições referentes a preços das drogas.

De acordo com a procuradora, integrante do grupo Revoltados Online, conhecido por ser de extrema direita, as imagens circularam em um grupo de pais "contrários à doutrinação" nas escolas.

Prevenção

Para Zila Sanchez, professora da Unifesp e especialista em prevenção ao uso de drogas, faltou supervisão da escola na atividade. "Tudo poderia ter sido evitado se houvesse supervisão dos professores ou educadores. A escola tem responsabilidade dentre desse espaço", afirmou ao HuffPost Brasil.

De acordo com a especialista, a maioria dos programas é baseada nas habilidades de cada jovem e previne ao ensinar o adolescente a lidar com questões cotidianas, que devem ser trabalhadas em um ambiente protegido e por um educador treinado para isso, a fim de abordar conceitos como comunicação, autonomia e perspectiva de futuro.

"As questões de vida devem ser tratadas por professores treinados e num contexto protegido, para não virar apologia ao uso de drogas ou ao crime. O enfoque deve ser nas habilidades para que o jovem consiga lidar com as condições de vida de maneira mais autônoma."

Na avaliação de Sanchez, a presença do tema no ambiente escolar sem orientação pode ser um risco, devido à associação com a glamourização do crime. "É importante que jovens discutam sua realidade, mas quando não há supervisão do educador, vai para um lado que não era esperado, de glamourização, e pode ser um fator de risco para uso de drogas", afirmou.

A especialista também destacou a importância dos pais nesse processo. "Na prevenção familiar, a primeira coisa que se visa é desenvolver as habilidades parentais. Elas bem aprendidas previnem o consumo e o abuso [de drogas] dos filhos", completa.

Polarização

Não é a primeira vez que o colégio Pedro II é criticado por grupos que se dizem de direita. Eventos similares aconteceram quando a escola autorizou o uso de saia para meninos. O Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, por sua vez, já ajuizou uma ação em que acusa a instituição a usar as instalações para doutrinar os alunos.

Em nota, a escola criticou a forma como as imagens foram divulgadas "disseminando informações pré-concebidas a respeito da instituição". A reitoria do Pedro II informou que que não houve "festa de favela", mas um evento chamado "dia temático", que acontece rotineiramente com formandos e cujo tema deste ano foi "o carioca".

De acordo com a escola, o objetivo era que os alunos protagonizassem, no horário do recreio, "estereótipos de vendedores de mate, camelôs de ônibus, sambistas etc".

O ato foi autorizado pela direção da unidade porque os educadores não tinham ciência de que a encenação de tráfico estaria presente. "Alguns estudantes, à revelia do que foi proposto, fizeram uma encenação inadequada", diz o texto.

Na nota, o reitor Oscar Halac, diz ainda que os cariocas convivem diariamente com cenas de violência e tráfico de drogas e que muitos alunos residem em áreas de risco e vivem em vulnerabilidade social.

"Estudantes do Colégio Pedro II jamais fariam uma foto denominada "de favela". Não são preconceituoso, sabem que traficantes de drogas não são produções exclusivas das comunidades carentes do Rio de Janeiro."

Na manhã desta segunda-feira, a direção geral do colégio fez uma reunião com o objetivo de identificar os alunos que participaram da atividade e "não somente a aplicação das sanções previstas no Código Discente, mas principalmente reflexão sobre consequências das atitudes sob o cunho pedagógico", informou a direção, em nota.

Participaram do encontro representantes da Comissão de Formatura, do Grêmio Estudantil, da Comissão de Pais e aluno representante dos discentes no Conselho Superior do Colégio Pedro II (Consup). O colégio ainda não divulgou o resultado da apuração.

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