LGBT

A resposta do Santander Cultural após cancelar exposição queer em Porto Alegre

"Entendemos que algumas das obras da exposição 'Queermuseu' desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas."

11/09/2017 11:00 -03 | Atualizado 11/09/2017 21:52 -03
Marcelo Liotti Junior / Divulgação
Mostra com mais 270 obras foi encerrada um mês antes do previsto.

O Santader Cultural, situado em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, cancelou neste domingo (10) a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte. A mostra estava prevista para permanecer em cartaz até o dia 8 de outubro.

A decisão da instituição foi uma reposta à onda de protestos que ocorreu nas redes sociais. Pessoas e grupos organizados consideraram a mostra ofensiva, destacando que algumas obras representavam "blasfêmia" e faziam "apologia à zoofilia e pedofilia".

Em nota oficial, o Santander justificou o cancelamento:

"Nos últimos dias, recebemos diversas manifestações críticas sobre a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira. Pedimos sinceras desculpas a todos os que se sentiram ofendidos por alguma obra que fazia parte da mostra. O objetivo do Santander Cultural é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia (...) Ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana."

Leia o texto na íntegra:

Na manhã de sábado (9), a página do MBL (Movimento Brasil Livre) no Facebook compartilhou um texto publicado no site Jornal Livre com o título Santander Cultural promove pornografia e até pedofilia com base na Lei de Incentivo à Cultura.

Durante o fim de semana, diversos perfis de grupos e pessoas aderiram ao protesto compartilhando imagens e vídeos da exposição nas redes pedindo o fechamento da mostra e também o boicote ao banco Santander.

Veja um dos vídeos com críticas à exposição que viralizou no Facebook:

Em entrevista ao jornal Zero Hora, o curador da Queermuseu, Gaudêncio Fidelis, disse que foi pego de surpresa pelo cancelamento da mostra.

"Essa decisão foi unilateral do Santander. Não fui consultado em nenhum momento sobre isso, e ninguém do Santander entrou em contato comigo. Fiquei sabendo do cancelamento por um grupo de Whatsapp", disse.

Com experiência de curador de duas bienais do Mercosul, Fidelis disse jornal O Globo que nunca tinha visto algo parecido com esta decisão de encerramento da exposição.

"As manifestações foram muito organizadas e se debruçaram sobre algumas obras muito específicas, que não dão a verdadeira dimensão da exposição. Esses grupos (de críticos) mostraram uma rapidez em distorcer o conteúdo, que não é ofensivo", afirmou.

Entre as imagens mais compartilhadas estão uma reprodução de Jesus Cristo com múltiplos braços, o desenho de uma pessoa praticando sexo com um animal e desenhos de crianças sob as frases: "Criança viada travesti da lambada" e "Criança viada deusa das águas".

A exposição contava com mais de 270 obras, entre pinturas, gravuras, fotografias, vídeos, colagens, esculturas e cerâmicas de nomes como Alfredo Volpi, Adriana Varejão, Cândido Portinari, Ligia Clark, Clóvis Graciano, entre outros.

Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte foi viabilizada pela captação de R$ 800 mil por meio da Lei Rouanet.

No texto de apresentação divulgado antes da abertura da exposição, em 15 de agosto, o Santander informava:

"Trata-se de uma iniciativa inédita que explora a diversidade de expressão de gênero e a diferença na arte e na cultura em períodos diversos. O Santander valoriza a diversidade e investe em sua unidade de cultura no Sul do País para que ela seja contemporânea, plural e criativa."

Protesto fora da internet

Após o cancelamento, foi criado no Facebook um evento de apoio à exposição intitulado Ato pela liberdade de expressão artística e contra a LGBTfobia.

Mais de 5 mil pessoas demonstram interesse em participar do ato marcado para a próxima terça-feira (12), no Centro Histórico de Porto Alegre.

Reprodução/Facebook

ATUALIZAÇÃO:

Nesta segunda (11), o banco Santander enviou uma mensagem aos clientes explicando o motivo do término da exposição antes do previsto.

De forma semelhante à nota divulgada no domingo, o texto pede desculpas a todos que "enxergaram desrespeito a símbolos e crenças na exposição".

Segundo fonte que preferiu não se identificar, a decisão da instituição teve também o sentido de prevenir danos à integridade das obras, da equipe envolvida na exposição e também do público do Santander Cultural.

No fim de semana ocorreram manifestações de críticos da exposição na porta da instituição, além de pichação de agências do banco no Centro Histórico de Porto Alegre.

Leia a mensagem completa enviada pelo Santander aos seus clientes:

Agradecemos seu contato sobre a exposição Queermuseu - Cartografias da diferença na Arte Brasileira.

Reconhecemos que, além de despertar a polêmica saudável e o debate sobre grandes questões do mundo atual, infelizmente a mostra foi considerada ofensiva por algumas pessoas e grupos.

Nós, do Santander, pedimos sinceras desculpas a todos aqueles que enxergaram o desrespeito a símbolos e crenças na exposição Queermuseu. Isso não faz parte de nossa visão de mundo, nem dos valores que pregamos. Por esse motivo, decidimos encerrar antecipadamente a mostra neste domingo, 10/09.

O Santander Cultural tem como missão incentivar as artes e dar luz ao trabalho de curadores e artistas brasileiros, para gerar reflexão positiva. Se esse objetivo não foi atingido, temos o dever de procurar novas e diferentes abordagens. Seguimos, portanto, comprometidos com a promoção do debate sobre diversidade e inclusão, entre outros grandes temas contemporâneos.

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