ENTRETENIMENTO

Como os pêssegos se tornaram um ‘fetiche’ da cultura pop

Tanto Selena Gomez quanto Lana Del Rey fizeram referência recentemente à fruta carnuda. Mas por quê? 🍑

12/09/2017 20:15 -03 | Atualizado 12/09/2017 20:15 -03
YouTube

O vídeo Fetish (Fetiche), dirigido por Petra Collins, começa com Selena Gomez voltando a pé para casa nos subúrbios enquanto uma fumaça sai de um carro quebrado à distância. Há uma sensação de desastre iminente, ou pelo menos de desordem, embora a exata causa permaneça nebulosa. Em sua mão, carrega uma sacola cheia de pêssegos.

Os pêssegos vieram da China, onde cresceram livremente durante séculos. Lá, apesar do fato de os pessegueiros terem vida curta, as frutas aveludadas se tornaram símbolos de imortalidade, em grande parte por causa de um mito chinês de que pessoas que comessem a fruta viveriam para sempre.

Os pêssegos ganharam uma conotação diferente nos dias de hoje e, por isso, temos um emoji de agradecimento. O símbolo aparentemente onipresente — um objeto roliço em forma de coração que parece ter duas bochechas — ganhou, como eloquentemente afirmado pelo site Know Your Meme, "notoriedade por sua semelhança visual com os quadris". Tornou-se sinônimo de bunda, dando à frase do século 20 "Ousaria comer um pêssego?", do poeta T.S. Elliot, um significado mais devasso.

Em Fetish, lançado em julho deste ano, a câmera lança um flash sobre a mão de Gomez, que balança entre as folhas emaranhadas de uma árvore, agarrando um pêssego. Ela examina a superfície da fruta, sua textura de lã arroxeada.

No Urban Dictionary, os pêssegos são quase sempre associados com vaginas. Como escrito por um usuário em 2007, "a suculência, o pelo macio e a forma da fruta obviamente se assemelham à vulva feminina". A associação é reforçada por outras peculiaridades coloquiais — como o fato de que as nectarinas são, muitas vezes, chamadas de "pêssegos raspados". Embora as duas interpretações contemporâneas não sejam exatamente convergentes, certamente se sobrepõem. Os pêssegos comunicam sensualidade, frescura, suavidade, feminilidade.

Voltando ao vídeo Fetish, Gomez chega a uma casa vazia em um estado de ruína indeterminada. Na pia, estão duas taças de vinho pela metade. O micro-ondas está ligado. Um inexplicável conjunto de copos de vidro ornamentados cheios de líquidos amarelos e vermelhos está sobre a mesa da sala de jantar. Ela joga a sacola de pêssegos contra a parede.

Em 1879, o pintor pós-impressionista Paul Cézanne criou a obra "Natureza Morta: Prato de Pêssegos", na qual pêssegos estão colocados em um prato azul sobre uma toalha de mesa branca. Como era sua marca, Cézanne pintava suas naturezas mortas a partir de uma variedade de pontos ao mesmo tempo. Em vez de fazer representações com luz natural e sombra, o artista estava interessado em retratos encantadores e sem sentido de frutas como se existissem apenas aos olhos do criador. Como lembrado por um conhecido do artista: "Cézanne dispôs os pêssegos de tal forma para que as cores complementares vibrassem, cinzas próximos aos vermelhos, amarelos com azuis, apoiando, inclinando, equilibrando a fruta nos ângulos que ele quisesse."

Um dos motivos que mais prevalecem na arte ocidental é a nudez feminina. Cézanne, no entanto, fez do pêssego sua musa, representando-o a partir de uma perspectiva fantástica, onde a beleza suplantou a realidade. Ainda assim, Cézanne não queria seus pêssegos perfeitamente maduros. Ele preferia suas frutas paradoxais, rosas em algumas partes e machucadas em outras. Para o artista, a beleza não era equiparada com juventude ou perfeição, e sim com complexidade, contradição, a promessa iminente de decadência.

Jason LaVeris via Getty Images

De volta à casa de Gomez, as coisas não vão bem. Ela atira algumas taças de vinho e tomates no chão da cozinha. Joga-se no chão e se contorce; depois, coloca coisas na boca que provavelmente não deveria, como sabão, batom, vidro e encrespador de cílios. Gomez desaba sob os destroços da casa.

Em 21 de julho, Lana Del Rey lançou seu quinto álbum, "Lust for Life", um exame desorientador sobre ídolos americanos mediado por visões embaçadas pelas drogas, antigos clichês, fotos desbotadas e lembranças embriagadas de sonhos. Na canção "13 Beaches", ela canta: "Com os pêssegos gotejando, estou quase sempre pronta para a câmera", brincando com a conotação hiperssexualizada da fruta. Exatamente a que os pêssegos se referem — seios, bunda, beleza — ainda não está claro. Como eles a deixam "pronta para a câmera", são enquadrados como colírio para os olhos, uma provocação, uma visão de feminilidade idealizada projetada sobre ela.

Seus pêssegos entram em cena novamente na canção seguinte, "Cherry", mas, neste caso, as coisas azedam. "Como eu te amo muito, me despedaço", Del Rey canta. "Minhas cerejas e vinho, alecrim e tomilho / E todos meus pêssegos estão destruídos." O que os pêssegos representam aqui exatamente? Representariam, como sugerido pelo aplicativo Genius, "alegrias mais doces"? Ou, como o jargão milenar nos levaria a acreditar, tetas e bunda?

Del Rey é conhecida por misturar metáforas, reorientando referências e revirando belas frases que apontam para o nada. Portanto, talvez os pêssegos não simbolizem nenhum sentimento em particular. Em sua crítica do disco, Meaghan Garvey gostou do verso "uma Vanitas para uma América contemporânea — uma natureza morta de decadência suave. Um Cézanne dos dias modernos.

Voltando ao vídeo de Gomez, que acabou de descobrir um enorme freezer em sua casa com... o que mais? Pêssegos. Ela pressiona seu corpo contra paredes e contra o chão, esfregando as frutas cobertas de gelo com seus dedos.

Os pêssegos são, em sua maior parte, desejáveis apenas quando maduros — não muito jovens, não muito velhos. Ainda assim, suas origens mitológicas conjuram uma associação de longa data com a eterna juventude, um período prolongado de amadurecimento. Também as mulheres são premiadas no estado perfeito de juventude, uma fase da vida que supostamente devem preservar apesar dos melhores esforços da natureza. Como alguém preserva pêssegos, bunda, desejabilidade, feminilidade etc.? Segundo Gomez, é só colocá-los no congelador.

O vídeo termina com Gomez brincando ao redor do freezer gigante, fazendo anjos de gelo como se estivesse desfrutando de um dia de neve. Há uma juventude palpável para todo esse bizarro exercício, uma lembrança que ser uma garota é mais do que habitar um corpo jovem. É uma forma de se deslocar pelo mundo, uma maneira de ver, brincar e amar. Ao lado das frutas preservadas, Gomez olha encantada e cheia de alegria, como se finalmente percebesse que isso pode durar para sempre.

Del Rey e Gomes oferecem dois modelos alternativos para lidar com os pêssegos. Del Rey recebe positivamente a decadência inevitável da fruta. Já "nascemos para morrer", como sua letra afirma. A beleza desaparece, suas canções sugerem, mas o amor salva. "Você ainda me amará / Quando eu não for mais jovem e bonita?" No mundo de Del Rey, a carne é uma coisa transitória, mas sua efemeridade apenas aumenta seu mistério.

A post shared by Petra Collins (@petrafcollins) on

Gomez, no entanto, fornece uma alternativa. A diretora de seu vídeo, a fotógrafa e curadora Petra Collis, é muita vezes elogiada por sua capacidade de capturar "o olhar feminino" em seu trabalho. Isso ocorre em parte devido à sua estética vertiginosamente feminina, bem como seu adorável olhar por meio do qual ela capta e representa outras mulheres jovens. Elas são retratadas não muito sexualmente, mas intimamente, porque as pistas de narrativas que comunicam suas mulheres não são objetos, mas personagens. Gomez, com seu vinho derramado e tomates esmagados, não é diferente.

Com "Fetish", Collins e Gomez retratam uma feminilidade que transcende o corpo feminino. Está presente na maneira brilhante pela qual o sol atinge o pessegueiro ou o brilho translúcido da mesa da sala de jantar, iluminada por velas sem nenhuma razão aparente. O vídeo é feminino por razões que transcendem as duas mulheres. Com seus limites difusos e tonalidade rosa, o vídeo é um pêssego em si.

Dentro do mundo de "Fetish", Gomez congela seus pêssegos, sugerindo que a mocidade pode transcender os planos da natureza para ela. Com o vídeo, Collins prova que ela está certa. Como o emoji do pêssego, Collins e Gomez mostram o que acontece quando a ideia de uma coisa se torna mais poderosa do que a coisa em si. Que a mocidade não é apenas uma fase da vida, mas uma forma de olhar e estar no mundo. Que os pêssegos podem, como a mitologia chinesa imaginou um dia, viver para sempre.

nickpo via Getty Images

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

8 músicas para matar saudades dos Backstreet Boys